Sokurov vence Leão de Ouro com “Faust”

Críticos apontam “Carnage” e “Fausto” como favoritos

Neusa Barbosa, de Veneza

A 68ª edição do Festival de Veneza acaba hoje com saldo positivo. É visível que a seleção deste ano foi bem melhor em relação aos últimos 3 anos, especialmente no que diz respeito aos filmes italianos, com o bloco britânico fazendo bonito. A premiação principal será divulgada hoje à noite, a partir das 19h (14h no Brasil).
 
O italiano Emmanuele Crialese confirmou a boa expectativa criada pelos seus belos dois filmes anteriores –   Respiro e Novo Mundo, que lhe deu um prêmio aqui como melhor diretor revelação, em 2006 – agora com “Terraferma”, um drama que cutuca fundo a ferida dos imigrantes ilegais, reabilitando uma chamada pelo bom e velho humanismo. O filme agradou bastante por aqui e não seria surpresa se repetisse um prêmio de direção ou roteiro. O Leão de Ouro parece difícil, mas nunca se sabe.
 
Embora numa chave menor, outro concorrente italiano, L’Ultimo Terrestre, do estreante Gian Alfonso Pacinotti, foi uma boa surpresa. Com uma história adaptada de um gibi, Pacinotti imprimiu humor e estilo próprio numa trama envolvendo intolerância e a chegada de extraterrestres. Decepção mesmo ficou por conta da veterana Cristina Comencini, que cometeu um novelão no melodrama romântico Quando la Notte, baseado em um livro dela mesma. Foi merecidamente vaiado na sessão de imprensa e da indústria.
 
Não à toa, portanto, o filme de Comencini aparece como o lanterna na tabela final das cotações dadas por 20 críticos internacionais, que circulou na edição do Venews, jornalzinho diário sobre o festival. Nesta tabela dos críticos, os favoritos ao Leão de Ouro são, pela ordem, o francês Carnage, de Roman Polanski, seguido de perto, com pouca diferença de pontuação, pelo russo Fausto, a volta do veterano Aleksandr Sokurov, pelos norte-americanos Tudo pelo Poder, de George Clooney, e Killer Joe, de William Friedkin, e os britânicos “Shame, de Steve McQueen, e O espião que sabia demais, dirigido pelo sueco Tomas Alfredson (de Deixa ela entrar).
 
Ingleses de fibra
No time britânico, o drama Shame, do diretor Steve McQueen (de Hunger), também artista plástico, bateu na tela como uma obra de grande intensidade, aproveitando o desempenho dedicado de seu protagonista, o ator alemão Michael Fassbender (de Bastardos Inglórios), sério candidato ao prêmio de melhor ator.
 
Este ano, está bem acirrada a concorrência ao troféu Volpi, o prêmio de atuação. Fassbender, aliás, concorre consigo mesmo pelo filme A Dangerous Method, do canadense David Cronenberg, em que o ator interpreta o pioneiro da psicanálise Carl Gustav Jung. No mesmo filme, está outro concorrente de peso, o norte-americano Viggo Mortensen, brilhante como Sigmund Freud.
 
Concorre com Fassbender o inglês Gary Oldman, o protagonista de outro bom concorrente britânico, O Espião que Sabia Demais, adaptação do livro de John Le Carré dirigido pelo sueco Tomas Alfredson . Famoso por suas atuações de personagens desvairados, como o roqueiro Sid Vicious, do Sex Pistols, aqui Oldman prima por uma sutileza nunca antes mostrada em tantas camadas. Não seria injustiça alguma se ele vencesse em Veneza.
 
Filme de época sem ranço e com muita energia, o também britânico O Morro dos Ventos Uivantes, de Andrea Arnold, pode arrebatar o prêmio Marcello Mastroianni, anualmente concedido a jovens atores. Não faltam candidatos no filme, como os estreantes Solomon Glave e James Howson, intérpretes do protagonista Heathcliff, e Shannon Beer e Kaya Scodelario, esta última filha de brasileira, vivendo em fases diferentes a principal personagem feminina, Catherine Earnshaw.
 
Yankees
Quando se pensa em candidatos ao Leão de Ouro e premiações de ponta, nunca se pode esquecer o muito bom quinteto norte-americano que aqui desembarcou este ano – ainda mais lembrando-se que o presidente do júri é outro norte-americano, Darren Aronofsky, vencedor do Leão de Ouro em 2008 com “O Lutador”.
 
Dos cinco, parecem com chances melhores Tudo pelo Poder, drama político dirigido e interpretado por George Clooney – que tem também ótimos atores candidatos a premiação, como o próprio Clooney, além do promissor Ryan Gosling -, e o surpreendente e enérgico drama policial Killer Joe, em que o veterano William Friedkin mostra que continua afiada toda a fibra do realizador de O Exorcista e Operação França. Do elenco, aliás, Matthew McConaughey desponta como candidato a premiação, além da atriz Gina Gershon (corajosa protagonista de uma das cenas mais fortes deste festival).
 
Os outros três yankees transitam numa escala menor. Em Dark Horse, Todd Solondz se repete na reencenação de um mundo de famílias disfuncionais. Ami Canaan Mann, filha de Michael Mann, não aproveita devidamente o potencial de uma história forte e sombria no policial Texas Killing Fields. E Abel Ferrara, apesar de manter a integridade, realiza história frouxa em sua visão do fim do mundo, 4:44 Last Day on Earth.
 
Franceses e chineses
Veneza não assistiu a uma boa safra de filmes franceses, exceto pelo vibrante e corrosivo Carnage, de Roman Polanski, adaptando com a dose certa de humor corrosivo a peça de Yasmina Reza (no Brasil, exibida com o título Deus da Carnificina). Pelo comentário social implícito no comportamento de dois casais em torno da agressão do filho de um ao do outro, não seria nenhuma surpresa se o filme aspirasse até à premiação maior. Parece mais seguro que seus excelentes atores – Kate Winslet, Christoph Waltz, Jodie Foster e John C. Reilley - sejam lembrados, quem sabe até conjuntamente. Um prêmio coletivo seria novidade aqui, mas já aconteceu em Cannes, por exemplo, há 5 anos. Tudo depende da decisão do júri.
 
Foi bem decepcionante o outro francês, Un Été Brulant, de Philippe Garrel, um drama sobre a obsessão amorosa, apesar do esforço de seus dois competentes protagonistas, o francês Louis Garrel e a italiana Monica Bellucci, sempre belíssima.
 
Em sua primeira incursão no filme live action (embora com algumas cenas de animação) a iraniana Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud (de Persépolis) assinaram um filme apenas bonitinho em Poulet aux prunes, adaptando a graphic novel homônima de Marjane. Como sempre, a atuação de Mathieu Amalric sustenta o interesse.
 
Sempre muito prestigiado, devido às notórias e assumidas simpatias asiáticas do diretor do Festival de Veneza, Marco Muller, o conjunto dos filmes orientais deixou a desejar. Chegou a parecer bizarra a escolha do concorrente japonês Himizu, de Sono Sion, um filme declaradamente concluído às pressas e que amarra muito histericamente o mangá em que se inspira e o recente tsunami naquele país.
 
Embora andando melhor, os chineses também não entusiasmaram. Foi o caso mesmo do veterano Johnnie To, que entregou um drama policial razoavelmente competente sobre a crise econômica mundial, Life without Principle.
 
Nada demais também foram os outros chineses A Simple Life, de Ann Hui, melodrama de fundo autobiográfico sobre uma empregada doméstica (Deannie Yip, candidatíssima ao troféu de melhor atriz) que abre mão de sua vida pessoal; o tenebroso e tosco Saideke Balai, de Wei Te-Shung, que não mostra onde foram gastos os propalados US$ 25 milhões de seu orçamento (que o tornariam a maior superprodução de Taiwan), com efeitos especiais de quinta categoria para recuperar a história de uma velha tribo que enfrentou a dominação japonesa; e o mediano drama People Mountain People Sea, o filme-surpresa de Cai Shungjan, sobre a busca de um homem pelo assassino de seu irmão.
 
Diferentes e veteranos
Boa notícia nesta edição foi a volta do veterano russo Alexander Sokurov, que não filmava desde 2007 com Alexandra. Aqui apresentou Fausto, o esperado quarto filme de sua tetralogia sobre o poder (os demais são Moloch, Taurus e O Sol), uma adaptação livre da obra de Johann Wolfgang Goethe. Parece difícil imaginar que o júri deixe de lhe atribuir um prêmio, ainda que técnico, dada a grande qualidade visual desta obra, mais uma vez, de fôlego, inteiramente falada em alemão.
 
Falando em veteranos, um momento mágico desta edição foi proporcionado por Bernardo Bertolucci e Marco Bellocchio, dois monstros sagrados do cinema italiano, ontem à tarde, quando o primeiro entregou o Leão de Ouro de carreira ao segundo, entre emocionados elogios mútuos.
 
Entre os concorrentes incômodos e originais ao Leão de Ouro, marcou sua presença o grego Alpis, de Yorgos Lanthimos. Embora menos consistente do que seu filme de estreia, o contundente Dente Canino (vencedor de um prêmio em Cannes em 2009), a história de uma estranha sociedade de pessoas que interpretam papeis substitutos na vida de outras, fica na cabeça, o que não foi o caso de muitos concorrentes do ano. Caso do candidato israelense ao Leão, o decepcionante The Exchange, de Eran Kolirin, diretor do elogiado “A Banda”.
 
Brasileiros
Se o Brasil teve, mais uma vez, presença discreta em Veneza, foi bastante boa a recepção crítica dos dois filmes, Histórias que só Existem quando Lembradas, de Julia Murat (presente na seção Giornate degli Autori) e Girimunho, de Helvécio Marins e Clarissa Campolina (concorrente da seção Horizontes). Ambas as seções têm premiações próprias.
 
O crítico Neil Young, da revista britânica Sight& Sound, por exemplo, considerou os dois filmes “descobertas genuínas do festival”. Descreveu o trabalho de Julia Murat como “uma fábula com um toque de realismo mágico”. E o de Helvécio Marins e Clarissa Campolina, “um retrato multifacetado e abrangente no universo de duas octagenárias independentes”.
 
Bem felizes com a boa recepção de seu filme – que teve sua primeira exibição pública aqui -, Helvécio e Clarissa anteciparam que “Girimunho”, que cumpre a partir daqui uma movimentada agenda de festivais (em Toronto e San Sebastián, entre outros), será lançado num circuito de cinemas de arte neste segundo semestre, em seis países europeus: Bélgica, Holanda, Luxemburgo, Espanha, Alemanha e França. No Brasil, a expectativa dos diretores é que o filme estreie no primeiro trimestre de 2012.

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