Festival de Veneza 2009

Últimos filmes em Veneza podem mudar rumo das apostas de premiação

Neusa Barbosa

Veneza - Exibidos todos os concorrentes do 66º, Festival de Veneza, cuja premiação será divulgada no sábado(12), dois filmes norte-americanos, Life During Wartime, de Todd Solondz, e o documentário Capitalism: A Love Story, de Michael Moore, lideram as apostas de um ranking divulgado pela edição diária da Variety.

Apesar de os votantes desta tabela serem apenas críticos das principais publicações italianas, é sintomático que a primeira produção do país-sede do festival – que tem quatro concorrentes ao Leão de Ouro – compareça apenas no sétimo lugar. Trata-se de La Doppia Ora, um suspense um tanto rocambolesco, estrelado por Ksenia Rappoport (A Desconhecida) e Filippo Timi, e dirigido por Giuseppe Capotondi.

A exemplo do que ocorreu no ano passado em Veneza, a produção recente italiana não entusiasmou nem mesmo os críticos nacionais. Uma prova é que os dramas Lo Spazio Bianco, de Francesca Comencini, Baaria, de Giuseppe Tornatore, e Il Grande Sogno, de Michele Placido, comparecem, respectivamente, no 15º, 18º e 20º lugares do ranking.

Concorrência de última hora
Exibidos os três últimos concorrentes, a surpresa filipina Lola, de Brillante Mendoza, Mr. Nobody, de Jaco Von Dormael (Um Homem com Duas Vidas) e a muito esperada estreia cinematográfica do festejado estilista norte-americano Tom Ford, A Single Man, que ainda não foram avaliados para este ranking da Variety, as apostas podem mudar.

Os três filmes causaram forte impressão em boa parte da crítica italiana e internacional. Avalia-se que, por sua temática humanista, pelo menos dois deles, Lola e muito especialmente A Single Man, caem sob medida para o perfil do presidente do júri este ano, o cineasta sino-americano Ang Lee – que aqui ganhou dois Leões de Ouro, por O Segredo de Brokeback Mountain (2005) e Desejo e Perigo (2007).

Lola enfoca a emergência social nas Filipinas pelo olhar de suas avós (Rustica Carpio e Anita Linda), unidas pelo assassinato do neto de uma pelo neto da outra. A Single Man, por sua vez, adapta o romance de Christopher Isherwood, contando a história de um professor universitário (Colin Firth, em interpretação com grande potencial de premiação) em grave crise emocional pela morte de seu companheiro (Matthew Goode, de Match Point).

Pela complicada engenharia de seu roteiro, que avança e recua no tempo e carrega ecos dos filmes de Charlie Kaufman (Sinédoque, Nova York) e Michel Gondry (roteirista de Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças), com um toque de O Curioso Caso de Benjamin Button, para filtrar o universo do personagem Nemo (Jared Leto), Mr. Nobody também pode levar o prêmio de roteiro.

O forte drama israelense Lebanon, de Samuel Maoz, tem-se mostrado constante nos comentários da imprensa como candidato sério a premiações – roteiro e interpretações as mais prováveis, mas muitos, como os críticos Michel Cement, da revista francesa Positif, e Deborah Young, da norte-americana Hollywood Reporter, colocam-no entre os favoritos ao Leão de Ouro, em outro ranking da Variety, este da imprensa internacional.

Neste ranking, aparecem dois outros filmes que parecem continuar no páreo, apesar de exibidos nos primeiros dias do festival: a produção norte-americana The Road, de John Hillcoat – que registra performances admiráveis dos atores Viggo Mortensen e do jovem Kodi Smit-McPhee – e o drama austríaco falado em francês Lourdes, de Jessica Hausner, com interpretação marcante da francesa Sylvie Testud.

Trio francês
A produção francesa marcou seu território em Veneza com três filmes que de modo nenhum devem ser desconsiderados. Caso da veterana Claire Denis, que constroi em White Material um sólido drama sobre o colonialismo na África. Ambientado em Camarões, o filme registra uma performance notável da estrela Isabelle Huppert, que pode muito bem ser considerada séria candidata ao troféu de interpretação feminina.

36 Vues Du Pic Saint Loup, de outro medalhão do cinema francês, Jacques Rivette, é um primor de criatividade ao enfocar as relações de uma pequena trupe circense, com um elenco liderado por Jane Birkin e o italiano Sergio Castellito.

Patrice Chéreau (A Rainha Margot) sintoniza uma chave mais intensa em seu drama Persécution, no qual embaralha as emoções de um pequeno grupo de moradores de Paris. O elenco é formado por Romain Duris, Jean-Hughes Anglade e Charlotte Gainsbourgh.

Falando em perspectivas de premiação, parece difícil imaginar que o alemão radicado nos EUA Werner Herzog, que entrou para a história do festival ao assinar dois filmes na mesma competição – Bad Lieutenant: Port of Call New Orleans e My Son, My Son, What Have Ye Done?- , saia daqui de mãos vazias.

Mas todo júri sempre reserva alguma surpresa. Seria o caso de alguma premiação à única comédia da competição, a produção alemã Soul Kitchen, de Fatih Akin – o que parece improvável, apesar de ser um filme delicioso.

Poderia ser considerado um verdadeiro desastre o júri destinar qualquer prêmio a algumas das maiores decepções do festival – caso do novelão chinês Prince of Tears ou do confuso egípcio The Traveller.


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