FESTIVAL DE CANNES 2012

"Cosmópolis" é competente, mas não empolga Cannes

Neusa Barbosa

Cannes – Caiu nesta manhã de sexta (25) uma das grandes esperanças de que aparecesse, finalmente, um filme que mobilizasse freneticamente as paixões em Cannes. Cosmópolis, de David Cronenberg, esfriou esse ânimo. Inegavelmente bem-realizada, como é o estilo do cineasta canadense, sua adaptação do livro do norte-americano Don DeLillo impactou mais pelo cerebralismo, o que era de se esperar, tanto pelo diretor como pelo texto original. Não arrepiou.
Agora só faltam dois concorrentes, o sul-coreano Do-Nui Mat (The Taste of Money), de Im Sangsoo, e o último da fila, o norte-americano Mud, de Jeff Nichols, que serão exibidos entre hoje à noite e amanhã cedo. Dependendo do que acontecer, a Palma de Ouro deste ano será mesmo uma surpresa, a ser revelada somente domingo.
 
Vampiro financista
Bastante fiel ao livro, no cenário claustrofóbico de uma limusine, e nos diálogos, Cosmópolis é a chance de uma evolução para o ator inglês Robert Pattinson na procura de mostrar que pode ir além do vampiro Edward Cullen da saga Crepúsculo. Ele manda bem como Erick Packer, o mega-especulador jovem e bilionário de Nova York que transforma sua limusine num escritório rodante, ali fazendo reuniões com seus inúmeros assessores, recebendo o médico para seu check up diário e também sua amante (Juliette Binoche).
Binoche é, aliás, uma das coadjuvantes de luxo deste drama bem contemporâneo, ao lado de outro francês, Mathieu Amalric, como um terrorista especializado em atentados usando bombas de creme contra celebridades. Este é o único tipo de humor que esta sombria história permite.
Alguns não reconheceram aqui o universo habitual de Cronenberg, mas a impressão não procede. Os temas de DeLillo são os que habitualmente lhe interessam. Estão presentes o rigor, o cerebralismo, a luta desigual entre as tentativas do ser humano de controlar a vida – neste caso, o executivo procura prever as oscilações das moedas no mercado financeiro através de um sistema que se inspira no funcionamento da natureza. Em vão, porque muito menos as bolsas de valores são previsíveis. Fora isso, as pulsões das emoções, do sexo, da morte, pontuam a existência de Erick, como a de todo mundo. O poder do jovem fenômeno das finanças é efêmero. Ele tem um encontro marcado com uma das vítimas que fez em sua irresistível e insensível ascensão, Benno Levin (o sempre magnético Paul Giamatti).
 
Veneno da traição
Falando em rigor, o bielorusso Sergei Loznitsa (Minha Felicidade) entregou um novo trabalho, In the Fog, magistralmente conduzido. Com total comando da narrativa e dos cenários e economia dramática na medida, ele constrói um relato hipnótico sobre o veneno da dúvida sobre a traição.
Este veneno é implantado na vida do ferroviário Sushenya (Vladimir Svirski), que, durante a ocupação nazista na II Guerra Mundial, é preso junto com outros três colegas, acusado de sabotar a linha férrea. O comandante nazista tenta chantageá-lo a tornar-se espião, em troca de sua vida. Ele recusa várias vezes. Perversamente, o comandante resolve soltá-lo, enforcando os demais, o que o torna suspeito diante da aldeia.
Dois membros da resistência, Burov (Vlad Abashin) e Voitik (Sergei Kolesov), vêm buscar Sushenya para executá-lo na floresta. Uma série de incidentes mudam o rumo previsto, permitindo a Loznitsa, através de precisos flashbacks, explicar a natureza de cada um destes personagens e suas razões. Um filme sóbrio, belo e maduro, digno de prêmios.
 
Mão pesada
Marinheiro de primeira viagem na competição de Cannes, o norte-americano Lee Daniels aperfeiçoou, no mau sentido, sua mão pesada, já sentida em Preciosa (2009), neste novo trabalho, Paperboy – em que ele tem uma boa e forte história, mas a põe a perder, pelo tom excessivo e a má condução de um elenco de bons atores.
Adaptando livro de Peter Dexter, Daniels elabora uma narrativa policial, envolvendo dois irmãos, filhos de um dono de jornal, Jack (Zac Efron) e Ward (Matthew McConaughey), um presidiário, Hilary Van Wetter (um surpreendente John Cusack) e uma loira fatal, Charlotte (Nicole Kidman), no final dos anos 1960.
Os dois irmãos entram na vida da loira, que se corresponde com o presidiário – é uma mulher de paixões fatais -, quando Ward tenta levantar falhas no processo, que deve levar Hilary à cadeira elétrica. O jovem Jack se apaixona por Charlotte, apimentando uma história temperada pelo clima violento do sul dos EUA, com um pano de fundo envolvendo racismo e homofobia. Um ótimo material para um diretor melhor do que Lee Daniels ter desenvolvido.
Ainda assim, o filme tem potencial de comunicar-se com um grande público, como se viu nas sessões durante o festival. Não será surpresa, também, se Daniels voltar ao Oscar, depois das duas estatuetas vencidas há três anos por Preciosa. Hollywood adora esses excessos.
 
Prêmio brasileiro na paralela
Na seção paralela Semana da Crítica, o curta-metragem brasileiro O Duplo, da diretora paulista Juliana Rojas (Trabalhar Cansa) recebeu uma menção especial no Prêmio Descoberta Nikon, concedido por um júri presidido pelo cineasta português João Pedro Rodrigues e integrado também pelo crítico e cineasta Kleber Mendonça Filho.

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