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Polêmica sobre Lindomar Castilho domina debate no Festival de Brasília

Neusa Barbosa

Polêmica sobre Lindomar Castilho domina debate no Festival de Brasília
BRASÍLIA - Algumas polêmicas dividiram as opiniões sobre o último concorrente no Festival de Brasília, o documentário musical Vou rifar meu coração, da diretora carioca Ana Rieper, que aborda o universo da chamada “música brega”. A principal delas, a presença do cantor Lindomar Castilho, um dos principais entrevistados, pelo fato de que o filme não menciona diretamente o fato de ele ter matado a ex-mulher, Eliane de Grammont, em 1981, crime pelo qual já cumpriu pena, ganhando liberdade em 1996.
 
Embora o tema do filme seja o universo temático das chamadas músicas bregas, com sua infindável série de decepções e traições amorosas, o assunto Lindomar vampirizou o debate do filme, na tarde de hoje, desviando-o até de uma discussão mais profunda de suas possíveis qualidades. Participantes desse debate, jornalistas ou não, cobraram da diretora que tivesse deixado clara uma menção ao crime, que o cantor aborda um tanto obliquamente. Na sessão no Cine Brasília, na noite de domingo, pelo menos uma pessoa gritou “assassino” ao ver o cantor na tela.
 
Nesta segunda, a partir das 20h, serão anunciadas as premiações do 44º Festival, que introduziu várias mudanças, como antecipar sua realização de novembro para setembro e abrir mão do ineditismo dos concorrentes. A cerimônia será apresentada ao vivo pela TV Brasil.
 
Exigência do cantor
 
Respondendo às críticas, Ana Rieper disse: “A participação de Lindomar é polêmica, nem podia ser diferente. Mas uma das minhas premissas, ao fazer este filme, foi fugir aos estereótipos, caminhando numa linha fina entre moral e transgressão”. Falando especificamente do cantor, a diretora disse também “não ter pretendido estigmatizá-lo, a figura dele já tem um peso. Nem quis entregar às pessoas um direcionamento sobre o que pensar. Acho até que o fato de ele defender, ainda que vagamente, o que fez, choca muito”.
 
A produtora do filme, Suzana Amado, admitiu, porém, que não mencionar diretamente o crime tinha sido uma condição imposta pelo cantor para dar a entrevista. “Ele só topou falar se o assunto não fosse abordado”. Ana Rieper acrescentou ter “procurado fazer com que ele mesmo tocasse no assunto”, mas isto não aconteceu.
 
Direitos autorais
 
Outros percalços atrapalharam a produção de Vou rifar meu coração, cujo primeiro projeto vem de 2002. A negociação de direitos autorais foi um deles. Por conta disso, foi retirada a música “Meu Grito”, do repertório de Agnaldo Timóteo, porque “Roberto Carlos não autorizou”, segundo a diretora.
 
O tempo consumido entre a aprovação do projeto e sua realização, no entanto, foi considerado, afinal, positivo por Ana Rieper. “Foi uma vantagem essa demora no sentido de me dar tempo para entender essas complexidades. Eu tinha uma visão muito politicamente correta”.
 
A reação da platéia do Cine Brasília, que recebeu com muitos risos depoimentos de personagens como um prefeito, de Monte Alegre (SE), que tem abertamente duas mulheres e duas famílias, bem como de casais formados por homens que casaram com prostitutas, causa alguma perplexidade na diretora. “Eu mesma não entendo o riso em alguns momentos, que considero muito tristes, na verdade. Também há momentos que me incomodam, de muito machismo. Mas esses eram assuntos de que eu queria tratar”, pondera. Ela confessa que chegou até a pensar em tirar o depoimento do prefeito: “Fiquei com muita raiva dele”.
 
Outro questionamento feito à diretora foi não ter colocado cantoras e compositoras – no filme, aparecem somente homens, como Amado Batista, Odair José, Agnaldo Timóteo, Rodrigo Mell e outros. “Fomos atrás delas também. Cheguei a ter contato com Diana e com Carmen Silva, por exemplo. Mas, no final, entrou meu gosto musical, não vou negar. E, por alguma razão, eu me identifico mais com o universo desses compositores homens”, admitiu.

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Comentários:
  • 04/10/2011 - 17h21 - Por Marisa É uma pena que uma produtora não conheça a história das pessoas com as quais estão trabalhando, gosto da musica dessa época,mas no meio de tantos cantores precisava escolher um assassino para representar esse estilo de música brasileira. Isso é uma lastima.
  • 04/10/2011 - 21h12 - Por Neusa Barbosa O pior, Marisa, é que a diretora conhece, sim, a história do Lindomar.
    Mas acho que ela avaliou mal o impacto dessa terrível história pessoal dele para o filme...
    Em se tratando de uma diretora, é mais complicado ainda, não é?
    Ainda mais porque a violência contra as mulheres continua terrível hoje, tanto quanto há 30 anos atrás.
    Mesmo não sendo esse o assunto principal do filme, acho que ela teria que ter se colocado melhor diante disso.


    abs

    Neusa
  • 09/02/2012 - 15h52 - Por Silvana Eu acho que todos nos erramos, sei que não dessa forma de cometer um assassinato, mas se for para ficar condenando para o resto da vida o erro do cantor Lindomar Castilho, não precisamos do sistema prisional, para pagar o que deve para sociedade, na verdade deveria existir a pena de morte, já que mesmo cumprindo o que a lei determina continuamos a julgá-lo, sem dar-lhe a oportunidade de recomeçar.
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