"A Árvore da Vida" vence a Palma de Ouro 2011

"A Árvore da Vida", de Malick, surge como favorito à Palma de Ouro

Neusa Barbosa

"A Árvore da Vida", de Malick, surge como favorito à Palma de Ouro
A segunda e decisiva semana em Cannes começou nesta segunda (16) ensolarada sob o impacto anunciado do novo filme de Terrence Malick, A Árvore da Vida (assista ao trailer do filme). Com um pré-marketing alimentado pela própria mística do cineasta americano, arredio e meticuloso, que lançou em 4 décadas de carreira apenas 5 filmes, o astro Brad Pitt à frente do elenco, e também como produtor, atuando ao lado de Sean Penn, não precisava de mais nada para atrair todas as atenções.
Como se imaginava, a primeira sessão, reservada à imprensa e portadores de disputados convites, deixou muita gente pra fora – que ficou com poucas opções, nas demais três sessões previstas na programação, duas hoje, outra amanhã, onde se esperam tumultos.
A boa notícia é que valeu a pena tanto hype, seis anos após o lançamento do último filme de Malick, O Novo Mundo, e um ano depois de se ter esperado que A Árvore da Vida competisse em Cannes. No ano passado, isso só não aconteceu porque diretor e produtores concluíram que “ainda não estava pronto”. Este ano, em compensação, parece que vai ficar difícil para o cineasta, de 67 anos, sair daqui sem a Palma de Ouro (Malick já tem um prêmio como diretor aqui, por Cinzas no Paraíso, em 1979).
 
Sentido cósmico
Em sua interrogação cósmica sobre a origem do universo e o sentido da vida humana, A Árvore da Vida nunca esconde suas altas ambições. Mas não há nada de se estranhar, recordando-se que Malick é formado em Filosofia pela Harvard e lecionou essa matéria no não menos prestigiado MIT, o Instituto de Tecnologia de Massachussets. É um tipo de pensamento filosófico, portanto, que guia este roteiro, assinado como sempre por Malick, que situa em seu centro o personagem Jack (interpretado na maturidade por Sean Penn, na adolescência pelo excelente Hunter McCracken).
A narrativa, em boa parte, é uma viagem às memórias de Jack, que visitam particularmente a infância passada em Waco, Texas – não por acaso, o local onde cresceu o diretor, embora haja controvérsias se ele nasceu mesmo lá ou em Ottawa, Illinois. Nessa infância, os protagonistas são a mãe (Jessica Chastain), o pai (Brad Pitt) e os irmãos menores, um dos quais morreu na adolescência.
Essa morte do irmão assombra Jack e é um dos motores a levá-lo a uma indagação maior sobre o sentido do mundo e a existência de Deus, pois é certamente num mundo impregnado de cristianismo que ele cresceu. Mas, dentro de seu coração, lutam os dois caminhos que o filme aponta desde o começo como as margens do curso da vida: o caminho da graça (encarnado pela mãe) e o da natureza (simbolizado pelo pai).
Este microcosmo representado por esta família, que é um protótipo da América dos anos 50, mas não só – pode ser vista como um modelo de família de qualquer parte do mundo – é inserido no macrocosmo do mundo natural. Assim, as imagens de A Árvore da Vida levam não só Jack como todos os espectadores a visualizar uma viagem no tempo, à origem da vida no planeta, com direito à passagem dos dinossauros (que são os melhores e mais vívidos que o cinema já mostrou, incluindo-se aí O Parque dos Dinossauros de Steven Spielberg).
Em sua parte central, o filme divaga por esplêndidas imagens de natureza, como uma erupção do Etna, as geleiras da Antártida, os oceanos, diversos animais – que alguns jornalistas descreveram ironicamente como “momento National Geographic”. Ironia à parte, essas imagens fazem sentido dentro daquilo a que o filme se propõe, a acompanhar a trajetória de um homem, um homem qualquer, por suas perguntas sobre si mesmo e sobre a vida. Coisas que um Stanley Kubrick, digamos, faria, e que Malick faz, numa chave bem distinta.
Se há um perigo a respeito de A Árvore da Vida é ser interpretado como um filme religioso, o que não é. Sem dúvida, a religião faz parte da própria formação dos personagens – e não se esqueça que Waco foi o palco de uma tragédia de fundo religioso em 1993, culminando com a morte de 76 integrantes de uma seita fundamentalista cristã liderada por David Koresh. Entretanto, se o filme tem algum fundo espiritualista, ou seja, anseia explorar além da matéria, é muito mais filosofia do que religião. Mas sempre haverá quem pense o contrário, especialmente numa sequência em que Sean Penn revê os personagens de seu passado numa praia. Aí, porém, a psicanálise pode ser uma referência melhor.
 
O bordel Belle Époque de Bonello
 
Diante de todo esse arsenal temático e imagético do filme de Malick, outro concorrente à Palma, L’Apollonide – Souvenirs de La Maison Close, de Bertrand Bonello (O Pornógrafo), do francês Bertrand Bonello, exibido na noite de domingo, teve sua repercussão bem prejudicada. Quase tão longo quanto A Árvore da Vida – os dois filmes têm mais de duas horas -, a nova obra de Bonello examina com riqueza de detalhes, cenários e figurinos teatrais e uma profunda melancolia a história de um bordel parisiense na virada do século 19 para o 20.
Com um elenco principal integrado por Hafsia Herzi (O Segredo do Grão), a italiana Jasmine Trinca (O Quarto do Filho), Adèle Haenel, Alice Barnole e Iliana Zabeth, o filme explora esse universo fechado, tendo como qualidades procurar retratar, de algum modo, o ponto de vista das prostitutas. Verdadeiras prisioneiras de um sistema de exploração, endividamento e risco de vida, elas expõem-se a doenças e pervertidos violentos.
Não é um retrato romântico da prostituição o que faz Bonello, como tantas vezes no cinema. E nisso reside sua maior qualidade, num filme que poderia ter evitado inúmeras redundâncias e aspirado a uma maior consistência dramática. Ainda assim, é o melhor trabalho deste diretor.

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