Brasília consagra o cinema pernambucano

Brasília consagra o cinema pernambucano

Neusa Barbosa
No final, rolou um distributivismo entre os representantes do cinema pernambucano, com a divisão do prêmio de melhor filme para o favorito Era Uma Vez Eu, Verônica, terceiro longa de Marcelo Gomes, e o novíssimo Eles Voltam, do estreante Marcelo Lordello.
Não foi surpresa que o cinema pernambucano fosse o grande premiado, até porque era o mais representado na competição deste ano. Mas a divisão surpreendeu – assim como o prêmio de melhor atriz ter-se desviado de Hermila Guedes, impecável como a Verônica do longa de Marcelo Gomes, para as mãos da adolescente estreante Maria Luiza Tavares, protagonista do filme de Lordello.
Os dois longas foram os principais premiados da noite.O campeão Era Uma Vez Verônica ficou com cinco Candangos: melhor filme (dividido), ator coadjuvante (para o impressionante ator de teatro paraibano W. J. Solha), fotografia (Mauro Pinehiro Jr.), roteiro (Marcelo Gomes) e trilha sonora (Karina Buhr e Tomaz Alves Souza). Fora isso, o longa ganhou também o troféu Vagalume, concedido por um júri do projeto Cinema para Cegos.
Eles Voltam levou três Candangos: melhor filme (dividido), melhor atriz (Maria Luiza Tavares) e melhor atriz coadjuvante (Elayne Moura). Além disso, o instigante filme de Lordello levou também o prêmio da Crítica do Júri Abraccine como melhor longa desta edição.
Outro longa de estreante pernambucano, Boa Sorte Meu Amor, de Daniel Aragão também não fez feio, arrebatando os Candangos de melhor direção, melhor som (Guga S. Rocha, Phelipe Cabeça e Pablo Lopes) e uma Menção Especial do Júri – bem estranha, diga-se de passagem – para a rapidíssima participação do veterano ator das pornochanchadas Carlo Mossy.
Pouco sobrou para os concorrentes cariocas: dois Candangos, melhor montagem (Ricardo Pretti) e melhor direção de arte (Gatto Larsen e Rubens Barbot) para O Amor que nos Consome, do estreante Allan Ribeiro; o Candango de melhor ator para Enrique Diaz em Noites de Reis, de Vinicius Reis, e nada para A Memória que Me Contam, de Lúcia Murat, um dos grandes injustiçados da noite.
 
Documentário
Entre os documentários, os principais premiados foram o concorrente mineiro Otto, de Cao Guimarães, dono dos prêmios de melhor filme, fotografia, som e trilha sonora. O concorrente paulista Elena, de Petra Costa, ficou com outros três prêmios: direção, direção de arte e montagem. Um Filme para Dirceu, de Ana Johann (PR), recebeu um solitário Prêmio Especial do Júri. O excelente Doméstica, do pernambucano Gabriel Mascaro, foi, injustamente, o grande esnobado desta seção, levando apenas o Prêmio Saruê, concedido pela equipe do jornal Correio Braziliense. Foi pouco para a qualidade do filme.
 
Curtas
Entre os curtas, foi consagrado o filme que realmente mais merecia: a ficção A Mão que Afaga, da baiana radicada em São Paulo Gabriela Amaral Almeida, que levou prêmios de melhor roteiro, atriz (Luciana Paes), montagem (Marco Dutra), prêmio da Crítica/Júri Abraccine, prêmio do júri popular, prêmio Aquisição Canal Brasil e o troféu Vagalume.
Mas foi de outro curta, O Vestido de Laerte, de Cláudia Priscilla e Pedro Marques (SP), o Candango de melhor curta de ficção.
O melhor curta de animação – um setor bem fraco este ano - foi Valquíria, de Luiz Henrique Marques. O melhor curta documental, para o júri oficial, foi A Guerra dos Gibis, de Rafael Terpins e Thiago Brandimarte (SP). Para o júri popular, venceu como curta documental A Ditadura da Especulação, do coletivo Zé Furtado – que mais uma vez levou ao palco do Teatro Cláudio Santoro um ruidoso grupo de protesto, integrado por índios que lutam pela preservação do Santuário dos Pajés, em Brasília, e que portava faixas com os dizeres: “Terracap (um dos patrocinadores do festival) lucra com desigualdade” e “Quem mata índio vai para a mídia, quem defende vai para a cadeia”.
 
Balanço do ano
Para o coordenador do festival, Sérgio Fidalgo, tudo está aberto a discussão para o 46º Festival – inclusive duas questões bastante discutidas neste ano, a divisão entre ficções e documentários e a manutenção das animações como categoria à parte nos curtas-metragens.
A separação entre ficções e documentários na premiação, segundo ele, decorreu de uma constatação da quantidade e da qualidade da produção documental, bem como de que, apesar disso, os documentários tinham um “menor peso” nas mostras competitivas.
O medo de que o público não endossasse a opção do festival, porém, não se justificou, já que as sessões das 19h, dedicadas a curtas e longas documentais, tiveram boas médias de público, em torno de 1.000 espectadores diariamente.
Quanto ao fato de vários filmes na seleção serem híbridos, Fidalgo acredita que se “tem que lidar com isso”. E que a coordenação pensa em aperfeiçoar os mecanismos das comissões de seleção, cogitando, por exemplo, a atuação de uma curadoria.
 
Números
Os números da 45ª edição, divulgados pelo coordenador, impressionam: nada menos de 25.000 pessoas participaram de todas as atividades do festival, entre filmes, seminários e debates.
O Teatro Nacional Cláudio Santoro/Sala Villa-Lobos, sede do festival neste ano de reforma do tradicional Cine Brasília, recebeu uma média de 2.000 pessoas por dia – computando sessões de documentários e ficções -, o que somou um total de 12.000 espectadores durante todo o festival, excetuando-se aí a noite de abertura.
A mostra Panorama, não-competitiva e vespertina, recebeu média de 400 pessoas diariamente, computando total de 1.600. A Mostra nas Cidades, que tem uma função de formação de público e incluindo este ano quatro cidades-satélites da capital federal, recebeu cerca de 1.200 espectadores no total.
 
Cine Brasília
Para a próxima edição, deverá estar de volta o Cine Brasília – que tem cerca de 600 lugares, a metade do Cláudio Santoro -, com novas poltronas e equipamentos. E também deverá ser tornada mais rígida a exigência de que os realizadores entreguem seus filmes com antecedência, para evitar os problemas ainda recorrentes, da projeção digital.  
O coordenador estuda inclusive incluir como cláusula para possível desclassificação o descumprimento desta antecedência. “Há casos em que os filmes chegam no próprio dia da projeção, impedindo a solução de problemas que podem, inclusive, não estar nos equipamentos de projeção”, afirmou o coordenador.  
 
Abaixo, a lista das principais premiações:
 
Prêmios
 
PRÊMIOS DO JÚRI OFICIAL
 
LONGA-METRAGEM DE FICÇÃO
 
Melhor filme - R$ 250 mil
“Eles voltam”, de Marcelo Lordello e “Era uma vez eu, Verônica”, de Marcelo Gomes
 
Melhor direção - R$ 20 mil
Daniel Aragão (Boa sorte, meu amor)
 
Melhor ator - R$ 5 mil
Enrique Diaz (Noites de Reis)
 
Melhor atriz - R$ 5 mil
Maria Luiza Tavares (Eles voltam)
 
Melhor ator coadjuvante - R$ 3 mil
W. J. Solha (Era uma vez eu, Verônica)
 
Melhor atriz coadjuvante - R$ 3 mil
Elayne Moura (Eles voltam)
 
Melhor roteiro - R$ 5 mil
Marcelo Gomes (Era uma vez eu, Verônica)
 
Melhor fotografia - R$ 5 mil
Mauro Pinheiro Jr. (Era uma vez eu, Verônica)
 
Melhor direção de arte - R$ 5 mil
Gatto Larsen e Rubens Bardot (Esse amor que nos consome)
 
Melhor trilha sonora - R$ 5 mil
Karina Buhr e Tomaz Alves Souza (Era uma vez eu, Verônica)
 
Melhor som - R$ 5 mil
Guga S. Rocha, Phelipe Cabeça, Pablo Lopes (Boa sorte, meu amor)
 
Melhor montagem - R$ 5 mil
Ricardo Pretti (Esse amor que nos consome)
 
Menção Especial do Júri
A menção especial do júri é dedicada a um artista múltiplo. Um ator que dirige, escreve e produz. Um ator que entrou para o imaginário do audiovisual brasileiro como ícone de um tipo de cinema que fazia humor sem o preservativo da hipocrisia e da caretice: Carlo Mossy, integrante do elenco de “Boa sorte, meu amor”.
 
CURTA-METRAGEM DE FICÇÃO
 
Melhor filme - R$ 20 mil
Vestido de Laerte, de Claudia Priscilla e Pedro Marques
Melhor direção - R$ 5 mil
Eduardo Morotó, Marcelo Martins Santiago e Renan Brandão (Eu nunca deveria ter voltado)
 
Melhor ator - R$ 3 mil
Everaldo Pontes (Eu nunca deveria ter voltado)
 
Melhor atriz - R$ 3 mil
Luciana Paes (A mão que afaga)
 
Melhor roteiro - R$ 3 mil
Gabriela Amaral Almeida (A mão que afaga)
 
Melhor fotografia - R$ 3 mil
Pedro Sotero (Canção para minha irmã)
 
Melhor direção de arte – R$ 3 mil
Fernanda Benner (Vestido de Laerte)
 
Melhor trilha sonora - R$ 3 mil
Pedro Gracindo e Victor Lourenço (Eu nunca deveria ter voltado)
 
Melhor som - R$ 3 mil
Felippe Schultz Mussel e Rodrigo Maia (Eu nunca deveria ter voltado)
 
 
Melhor montagem - R$ 3 mil
Marco Dutra (A mão que afaga)
 
CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
 
Melhor filme - R$ 20 mil
Valquíria, de Luiz Henrique Marques
 
LONGA-METRAGEM DOCUMENTÁRIO
 
Melhor filme - R$100 mil
Otto, de Cao Guimarães
 
Melhor direção - R$ 20 mil
Petra Costa (Elena)
 
Prêmio Especial do Júri
Um Filme para Dirceu, de Ana Johann
 
Melhor fotografia - R$ 5 mil
Cao Guimarães e Florencia Martínez (Otto)
 
Melhor direção de arte - R$ 5 mil
Filme “Elena”
 
Melhor trilha sonora - R$ 5 mil
O Grivo (Otto)
 
Melhor som - R$ R$ 5 mil
O Grivo (Otto)
 
Melhor montagem - R$ 5 mil:
Marília Moraes e Tina Baz (Elena)
 
CURTA-METRAGEM DOCUMENTÁRIO
 
Melhor filme - R$ 20 mil
A Guerra dos Gibis, de Thiago Brandimarte Mendonça e Rafael Terpins
Melhor direção - R$ 5 mil
Liliana Sulzbach (A Cidade)
 
Melhor fotografia - R$ 3 mil
Francisco Alemão Ribeiro (A Cidade)
 
Melhor direção de arte - R$ 3 mil
Natália Vaz (A Guerra dos Gibis)
Melhor trilha sonora - R$ 3 mil
BID (A Guerra dos Gibis)
Melhor som - R$ 3 mil
Cléber Neutzling (A Cidade)
 
Melhor montagem - R$ 3 mil
Eduardo Serrano (A Onda Trás, o Vento Leva)
 
PRÊMIO DO JÚRI POPULAR
Melhor longa-metragem de ficção - R$ 20 mil
Era uma vez eu, Verônica, de Marcelo Gomes
 
Melhor longa-metragem documentário - R$ 15 mil
Elena, de Petra Costa
 
Melhor curta-metragem de ficção - R$ 10 mil
A mão que afaga, de Gabriela Amaral Almeida
 
Melhor curta-metragem documentário - R$ 10 mil
A ditadura da especulação, de Zé Furtado
 
Melhor curta-metragem de Animação - R$ 10 mil
O Gigante, de Luís da Matta Almeida

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