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Diretores de “Trabalhar Cansa” mantêm pegada no cinema fantástico

Neusa Barbosa

Diretores de “Trabalhar Cansa” mantêm pegada no cinema fantástico
Dupla de curta-metragistas consagrada e premiada – por O Lençol Branco (2003) e Um Ramo (2007), vencedor de troféu em Cannes -, Juliana Rojas e Marco Dutra mantêm-se num universo no limite entre o realismo e o fantástico em seu longa de estreia, Trabalhar Cansa (foto). O filme teve sua première mundial no Festival de Cannes, em maio, competindo na seção Un Certain Regard. Depois, concorreu no Festival de Paulínia (onde ganhou um Prêmio do Júri, outro de melhor som) e concorre novamente no Festival de Brasília, iniciado nesta segunda (26).
Nesta entrevista, concedida em Cannes, os diretores detalham a produção de Trabalhar Cansa, a história de uma dona de casa (Helena Albergaria) que decide abrir um mercadinho, enquanto seu marido (Marat Descartes) fica desempregado. Os diretores anunciaram um próximo projeto, Boas Maneiras, que pode vir a ser seu primeiro filme realmente de terror.
 
Cineweb - Depois de dois curtas premiados vocês sentiram muito essa passagem para o longa-metragem?
Juliana Rojas - A gente foi descobrindo conforme foi escrevendo, porque é mais complexo sustentar no longa esse tipo de relação, entre o naturalismo e uma história fantástica. Mas também foi mais divertido porque a gente teve a oportunidade de desenvolver mais camadas.No curta não dá tempo. Então fomos sentindo e tivemos que descobrir qual era o ritmo certo para pôr todas essas histórias de pé e ainda dar conta de todas essas camadas de interpretação.
 
Cineweb – Foram quantos tratamentos de roteiro?
Juliana - O filme teve cinco tratamentos.
 
Cineweb – Esse roteiro passou pelo laboratório de Sundance, como foi isso?
Marco Dutra – Houve um convite deles e mandamos o primeiro tratamento para eles. Só que a gente não tinha nada pronto, só uma sinopse curta. Tivemos que parir um roteiro porque não queríamos perder essa oportunidade. Tínhamos dez dias para escrever. E foi até muito engraçado, porque a gente fez e não tinha a menor ideia do que ia acontecer. Aí começamos a receber notícias deles, de que tínhamos ultrapassado as etapas. Aí um dia eles falaram que a gente estava entre os três finalistas.
 
Juliana - É que é um prêmio.Primeiro você passa por um júri nacional, um da América Latina, depois um geral.E aí eles escolhem três finalistas da América Latina, três do resto do mundo e três dos EUA. E a gente ficou entre os três da América Latina, o que era inacreditável, porque era o primeiro tratamento do filme, feito muito às pressas.
Marco - Também foi muito legal porque eles foram muito carinhosos. Falávamos sempre por telefone e eles contavam para a gente como estava indo. Citavam as pessoas que examinavam o roteiro e que iam gostando – como o diretor de Hilary & Jackie (Anand Tucker).
 
Cineweb – E depois disso, como correu o trabalho?
Juliana - Foi bem intenso depois. Porque a gente chegou a um quarto tratamento e resolvemos voltar para a escaleta, botar aquele roteiro no chão. Rediscutimos toda a estrutura do filme, reescrevendo algumas cenas. Foi bom porque ajudou o filme a ganhar camadas. Pegamos elementos de todos esses roteiros e conseguimos incorporar nesse roteiro final. Isso deu ao filme uma riqueza de detalhes.
 
Cineweb – Como nos curtas, vocês trabalham nesse universo da classe média e de seus medos.
Marco - Tem coisas conscientes mas tem também muita coisa que não é. Nos curtas já era assim, no universo da classe média, que se passa em cidades grandes, relacionando-se com o espaço doméstico, as relações familiares. Na verdade isso vem um pouco da nossa vida mesmo, do que foi a nossa experiência de crescimento. Algumas coisas são naturais. Não é que a gente queira fazer uma declaração. É mais como a gente se relaciona com algumas coisas.
 
Cineweb - Por exemplo?
Marco - Tanto eu quanto a Ju vivemos um período, quando a gente era adolescente, em que nossas famílias ficaram no limite de perder tudo. Meu pai ficou desempregado e o pai da Ju tinha uma empresa que faliu. Isso foi uma experiência muito forte. Me lembro de se ter falado em casa - o que a gente não quer perder? Meu pai nunca abriu mão do carro. Nunca me tirou da escola particular também. Para os meus pais, isso era inadmissível. Era uma questão de valores. E a empregada doméstica.
 
Cineweb - É uma figura muito particular do Brasil. E no filme é uma relação bem forte dela com a patroa.
Juliana - Sempre foi uma relação muito forte a que a gente teve com as empregadas, porque a minha mãe trabalhava fora. O Marco teve uma que trabalhou muitos anos na casa dele. Isso cria um vínculo pessoal muito forte. E como a gente não era o patrão, era o filho, via mais claramente as contradições dessa relação. Para quem é a patroa é mais complexo.
 
Marco - É um assunto que, dependendo como é colocado, vira um vespeiro. Não tem uma coisa assim bem-resolvida essa relação de uma pessoa que mora na sua casa mas não é da sua família, nem da mesma classe, é uma relação de trabalho. Fora ter uma questão de etnia, ser uma pessoa muitas vezes negra ou nordestina.  
 
Cineweb – Um detalhe curioso é como vocês abordam certas maluquices do mundo corporativo, das entrevistas de RH.
Marco - É um universo muito difícil de se relacionar, porque a gente investigou as dinâmicas de RH, esses testes de emprego, essa literatura para executivos, que relaciona filosofias e religiões antigas com o mundo corporativo. É atroz. Nosso cuidado com essas cenas era não fazer uma piada besta. Mas o que a gente mostra são coisas que acontecem de fato. O exercício do descrever o outro eu mesmo passei num teste para trabalhar uma livraria.
 
Cineweb – Falando no seu futuro, vocês pensam em fazer um filme de terror de fato?
Juliana - A gente gosta de vários gêneros e seria feliz fazendo qualquer tipo de gênero. Este filme começou com a história da Helena, uma dona de casa abrindo esse mercadinho e tentando fazê-lo dar certo. A princípio a gente não pensava em ter elementos de gênero, com elementos de suspense. Eles foram surgindo para ajudar a contar essa história, para tornar mais forte essa narrativa, foi meio natural. Trabalhar cansa fica meio na fronteira entre cinema de gênero e um drama. Mas a gente também quer explorar esse caminho. A gente tem vontade de fazer um filme mais de terror, que é o nosso próximo projeto, As Boas Maneiras.
 
Cineweb- Em que etapa está esse projeto?
 Marco - A gente está escrevendo o roteiro e vai começar a captar. É um filme cujo parto é uma ideia de gênero. A gente tenta entender o específico de cada filme. Não é que a gente goste de terror e saia enfiando. Você tem que ver o que o filme te dá, a história vai conversando com você. A protagonista é uma enfermeira e tem de novo a questão da maternidade. É uma mulher que contrata uma babá para cuidar do filho estranho que, afinal, não é humano. A gente ainda está vendo para onde ir, estamos no meio do roteiro. Pode ser que mude um bocado.

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