Festival de Veneza 2009

Veneza 2009 decola com filmes de Tornatore e Hillcoat

Neusa Barbosa

Veneza - Primeiro concorrente da competição do 66º. Festival de Veneza, o melodrama italiano Baaría, de Giuseppe Tornatore (Cinema Paradiso), foi apresentado nesta manhã de quarta (2) em sua primeira sessão para jornalistas. O que se viu foi uma superprodução ambiciosa, com orçamento declarado de 25 milhões de euros (cerca de R$ 70 milhões), com elenco de cerca de 200 atores, embora com poucos nomes conhecidos – todos em pontas, caso de Monica Bellucci - e a intenção de dar conta de aproximadamente 70 anos da história italiana, dos anos 30 aos dias de hoje.

A noite de gala, com direito a tapete vermelho – já devidamente instalado, apesar da correria e confusão vistas na tarde de ontem – e a apresentação da atriz italiana Maria Grazia Cuccinota ocorre nesta noite, a partir das 19h na Sala Grande, ao lado do Cassino do Lido veneziano, sede do festival.

Projeto acalentado há anos por Tornatore, Baaría – que é o nome fenício da terra natal do diretor, Bagheria, na Sicília – tem outros números raros para o cinema italiano fora o orçamento, o maior em muitos anos por aqui. Foram nove meses de preparação, 12 meses de construção de cenários, 25 semanas de filmagens. Como o enredo atravessa muitos períodos históricos plenos de manifestações de massa, passando pelo desenvolvimento simultâneo do fascismo e do comunismo italiano, a II Guerra, o ativismo dos anos 60 contra a guerra do Vietnã e outros movimentos, há diversas cenas de multidão – o que explica outra cifra generosa do filme, 163 atores não profissionais.

Como, além de montar um painel histórico-político, o filme de Tornatore aposta claramente num ângulo romântico, não poderia faltar um casal. Este é formado pelo militante comunista Peppino Torrenuova (Francesco Scianna, ator de teatro em seu primeiro papel como protagonista no cinema) e sua mulher, a bela Mannina (Margareth Madè, que tem passado como modelo). As atribulações de ambos e seus numerosos filhos, que chegarão a cinco pelo final da história, remetem sempre a um amor familiar, que resiste às decepções políticas de Peppino. O ativista, por mais que lute, afinal fica preso também a um certo fatalismo, que une os sicilianos de sua cidadezinha a um mesmo destino sem grande brilho. Belo em suas imagens, com uma trilha sonora assinada por Ennio Morricone – aqui em sua oitava colaboração com o diretor -, Baaría não esconde seu espírito melancólico.

Discutindo a política e a identidade sulista
“Nos últimos anos, muito mudou na Itália. E uma das coisas que se perderam foi a paixão civil. Antes se educava os filhos para muitas coisas, inclusive sobre como relacionar-se com o mundo”. Esta foi uma das declarações com que o diretor Giuseppe Tornatore respondeu a indagações sobre suas intenções sobre seu último trabalho.

Escrito e dirigido pelo cineasta, diretor de filmes como o sucesso internacional Cinema Paradiso (Oscar de melhor filme estrangeiro em 1990), Malena (2000) e A Desconhecida (2006), “Baaría” contém críticas não só à violência das autoridades fascistas nos anos 30 e 40, como sobre a atuação do Partido Comunista Italiano, que era um de seus principais opositores.

Perguntado se um de seus objetivos na história era identificar “culpas da esquerda” – por causa de uma cena em que dois personagens discutem o significado do termo “reformismo”, Tornatore não negou. “Espero que minha definição de ‘reformista’ seja cinematográfica, mas também se mostre útil para promover uma reflexão sobre o papel da esquerda”. Para o cineasta, seria importante hoje retomar-se o diálogo “entre pessoas que pensem diferente”. Para ele, “hoje isto não há mais. Há uma resistência em aceitar as posições contrárias, mas este me parece um modo razoável de fazer política”.

Embora seu filme se ambiente na Sicília, que está no centro da história e foi também a sede de suas locações, o diretor não crê que a produção se limite somente a isto. “Minha perspectiva foi a de contar coisas que se aplicam a qualquer outro país. Neste sentido, o filme termina sendo uma alegoria sobre todos os lugares”.

Nem por isso Baaría, que é falado em grande parte no dialeto siciliano, deixa de ser igualmente uma afirmação regional deste sul da Itália, tantas vezes vítima de preconceitos dentro do país. O próprio lançamento do filme nas salas italianas, previsto para o próximo dia 25, em cerca de 500 cópias, será feito com três versões. Uma em italiano, outra num siciliano italianizado, outra ainda em siciliano puro – como a versão exibida no festival e que será, também, aquela lançada no exterior. Caso do Brasil, onde o filme tem estreia prevista para o Natal de 2009.

Ecos do apocalipse
O segundo concorrente ao Leão de Ouro em Veneza, The Road, produção norte-americana dirigida pelo australiano John Hillcoat, mirou num apocalipse futurista, mas investiu muito de sua energia na relação de amor entre um pai (Viggo Mortensen, de Um Homem Bom) e um filho (o ótimo adolescente australiano Kodi Smit McPhee).

O enredo baseia-se no livro homônimo, assinado pelo escritor Cormac McCarthy (autor de Onde os Fracos não Tem Vez, filmado pelos irmãos Ethan e Joel Coen) e que venceu o prêmio Pulitzer. Num tempo futuro indeterminado, uma catástrofe ambiental de proporção planetária varreu a natureza. Terremotos, incêndios e temporais se sucedem, ao mesmo tempo em que a atividade econômica se interrompe, bem como toda vida social.

Ilhada nestes tempos obscuros, uma família, formada por uma mulher (Charlize Theron, de Terra Fria), um pai (Viggo Mortensen) e seu filho (Kodi Smit McPhee), sobrevivem como podem. Até que ela perde a esperança. Mais tarde, somente o pai e o filho são vistos juntos, errando por estradas devastadas e perigosas, infestadas de gangues canibais. O destino da mãe só é revelado mais adiante na história.

Com ecos de outros filmes mais ou menos recentes abordando diversos tipos de apocalipse – como Extermínio, de Danny Boyle, Eu Sou a Lenda, de Francis Lawrence, e até mesmo Ensaio sobre a Cegueira, de Fernando Meirelles – o filme de Hillcoat tem energia e personalidade. Embora claramente não seja nada fácil de assistir.

A tensão que The Road produz no espectador é genuína. É o tipo de filme que se assiste com os sentidos acesos e o coração apertado. E sustenta com força sua única premissa – o que será deste pai e deste filho, procurando manter um mínimo de amor e de ética num mundo em que a sobrevivência se tornou o último desafio?

Uma outra atração está nas pontas de alguns atores conhecidos – caso do veterano Robert Duvall e do australiano Guy Pearce (Amnésia), quase irreconhecíveis debaixo de pesada maquiagem.


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