Sokurov vence Leão de Ouro com “Faust”

Conselho de Fassbender para cenas de sexo: pense em golfe

Neusa Barbosa, de Veneza

A nudez foi um dos temas dominantes na coletiva de imprensa do concorrente britânico Shame (foto ao lado), do diretor e artista plástico Steve McQueen (que estreou como cineasta em 2008 com o filme Hunger). Na história, também escrita por McQueen, o protagonista é Brandon (Michael Fassbender, de Bastardos Inglórios), um homem viciado em sexo que tem um relacionamento com um toque incestuoso com a irmã, Sissy (Carey Mulligan, de Educação).

Ator de outro filme concorrente ao Leão de Ouro (A Dangerous Method, de David Cronenberg, em que interpreta o psicanalista Carl Jung), Fassbender se disse “confortável com as cenas de sexo”, que são muitas em Shame. Para ele, um segredo está em que “todos os atores estejam confortáveis” nesse tipo de situação. Outro segredo é poder atuar “como um “jogador de golfe, não fazendo jogadas demais”.
 
Quando uma jornalista australiana insistiu no tema do sexo, referindo-se a como a atriz Carey Mulligan (que não veio a Veneza) as encarou nas filmagens, o diretor McQueen foi mais incisivo: “A nudez é uma coisa natural, quem liga? Carey é uma atriz e encarou assim”.
 
Veto italiano a “Hunger”
Ironicamente, segundo o diretor, teriam sido as cenas de “nudez masculina frontal” de seu filme anterior, o político Hunger – que acompanha a biografia de Bobby Sands (o mesmo Michael Fassbender), líder do Exército Republicano Irlandês (IRA) -  as responsáveis por ele não ter sido distribuído comercialmente nos cinemas italianos, um tema que foi levantado por uma jornalista local. No Brasil, o filme, que venceu o prêmio Caméra d’Or em Cannes há três anos, também continua inédito em circuito comercial.
 
Voltando a Shame, que foi muito bem acolhido, com fortes aplausos na sessão para a imprensa e a indústria e na coletiva de imprensa, o diretor comentou ver algum vínculo entre ele e seu primeiro filme. “Também acho política a maneira como a internet mudou a vida das pessoas, inclusive sexualmente”. No filme, o protagonista vive compulsivamente conectado a sites pornôs.
 
Outra relação entre seus dois filmes foi assim enxergada pelo diretor: “Acho que a ideia da liberdade também os une. A diferença é como tanta liberdade que é oferecida a Brandon também pode aprisioná-lo”.
 
McQueen também já esteve anteriormente em Veneza mostrando um trabalho seu na Bienal de Arte, há dois anos, que acontece paralelamente ao festival de cinema. Modestamente, afirmou que é “ótimo ter esse reconhecimento” mas que, para ele, “é apenas trabalho”.
 
Recusa à “contaminação”
Despertou grande entusiasmo também o primeiro concorrente italiano, Terraferma (fotos ao lado), de Emmanuele Crialese (que já venceu aqui um prêmio de diretor-revelação, em 2006, por Novo Mundo). Crialese pôs o dedo numa das mais vergonhosas feridas da Europa contemporânea, o cerco, por vezes desumano e usando a violência e legislação repressiva, aos imigrantes ilegais. Um cerco que penaliza igualmente os europeus que arrisquem ajudá-los.
 
Na história, uma família modesta de pescadores da Sicília é confrontada com a chegada de imigrantes africanos, alguns deles recolhidos no mar, quase afogados, pelo velho patriarca do clã (Mimmo Cuticchio) – e que, por isso, tem o barco, seu ganha-pão, apreendido pela polícia. O melhor do neorrealismo e do cinema social italiano dos anos 60 e 70 renasce neste terceiro e belo filme de Crialese, sem dúvida, forte candidato a premiações, inclusive ao Leão de Ouro.
 
Na coletiva de imprensa, à qual chegou aplaudido de pé, o diretor não se furtou a diversas colocações políticas. “Os italianos têm medo dos estrangeiros porque se sentem protegidos por sua identidade. Têm medo de uma ‘contaminação’. Mas esquecem que somos um país desenvolvido graças a essa ‘contaminação’”.
 
Crialese fez questão também de criticar o papel da imprensa no caso dos imigrantes: “A Itália vive uma confusão moral. Há um problema de rota, muitas pessoas a perderam. Mas há também um problema de orientação midiática no modo como se define estas tragédias [de estrangeiros tentando entrar na Itália pelo mar]. Há uma responsabilidade do Estado mas também de um certo nível de informação”.
 
Veja o trailer de Terraferma

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