Festival de Veneza 2009

'O pacifista "Lebanon" vence o Leão de Ouro

Neusa Barbosa

Veneza - O drama de guerra Lebanon, do estreante israelense Samuel Maoz, venceu o Leão de Ouro do Festival de Veneza. O filme retrata a situação de três soldados israelenses confinados a um tanque, durante a guerra do Líbano de 1982. O filme foi produzido por Israel, França e Alemanha.

Visivelmente emocionado, o diretor agradeceu ao festival, por ter “mentalidade aberta”, dedicando o prêmio “a milhares pessoas em todo o mundo que voltam da guerra aparentemente sãos e salvos, casam, tem filhos mas guardam uma dor dentro da memória”. E completou o agradecimento com um manifesto pacifista: “No momento em que pararmos de matar, paramos a guerra. Sei que parece ingênuo dizer isso mas queremos abrir as mentes das pessoas para que se perguntem a que ponto chegaremos se não pararmos agora. Viva a arte do cinema, viva a Bienal, viva Veneza!”.

Não foi o único momento político da noite. A premiação com o Leão de Prata (melhor direção) à iraniana Shirin Neshat, artista plástica radicada em Nova York e também estreante no cinema com o drama feminista Zanan Bedoone Mardan (Women Without Men), abriu espaço para que ela, além dos agradecimentos, dirigisse uma mensagem ao governo de seu país – onde ela não teve condições de filmar, centralizando suas locações no Marrocos. “Meu filme mostra para o mundo e para meu país que, como nação, temos lutado por liberdade e democracia por 100 anos. Ele fala ao povo do Irã e ao governo, a quem eu peço que dê aos cidadãos o que devem ter, direitos humanos, liberdade e democracia. Faça as pazes com o povo do Irã”.

A diretora usava no pulso a fita verde que simboliza o movimento por maior democracia naquele país. Seu filme foi produzido pela Alemanha, Áustria e França.

Mesmo a surpresa da noite, o Prêmio Especial do Júri, destinado à comédia alemã Soul Kitchen, de Fatih Akin, tem um caráter político. O cenário é, afinal, um restaurante de ambiente claramente multiétnico, onde as diferenças de toda ordem se resolvem em torno da mesa. Um filme que deve ter caído sob medida para o gosto de Ang Lee, o presidente do júri.

Mostrando o troféu, o diretor Akin dedicou um agradecimento especial a Adam Bousdoukos, seu ator protagonista e corroteirista: “Sem a sua coragem, não teríamos feito isto!”.

Já um filme que liderava bolsas de apostas na imprensa nos últimos dias, o norte-americano Life During Wartime, de Todd Solondz, levou apenas o troféu de melhor roteiro. No agradecimento, Solondz disse: “É tão divertido! Ganhar um prêmio te faz ter 11 anos de novo, não tem nada melhor. Sou uma pessoa feliz. Grazie a tutti”. Outro norte-americano que era muito lembrado nas cotações da imprensa, o documentário Capitalism; A Love Story, de Michael Moore, não ganhou nenhum prêmio, assim como o muito elogiado Lola, do filipino Brillante Mendoza.

Também é de se notar a ausência na lista de premiados do alemão Werner Herzog – que teve que se contentar com ter entrado para a história do festival com dois filmes na mesma edição, Bad Lieutenant: Port of Call New Orleans e My Son, My Son, What Have Ye Done?.

Atrizes italianas
Como aconteceu no ano passado em Veneza, os filmes italianos (quatro na competição, este ano) passaram batido das principais premiações, mas conseguiram troféus de interpretação.

Foi o caso de duas atrizes, Jasmine Trinca, vencedora do prêmio Marcello Mastroianni, dedicado a um ator emergente, por sua atuação em Il Grande Sogno, de Michele Placido, e Ksenia Rappoport, ganhadora da Copa Volpi de melhor interpretação feminina como protagonista de La Doppia Ora, de Giuseppe Capotondi.

A Copa Volpi de melhor ator ficou para o ator inglês Colin Firth, por A Single Man, filme de estreia do estilista norte-americano Tom Ford. Casado com uma italiana, Firth expressou seu agradecimento, o mais longo da noite, à Itália, em italiano: “Este me país me inundou de presentes. Deu-me a cultura, a literatura, o grande cinema, a arte, a cozinha, os vinhos, a grappa, até a mulher, belíssima, dois filhos maravilhosos”.

O ator não esqueceu de mencionar Tom Ford, que definiu como “um dos maiores diretores com quem trabalhei, um verdadeiro artista, obrigado. Não vejo a hora de ver a próxima obra que fará. Manterei a agenda livre”. E agradeceu, finalmente, á sua mulher, “pela paciência nestes 15 anos de agüentar estes ‘maridos diversos’”.

Um prêmio de melhor contribuição técnica foi atribuído a Sylvie Olivé, pela direção de arte de Mr. Nobody, produção francesa assinada pelo belga Jaco Von Dormael.

O Leão do Futuro, chamado também prêmio Luigi de Laurentiis, destinado ao melhor primeiro filme de todas as seções do festival, foi entregue à produção filipina Engkwentro, de Pepe Diokno, um jovem de apenas 22 anos. O prêmio garante um cheque de US$ 100.000,00.

Engkwentro venceu um segundo troféu, de melhor filme dentro da mostra Horizontes, onde competiram dois filmes brasileiros, que não venceram nenhum prêmio – Viajo porque Preciso, Volto porque te amo, de Marcelo Gomes e Karim Ainouz, e Insolação, de Daniela Thomas e Felipe Hirsch.

Em outra mostra paralela, Controcampo Italiano, o vencedor foi Cosmonauta, de Susanna Nicchiarelli, com uma menção especial a Negli Occhi, de Daniele Anzelotti e Francesco Del Grosso.

Outros prêmios
A Federação Internacional dos Críticos (FIPRESCI) divulgou nesta manhã de sábado (12) seu prêmio de melhor filme da competição no Festival de Veneza à produção austríaca, falada em francês, Lourdes, de Jessica Hausner.

Na justificativa, o júri de críticos apontou que o filme austríaco “surpreende do começo ao fim com uma abordagem inusitada e original de um assunto raramente tratado no cinema”. O enredo trata da peregrinação de pessoas doentes ao santuário católico de Lourdes e da ocorrência de um suposto milagre a uma mulher, que sofre de esclerose múltipla (vivida pela atriz francesa Sylvie Testud).

Na seção Horizontes, a FIPRESCI elegeu o filme vietnamita Choi Voi, de Bui Thac Chuyen, destacando sua “maturidade e riqueza cinematográfica”.

Lourdes venceu outro prêmio paralelo em Veneza, atribuído pela organização católica de comunicação SIGNIS. A mesma entidade concedeu uma menção honrosa ao drama de guerra israelense Lebanon, de Samuel Maoz, que venceu o Leão de Ouro.

The Hole, mais recente trabalho do norte-americano Joe Dante, recebeu o prêmio Persol para o melhor filme 3D do ano. É a primeira vez que o Festival de Veneza inclui uma premiação deste tipo.


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