É Tudo Verdade exibe cópia restaurada de "Cabra marcado para morrer"

Filmes latinos-americanos foram ponto forte na programação

Neusa Barbosa

Uma amostra das moléstias sociais e da resistência humana da Latino América encontra uma janela expressiva nos cinco títulos do Foco Latino e igualmente na Retrospectiva Internacional desta edição do É Tudo Verdade, que focaliza o argentina Andrés di Tella.
No Foco Latino, um raríssimo exemplar do cinema de Porto Rico, Os Arquivos (foto ao lado), de Maitê Rivera Carbonell, chama de cara a atenção pelo tema: a espionagem usada pelo Estado contra os cidadãos, desde meados da guerra da independência, em 1898, culminando no escancaramento dos arquivos secretos nos anos 1990. Mais do que aproximar Porto Rico de outros países que sofreram processos parecidos, o filme de Maitê é extremamente feliz ao centrar fogo no dramático problema de identidade de seu país, profundamente dividido em sua relação de semi-autonomia, mas de total dependência, dos EUA.
A temática política prosseguiu funda no uruguaio O Cultivo da Flor Invisível, do estreante Juan Alvarez Neme, que serve não só para lembrar que o pequeno país sul-americano ao sul do Brasil sofreu igualmente os processos de tortura e desaparecimento de opositores políticos durante a ditadura militar dos anos 1970, como experimenta dolorosos conflitos comuns aos demais países sul-americanos em relação à anistia aos torturadores e à procura dos restos dos desaparecidos.
Focado num único depoimento, da ex-militante do Exército Revolucionário do Povo, Miriam Pillellensky, o argentino Em Busca da Alma, de Mario Bomheker – filme que teve sua première mundial no festival brasileiro -, revela-se muitíssimo mais do que uma mera “cabeça falante”, e sim uma emocionante reconstituição de uma vida atravessada por contradições e tragédias, que passam por prisão e tortura, mas também por um período de clandestinidade no Paraguai. Uma narrativa humana que evidencia outros aspectos do funcionamento da operação Condor, a temível colaboração além-fronteiras das forças de segurança do continente sul-americano.
 
De passaporte mexicano, O Céu Aberto (foto ao lado), de Everardo González, recupera com riqueza de detalhes e depoimentos candentes o legado do arcebispo salvadorenho Oscar Ranulfo Romero, um militante pela paz e a igualdade social assassinado pelas forças paramilitares de seu país, em 1980, tornando-se mais uma vítima entre as dezenas de milhares da guerra civil da época.
A força avassaladora da suspeita de uma doença incapacitante numa família chilena exilada no Canadá – também na esteira da ditadura de 1973 – transforma a produção chilena O Huaso, de Carlo Guillermo Proto, na representante solitária de um registro mais intimista nesta seção.  Envolvido até a medula na história que conta, já que a vítima se trata de seu pai, Proto costura seus próprios conflitos e hesitações no tecido vivo do filme, que em mais de um momento se torna quase um thriller e segue um desenrolar surpreendente.
 
Di Tella
Com oito títulos, a retrospectiva do argentino Andrés Di Tella permite atualizar a percepção de uma obra que une, com rara sensibilidade, o olhar intimista e o social. Os dois aspectos estão reunidos com especial entrosamento no filme mais recente do diretor, Golpes de Machado, no qual Di Tella revê sua própria juventude, como colaborador do cineasta alternativo Claudio Caldini, seu protagonista aqui – e que encerra, em sua história de vida, a tragédia da ditadura argentina, cortando trajetórias e fincando cicatrizes nos seus sobreviventes.
 
Memórias da ditadura ressurgem no impactante Montoneros, Uma História (foto ao lado), narradas a sangue quente pela ex-militante Ana, e também em Proibido, que reavalia os mecanismos de manipulação da mídia no período militar.
A mídia tem igualmente um retrato crítico, desta vez focando os mecanismos sensacionalistas do jornalismo policial no curta Reconstituição do crime da modelo – que, apesar de realizado há 22 anos, continua tristemente atual.
A imbricação entre história pessoal e social bate forte igualmente em A televisão e eu e mais ainda no belo Fotografias, em que Di Tella investiga os fragmentos da história de sua mãe, nascida na Índia.
Personagens marginais, tão ao gosto do documentarista, têm dois retratos pungentes em O País do Diabo, que recupera a fatídica Conquista do Deserto que, no século XIX, deflagrou um extensivo genocídio dos indígenas na Argentina, e, num registro mais poético, em Macedonio Fernández – em que o escritor Ricardo Piglia percorre Buenos Aires à procura de vestígios do escritor maldito que conquistou a admiração de Jorge Luis Borges.

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