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“W.E.”, novo filme de Madonna, recebe as primeiras vaias em Veneza

Neusa Barbosa, de Veneza

  Em seu segundo dia, o festival registrou suas primeiras confusões por aglomeração e conflito de horários. A coletiva de imprensa de “Carnage” (primeira foto), o aguardado novo filme de Roman Polanski sobre a famosa peça de Yasmina Reza, foi marcada exatamente para o meio da não menos aguardada, embora por outros motivos, primeira sessão de “W.E.” (segunda foto), segundo filme dirigido pela pop star Madonna (o primeiro foi “Filth and Wisdom”, 2008).

Toda a expectativa, no caso de Madonna, resultou no primeiro grande fiasco do festival. Misturando a história real do romance entre Wallis Simpson e o rei Eduardo VIII, que finalmente renunciou ao trono pela plebéia americana duas vezes divorciada, e uma jovem contemporânea, também chamada Wallis (Abbie Cornish) obcecada pela figura da xará, Madonna fez uma verdadeira colagem de clichês românticos, sentimentais e visuais. O resultado foi um filme chocho, em que nem mesmo a trilha musical, apesar do passado da diretora, foi aceitável. Exibido fora da competição, o filme de Madonna foi brindado com as primeiras vaias do festival.
 
Na coletiva, no entanto, ela foi recebida com aplausos – menos do que os dedicados ontem a George Clooney – e uma enorme hortênsia roxa, entregue por um dos presentes, driblando a segurança.
 
A coletiva também não escapou dos clichês dessas situações.  Madonna destacou sua “atração subconsciente” por Wallis Simpson. Indagada se procurou realizar uma reabilitação da personagem, afirmou: “Identifiquei-me com ela por que é comum pessoas públicas serem reduzidas apenas a isso, como se não fossem nada mais. As pessoas tentaram diminuí-la como ser humano. Eu não queria torná-la uma santa. Tentei retratá-la como ser humano, isso era importante pra mim”.
 
Indagada porque se interessou em voltar a dirigir, Madonna falou até dos ex-maridos: “Toda minha vida amei filmes. Desde criança fui inspirada por eles pensei que um dia os faria. Sempre me vi como uma contadora de histórias. Assim, não acho que foi nenhum grande pulo dirigir filmes. Sempre me senti atraída por gente criativa, por isso casei com Sean Penn e Guy Ritchie, grandes diretores”.
 
 Tour de force de atores
 
Bem diferente foi a recepção ao filme de Polanski, aplaudido em bloco na sessão de imprensa desta manhã. Adaptando a peça da francesa Yasmina Reza – em cartaz em São Paulo com o título “Deus da Carnificina” -, o diretor extraiu o melhor da qualidade do texto, aliando-se à própria autora como corroteirista e a um notável quarteto de atores: Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz e John C. Reilly.
 
Resolvendo muito bem o huis clos do texto original, que se passa numa única sala, Polanski desdobra os muitos tons e subtons do duelo entre dois casais. Um deles é pai de um garoto que agrediu o outro, colega de classe, com um pau, quebrando-lhe dois dentes.
 
O incidente corriqueiro é o rastilho de pólvora que vai incendiar as duas duplas, de origens sociais e culturais diferentes, cada um deles representando posições divergentes sobre diversas questões candentes no mundo atual – o politicamente correto, a mobilização por causas do Terceiro Mundo, as regras da vida em comunidade, as diferenças entre homens e mulheres, o preço pessoal do casamento.
 
Polanski – que não veio a Veneza - faz justiça ao texto, assinando um filme notável por sua intensidade minimalista, sustentando a ironia que se costura nas entrelinhas. Desde já, parece candidato a prêmios.

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