FESTIVAL DE CANNES 2012

"Na Estrada", de Walter Salles, afirma maturidade do diretor em Cannes

Neusa Barbosa, de Cannes

Cannes – Na Estrada, do brasileiro Walter Salles, bateu na tela do Grand Thêátre Lumière nesta manhã de quarta (23) com toda a força de um atestado de maturidade, ao adaptar com elegância, grandeza e força de sentimentos – sem contar a habitual qualidade técnica – o livro sagrado do movimento beat, Pé na Estrada, de Jack Kerouac. Concorrendo à Palma de Ouro pela terceira vez, depois de Diários de Motocicleta (2004) e Linha de Passe (2007), o diretor pode considerar-se candidatíssimo a premiações aqui, bem como seu afinado elenco.
Nem sempre projetos como este, que consomem muitos anos – oito, depois da entrada em cena de Walter Salles (o produtor, Francis Ford Coppola, comprou os direitos do livro em 1979) – vingam na sua encarnação final. O diretor brasileiro, que abraçou uma história que já tinha passado por várias mãos, no entanto, ressuscitou a velha chama da liberdade de que fala o livro, ultrapassando o desafio de fazer um filme de época que sintoniza na veia da contemporaneidade.
Na Estrada não é um filme fácil, nem catártico, e sim um grande mergulho na melancolia, na perda, na passagem do tempo e das paixões. Numa fotografia conduzida, mais uma vez, pelo francês Eric Gautier (de Diários de Motocicleta), a câmera se instala na pele dos personagens, Sal (Sam Riley), Dean (Garret Hedlund), Marylou (Kristen Stewart), e não larga mais seu turbilhão, seu frenesi pela vida, sua pulsão pelo movimento, pela experiência direta. Na Estrada realiza, assim, seu maior desafio: capta esse aspecto fugaz do tempo presente, essas relações humanas que se acendem e duram o instante de um fósforo, imperfeitas, passageiras, mas fundamentais.
 
Pesquisa dos atores
Na coletiva, logo depois da exibição à imprensa, Salles destacou que seu novo filme não é apenas sobre a geração beat, e sim também sobre aquela que a precedeu. Enxergou uma ponte entre Na Estrada e Diários de Motocicleta: “Ambos são sobre jovens descobrindo uma geografia estrangeira a eles, uma jornada da juventude à maturidade numa época de grandes mudanças sociais, num país muito conservador, depois da II Guerra Mundial”.
A pegada documental, que sempre se sente nos filmes do diretor brasileiro, aqui se manifesta mais uma vez, e decorre das centenas de milhares de quilômetros rodados por Walter e equipe, intermitentemente, ao longo de cinco anos, refazendo o itinerário dos personagens do livro de Kerouac.
 
Para impregnar deste espírito seus jovens e dedicados atores, o diretor levou-os a realizar um acampamento. Mostrou a eles vários filmes da época, documentários sobre jazz – que está muito mais presente do que o rock, aliás, na bela trilha do argentino Gustavo Santaolalla, parceiro de Salles em Diários... -, filmes de John Cassavetes e outros. “Depois, tentamos esquecer tudo e recriar a história na tela”, comentou o diretor.
Salles destacou também a contribuição de todo o elenco, em que participam também Kirsten Dunst, Steve Buscemi, a brasileira Alice Braga e Viggo Mortensen, para essa apropriação da história, escrita em 1957. Elogiou muito Viggo Mortensen, que interpreta Old Bull Lee, que é inspirado diretamente no escritor beat William Burroughs.
Segundo o diretor, Viggo trouxe para o set o figurino, as armas e os livros que Burroughs usava e lia na época. Uma cena em que é citado o escritor francês Louis-Ferdinand Céline nasceu diretamente de uma improvisação em cima dessa contribuição do ator, que pesquisou ativamente seu papel. “Neste sentido, os atores ultrapassaram o livro, permanecendo fieis a ele, no entanto, pela espontaneidade”, disse Salles.
 
Viggo Mortensen (na foto com Walter Salles), por sua vez, devolveu o elogio ao diretor brasileiro. Ele se confessou preocupado sobre a forma como o filme retrataria certos aspectos sombrios do livro, como o fato de que os personagens dirigem bêbados, drogados e sem dormir e também a maneira como se retrataria as mulheres, que vivem sendo abandonadas por eles. O ator se disse satisfeito com a forma como Salles mostrou tudo isso no filme. “Outros diretores tentariam esconder ou enfraquecer tudo isto”, disse o ator.
 
Brasil em destaque
Mesmo não se tratando de um filme brasileiro – é uma coprodução que envolve majoritamente dinheiro dos EUA, Inglaterra e França -, Na Estrada foi incluído, inclusive em material divulgado pela assessoria de imprensa de Cannes, dentro da homenagem ao Brasil que o festival realiza nesta 65ª edição. Desta homenagem fazem parte exibições, ocorridas nos últimos dias, de filmes como Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho, Xica da Silva, de Cacá Diegues, e A Música segundo Tom Jobim, de Nelson Pereira dos Santos. Homenagem modesta, é verdade, diante dos poucos filmes brasileiros selecionados na programação mas, ainda assim, bem-vinda e merecida.

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Comentários:
  • 23/05/2012 - 09h33 - Por Andrea Eu já queria muito ver, com seu relato agora quero mais ainda! Fiquei com pressa! :)
    Abs.
    Andrea Pelagagi
  • 23/05/2012 - 14h52 - Por Mauro Medeiros Walter Salles apresenta um cinema que ultrapassa fronteiras, não fala apenas de seu quintal e quando o faz lida com propriedade. A adaptação de uma obra literária para as telas sempre nos obriga a comparações, mas prefiro acreditar no talento dos envolvidos. Agora é aguardar o lançamento e sentir a boa mistura de gerações e realizadores.
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