35ª Mostra Internacional de Cinema

Makhmalbaf politiza premiação da Mostra e compara situação iraniana com macarthismo

Neusa Barbosa
Makhmalbaf politiza premiação da Mostra e compara situação iraniana com macarthismo
O cineasta iraniano Mohsen Makhmalbaf politizou a rotina da premiação da 35ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, realizada nesta noite de quinta, no Cinesesc paulistano.
 
Último convidado da Mostra a desembarcar em São Paulo, na última terça, Makhmalbaf foi agraciado com um prêmio especial, o Humanidade Leon Cakoff – que, neste ano, excepcionalmente, foi atribuído a dois diretores. Antes de Makhmalbaf, recebeu o mesmo prêmio o canadense Atom Egoyan, também jurado nesta edição.
 
Recebendo o troféu das mãos de Walter Salles – seu amigo e colega num júri da Mostra há 16 anos  -, o diretor iraniano (de filmes como Salve o Cinema, Gabbeh e Um Instante de Inocência) transformou seu agradecimento num veemente protesto contra as violações à liberdade de expressão em seu país, onde ele não pode mais viver.
 
Makhmalbaf declarou que foram presos mais de 50 pessoas nas últimas semanas no Irã, todas ligadas ao cinema – produtores, atores, diretores. Entre eles, seu primeiro assistente no filme O Caminho para Kandahar. Por isso, ele pediu “permissão” para dedicar o prêmio a ele. E também pediu que produtores, diretores e atores brasileiros ajudem a “proteger essas pessoas no Irã”. Ao governo brasileiro, “muito respeitado no mundo, que não vote com o Irã em organismos internacionais, porque lá não se respeitam os direitos humanos”.
 
Segundo o diretor, 15.000 pessoas ligadas à cultura, como jornalistas, cartunistas, professores universitários e outros, foram presos pelo atual regime iraniano. “O que está acontecendo no Irã é muito pior do que o macarthismo”,afirmou, referindo-se à caça aos esquerdistas promovida nos EUA em meados dos anos 50.
 
Lembrando Leon Cakoff, seu amigo e diretor da Mostra, falecido no último dia 14 de outubro, Makhmalbaf destacou: “Sem ele,o cinema do Irã e do Oriente Médio talvez nunca tivesse chegado ao Brasil”.
 
Prêmios do júri
O júri da Mostra, integrado pelos cineastas Atom Egoyan, Nicolas Klotz, Jorge Furtado, Lúcia Murat e Mahamat Saleh Haroun, a roteirista Elizabeth Perceval, o escritor Fréderic Boyer, o produtor Cedomir Kolar e o crítico Jean-Claude Lamy, considerou como melhor filme de ficção a produção austríaca Respirar, de Karl Markovics.
 
O melhor documentário foi Marathon Boy, coprodução entre Índia, Inglaterra e EUA, dirigida por Gemma Atwal. O melhor ator foi Theodor Júliusson, da coprodução Islândia/Dinamarca Vulcão. A melhor atriz foi Alina Levshin, pelo filme alemão Combat Girls.
 
A crítica atribuiu dois prêmios: o Especial da Crítica, para a coprodução entre Rússia, Ucrânia e Alemanha Sábado Inocente, de Alexander Mindadze; e o Grande Prêmio para o filme turco Era uma vez em Anatólia, de Nuri Bilge Ceylan.
 
Voto popular
O público elegeu, como melhor documentário nacional, dois filmes: Raul – O princípio, o fim e o meio,de Walter Carvalho; e Vai-vai 80 anos nas ruas, do estreante Fernando Capuano. O melhor documentário internacional foi Batidas, rimas & vida: as viagens de A Tribe Called Quest, de Michael Rapaport (EUA).  
 
Na ficção, o público escolheu como melhor nacional Teus olhos meus, de Caio Sóh. A melhor ficção internacional foi também dividida entre dois filmes: Desapego, de Tony Kaye (EUA) e Frango com ameixas,de Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud (França).
O prêmio da Juventude ficou para Uma Incrível Aventura, de Debs Gardner-Paterson (África do Sul/Ruanda/Inglaterra).
 
Prêmios Canal Brasil e Itamaraty
O prêmio Aquisição do Canal Brasil foi para o curta A casa da vó Neyde, de Caio Cavechini – que receberá R$ 15.000,00 e terá o filme exibido na emissora.
 
O melhor curta-metragem do prêmio Itamaraty ficou para Cine Camelô, de Clarissa Knoll (que receberá R$ 15.000,00). O melhor documentário (R$ 30.000,00) foi novamente Raul..., de Walter Carvalho. E a melhor ficção foi Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios, de Beto Brant e Renato Ciasca, que receberão R$ 45.000,00.
 
Hector Babenco recebeu o prêmio Itamaraty pelo conjunto da obra.

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