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“Não sou maldito, meus filmes são sobre pessoas”, diz Abel Ferrara em Veneza

Neusa Barbosa, de Veneza

O fim do mundo, que já inspirou Lars von Trier em seu recente Melancolia, foi retomado numa outra chave pelo diretor nova-iorquino Abel Ferrara (Vício Frenético) em 4:44 Last Day on Earth, candidato ao Leão de Ouro em Veneza.
 
A sessão do filme para a imprensa e representantes da indústria, que fora remarcada das 22h30 para as 23h de ontem e deslocada para uma sala maior – a Darsena, com cerca de 1.200 lugares –, sofreu um atraso de cerca de meia hora. O motivo foi um curto-circuito em algumas lâmpadas da sala, que motivaram uma interrupção da sessão anterior, do filme-surpresa da competição, People Mountain, People Sea, de Cai Shangjun, que saiu da China clandestinamente, sem aprovação da censura. Por conta do incidente, as portas da sala foram abertas, sentindo-se um forte cheiro de queimado.
 
Devido ao adiantado da hora, a sessão do filme de Ferrara acabou não tendo sala cheia. Ainda assim, ouviram-se discretos aplausos ao final para a história de um casal, Skye (Shanyn Leigh) e Cisco (Willem Dafoe, de Anticristo), procurando enfrentar da maneira mais serena possível o iminente fim do mundo, que acontecerá, todos sabem, com hora marcada, às 4:44 da madrugada.
 
Comentando a relativa calma que reina em todo o mundo e no apartamento do casal diante da iminência do desastre anunciado, Shanyn Leigh observou que, na história, “o desastre acontece algum tempo depois que todo mundo já tomou conhecimento disso. Por isso, todos estão mais ou menos reconciliados com a ideia”. Dafoe, por sua vez, discordou em parte: “Não acho que é tão sereno, mas acredito que é mais ou menos a única forma de lidar com isso, afinal de contas”.
 
Alterego e Al Gore
Indagado se se considerava o “alterego de Ferrara”, Dafoe afirmou: “O que sei é que, quando me foi apresentado o roteiro, senti que Abel estava em todas as suas partes. O impulso para contar a história é dele e ele me chamou para contá-la. Acho que sou o agente de sua imaginação”.
 
O diretor – que esteve em Veneza, fora de competição, há dois anos, com Napoli Napoli – , por sua vez, rejeitou o rótulo de “poeta maldito” que um jornalista italiano, admirador de toda a sua obra, pretendeu aplicar-lhe. “Meus filmes são sobre pessoas, sobre o pesadelo ou a alegria de viver, mesmo que sejam indivíduos do submundo ou vampiros”.
 
Sobre o tema do fim do mundo, Ferrara comentou que “está no ar”, por isso há outros filmes a respeito disso. Admitiu que, ao escrever o roteiro, pensou nas ideias do ex-vice-presidente norte-americano Al Gore sobre aquecimento global – na história de Ferrara, o final do mundo decorre de um desastre ecológico causado pelo manejo desastroso do planeta pelo ser humano. Gore, segundo o diretor, “sabe do filme, mas ainda não o viu”.
 
Diferente de outros filmes sobre o tema, no entanto, o cineasta nova-iorquino não recorreu a efeitos especiais. A nuvem verde em que, afinal, o planeta se extingue, segundo Ferrara “foi um evento atmosférico que filmamos, não foi criado em computador”.

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