“Hoje”, de Tata Amaral, é o grande vencedor em Brasília

Edgar Navarro expõe obsessões junguianas em "O homem que não dormia"

Neusa Barbosa

Foi bem longa a gestação de O homem que não dormia, segundo longa do baiano Edgar Navarro (segunda foto) e quarto concorrente no Festival de Brasília. O primeiro argumento foi escrito em 1978. De lá para cá, foram várias versões, algumas a partir de “surtos”, como descreveu o diretor, no debate do filme, hoje (1/10).
Foi o último desses “surtos”, em 2007 – desencadeado a partir de ouvir uma música de Djavan, Milagreiro – que gerou a versão mais aproximada à que foi filmada. E que constitui uma história de muita liberdade e transgressão, moldada numa estética do desespero, do excesso, não raro de um assumido mau-gosto e até escatologia.
 
Difícil fornecer uma sinopse deste filme fragmentado e irregular. A narrativa segue uma pista que leva a vidas passadas, em torno da história de um barão amaldiçoado (papel que é compartilhado pelo próprio Navarro e pelo cineasta baiano Luiz Paulino dos Santos). No passado, o barão assassinou, por ciúme, a própria mulher (Evelin Buchegger). Esse episódio é rememorado por um contador de histórias e passa a ocupar os sonhos de vários moradores de uma pequena cidade. Alguns deles, num determinado momento, vão sentir-se obrigados a executar uma espécie de ritual no cemitério para exorcizar esse fantasma.
 
Há outras linhas narrativas atravessando essa, como a do padre (Bertrand Duarte, de Superoutro e Alma Corsária) em crise de fé, que não consegue assumir devidamente seu requisitado papel de guia espiritual para socorrer essa comunidade, atormentada por esse e outros medos, além de pulsões em torno de ser ou não ser “corno” – um tema revisitado com frequência na roda de conversas masculina que se forma entre o bar e a barbearia locais.
 
Grande vencedor de Brasília em 2005, com seu primeiro longa, o pessoal, intimista e autobiográfico Eu me lembro, Navarro compara os dois filmes com uma definição psicanalítica na ponta da língua: “Eu me lembro era freudiano, O Homem que não dormia, junguiano”.
 
Mesmo garantindo que continua sendo agnóstico, Navarro conta que a inspiração do filme veio de algo “não material”. Comparando-se ao artista plástico Arthur Bispo do Rosário, ele diz que, num determinado momento, “ouvia vozes”, que o compeliam a contar essa história na tela, porque ela precisava acontecer “na luz”. Nem por isso, ele quer reduzir seu trabalho, como ele mesmo diz, a uma “história sobre vidas passadas”. Ele disse ter-se permitido recorrer inclusive a Allan Kardec até “para esculhambar com ele também”. No final, o diretor acredita que seu filme “é uma parábola para falar da vida e da morte, que tem a ver com a verdade, com o nervo exposto, com o enfrentamento com a esfinge”.
 
A referência à esfinge vem a calhar, já que ele diz: “Meu filme é enigmático pra mim também”.
 
Parceira luminosa
Um momento sublime na seleção de curtas exibida na noite de sexta foi o documental Elogio da Graça, do diretor Joel Pizzini (500 almas, Anabazys). O mérito principal foi resgatar a figura de Maria da Graça Sucksdorff, que foi mulher do cineasta e naturalista sueco Arne Sucksdorff (1917-2001). Vista preconceituosamente por alguns como “a índia que foi laçada pelo viking”, na permanência do sueco no Pantanal, Graça revela-se, bem ao contrário, uma mulher forte e intelectualizada, engenheira agrônoma que desempenhou papel importante como parceira dele, até o fim da vida. Um filme informativo, sem dúvida, mas que não prescinde do cuidado com a linguagem e ainda incorpora trechos de trabalhos do cineasta, em vida um grande lutador pela preservação da natureza brasileira. 
 
Foto de Edgar Navarro: Junior Aragão/Divulgação

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