63º Festival de Berlim

Urso de Ouro a filme romeno é merecido

Plínio Ribeiro Jr., de Berlim

 

 O júri do 63° Festival de Berlim, presidido pelo cineasta Wong Kar-Wai, atribuiu um merecido Urso de Ouro ao filme romeno Child’s Pose, drama dirigido por Calin Peter Netzer, vencedor igualmente do prêmio FIPRESCI, concedido pela imprensa internacional. A obra aborda a relação de uma mãe possessiva com seu filho único e a evolução desta relação depois que, acidentalmente, ele mata uma criança num acidente. Esta fatalidade vai permitir ao diretor explorar todos os meandros que a desigualdade social deixa transparecer na Romênia dos dias atuais. Trata-se de um filme que sempre fez parte dos cotados ao grande prêmio justamente por criar pontes tão pertinentes entre a esfera familiar e social, entre as pequenas (e grandes) manipulações inerentes às relações afetivas, mas também presentes nas relações de poder e status. 

Num engajado discurso de agradecimento, a produtora Ada Solomon agradeceu tanto aos que apoiaram quanto aos detratores, sublinhando que estes últimos fortaleceram a equipe do filme. Sem esquecer de dedicar o prêmio à atriz principal do filme, Liminita Gheorghiu, Ada mandou um recado aos políticos romenos, dizendo que eles devem prestar mais atenção ao cinema romeno.  

 An Episode in the Life of an Iron Picker, produção bósnia dirigido por Danis Tanovic, recebeu o Grande Prêmio do Júri, assim como o Urso de Prata de melhor ator, dado a Nazif Mujic. O filme nasceu do sentimento de revolta de Danis ao ler uma reportagem que relatava um drama vivido por uma família  situação de ciganos. Ao conhecer Nazif e sua família, ele decidiu adaptar o episódio, usando os próprios personagens como atores e seu talento para criar um filme denso, sensível e de forte cunho social. 

Apesar da abundância de candidatas ao prêmio de melhor atriz na seleção 2013, já era mais do que esperada a consagração de Paulina García  como melhor atriz, por sua atuação no excelente Gloria, do chileno Sebastián Lelio. O filme, que conquistou jornalistas e demais profissionais presentes, foi uma unanimidade no festival e a interpretação de Paulina, que vive uma mulher de meia idade à procura do amor, é simplesmente arrebatadora e vai certamente angariar muito mais fãs ao longo do ano, já que foi a coqueluche junto aos compradores presentes no mercado que ocorre simultaneamente ao festival. No Brasil, o filme será distribuído pela Imovision. 

Uma grande surpresa foi a atribuição do Urso de Prata de melhor direção a David Gordon Green, por Prince Avalanche. Apesar de o filme ter seus méritos, havia outros candidatos no páreo para o prêmio. Provavelmente a presença de Tim Robbins no júri da Berlinale foi decisiva para esta escolha. 

Já o diretor Jafar Panahi, condenado pelo regime iraniano a 6 anos de prisão domiciliar e a outros 20 de interdição de filmar, teve sua coragem premiada ao conquistar o prêmio de melhor roteiro, dado ao filme Closed Courtain, codirigido por Kamboziya Partovi, que subiu ao palco para receber o prêmio no lugar de Jafar Panahi. 

O impacto visual provocado pelas imagens de Harmony Lessons, filme de estreia do cineasta cazaque Emir Baigazin, foi merecidamente recompensado por um Urso de Prata pela fotografia de Aziz Zhambakiyev. 

A produção canadense Vic+Flo ont vu un ours, dirigida por Denis Côté, recebeu o prêmio Alfred Bauer (fundador do festival), dedicado a filmes que abrem novas perspectivas. Se nenhum dos longas-metragens franceses foi premiado, o Urso de Ouro de melhor curta-metragem foi concedido ao curta francês La Fugue, dirigido por Jean-Bernard Marlin. 

Apesar de nenhum filme brasileiro presente na disputa pelos prêmios principais, o documentário Hélio Oiticica, dirigido por Cesar Oiticica Filho e presente na seção Forum, foi eleito o melhor filme nesta categoria pela crítica internacional (FIPRESCI) e também levou o prêmio Caligari, atribuido por um júri de três pessoas a um dos integrantes da seleção do Forum. 


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