Festival de Veneza 2009

Segundo filme-surpresa em Veneza é o filipino “Lola”, de Brillante Mendoza

Neusa Barbosa

Veneza - Foi revelado neste início de tarde de quinta (10) o segundo filme-surpresa da competição no Festival de Veneza, a produção franco-filipina Lola, de Brillante Mendoza. O diretor irá a São Paulo no próximo dia 17, para participar da Mostra Indie, em São Paulo, onde haverá uma retrospectiva de seu trabalho. Dia 19, ele participa de uma conversa com o público, no CineSesc.

O primeiro filme-surpresa fora My Son, My Son, What Have Ye Done?, de Werner Herzog, único diretor na história do festival a ter dois filmes concorrendo ao Leão de Ouro no mesmo ano (o outro filme de Herzog é Bad Lieutenant: Port of Call New Orleans).

Habitual frequentador do Festival de Cannes, onde exibiu em competição Serbis (2008) e Kinatay (prêmio de melhor diretor em 2009), Mendoza realizou em Lola seu filme mais intimista, ao traçar um paralelo entre as histórias de duas avós, Lola Sepa (Anita Linda) e Lola Puring (Rustica Carpio). As duas atrizes são profissionais, sendo que Anita Linda tem 84 anos, Rustica Carpio, 79.

Uma mesma morte une os destinos das duas: o neto de Lola Puring, Mateo (Ketchup Eusebio), matou o neto de Sepa, para roubar-lhe o celular. Ao revelar passo a passo, com realismo documental, o cotidiano das duas, o cineasta mais uma vez expõe os bastidores da economia e da justiça de seu país.

Como em seus trabalhos anteriores, a impressão mais forte é de que os cidadãos pobres do país encontram-se entregues à própria sorte, enfrentando péssimas condições de moradia, trabalhos irregulares e nenhuma proteção por parte do Estado.

Um dos recursos mais eficientes do roteiro, assinado por Linda Casimiro, é a ênfase no quanto a resolução dos problemas do dia a dia, dos mais elementares aos mais dramáticos – até mesmo o processo do assassinato – passam por uma negociação individual, em que as pessoas devem encontrar alguma espécie de solução fora da esfera institucional.

Um outro aspecto do filme é a procura do realismo. Mendoza filmou seu segundo filme este ano (o primeiro foi Kinatay) em junho, em plena estação de chuvas em Manila. Isto fortalece a impressão de sufoco dos personagens, sempre ensopados, ilhados e enfrentando alagamentos.

Fatih Akin e o molho da comédia “Soul Kitchen”
Conhecido por dramas como Contra a Parede (Urso de Ouro no Festival de Berlim de 2004) e Do Outro Lado (prêmio de melhor roteiro no Festival de Cannes de 2007), o diretor alemão Fatih Akin realizou sua primeira comédia em Soul Kitchen, cujo cenário é um restaurante descolado em Hamburgo. O filme compete pelo Leão de Ouro em Veneza. No Brasil, o filme será distribuído pela Imovision.

Assinado por Akin e pelo ator Adam Bousdoukos, o roteiro de Soul Kitchen tem um pé na realidade. Parte da experiência real do próprio Bousdoukos, um alemão de origem grega que teve um restaurante no bairro de Ottensen, em Hamburgo, o “Taverna Grega”.

Ele mesmo interpreta o protagonista, Zinos Kazantsakis, que enfrenta uma porção de problemas para administrar seu restaurante de bairro, o Soul Kitchen. Sozinho, ele o administra e cuida da cozinha. Vive atormentado por cobradores de impostos e fiscais de saúde. Para piorar, sua namorada Nadine (Pheline Roggan, de Irina Palm) resolveu mudar-se para Xangai.

Não é tudo. Seu irmão, Ilias (Moritz Bleibtreu, de Corra Lola, Corra) ganha o benefício da prisão-albergue e ressurge em sua vida, precisando de ajuda. E, ao arrastar uma pesada máquina no restaurante, Zinos desloca um disco em sua coluna e passa o tempo com dores e mancando – o que se torna uma verdadeira metáfora de sua situação precária.

Na coletiva do filme, nesta tarde de quinta (10), o ator Adam Bousdoukos contou que o diretor Akin usou sua própria experiência com uma hérnia para orientá-lo sobre sua postura corporal no filme. Em sua opinião, o problema tem tudo a ver com o personagem: “Ele carrega todo um peso, não só psicológico, como físico, decorrente de todo o estresse que ele está vivendo”.

Akin, por sua vez, admitiu que “foi muito mais difícil” escrever uma comédia do que todos os dramas anteriores. “Tive muito mais dificuldade de criar diálogos cômicos do que os dramáticos. Também achei mais difícil respeitar as regras da narrativa tradicional, com começo, meio, fim”.

O diretor contou não ter tido tanto medo de errar, ao mudar de gênero: “Não quero me repetir. Prefiro fracassar e continuar tentando”.


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