"A Árvore da Vida" vence a Palma de Ouro 2011

Karim Ainouz defende maior presença do cinema brasileiro no exterior

Neusa Barbosa

Karim Ainouz exibiu hoje seu novo trabalho, O Abismo Prateado, na Quinzena dos Realizadores. Foi a primeira sessão pública do filme, que teve uma sessão lotada pela manhã, com público majoritariamente não-brasileiro e que ficou até o final.
Codiretor de Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo – que concorreu na seção Horizontes do festival de Veneza em 2009 –, Karim realizou aqui um filme simples e enxuto, que usa extraordinariamente o rosto da atriz Alessandra Negrini para expressar a dor de uma mulher, Violeta, abandonada pelo marido com um recado pelo celular. A história expande o tema da música Olhos nos Olhos, de Chico Buarque de Holanda, que é ouvida duas vezes, uma na voz do ator Thiago Martins (5 x Favela – Agora Por Nós Mesmos), outra, da cantora Bárbara Eugênia. 
Depois de participar do tradicional debate da Quinzena, com público e jornalistas, Karim mostrou-se aliviado. Ficou contente pelo filme ter estreado aqui, pelo acolhimento neste festival onde, há exatos 9 anos, ele passou com seu Madame Satã, repercutindo intensamente na seção Un Certain Regard.
Karim está feliz com esta volta mas não inteiramente satisfeito. “Uma hora a gente precisa estar de volta à competição”, defende. E deixa claro que não faz esta colocação por uma questão patrioteira ou de vaidade pessoal. “A gente faz filmes e eles têm que ser vistos no mundo, nem que seja num cinema pequeno. É uma questão de existir”.
O diretor acredita que, para que o cinema do país tenha maior circulação pelo mundo é preciso um posicionamento mais incisivo por parte dos organismos governamentais. “Tem que ser mesmo uma política de governo, como faz a Unifrance, que defende a presença da França pelo mundo”.  
Ele acredita que os argentinos, por exemplo, “fazem isso muito bem”. Lembra que Lucrecia Martel ganhou prêmio em Berlim com O Pântano (2001) e competiu duas vezes em Cannes, com A Menina Santa (2004) e A Mulher sem Cabeça (2008). Pablo Trapero, que foi selecionado também no UCR em 2002 com Do Outro Lado da Lei, voltou a Cannes na competição em 2008 com Leonera e ao UCR em 2010 com Abutres, é outro exemplo.
Além disso, do seu ponto de vista, o que falta não é tanto o dinheiro do exterior para investimento na produção – embora ele sempre possa, evidentemente, ser benvindo – mas a participação de um produtor internacional na mais plena expressão da palavra, que participasse da gênese de um projeto desde os tratamentos iniciais do roteiro. Este “olhar de fora”, para ele, foi importante para o próprio Madame Satã, que foi visto numa primeira versão pelos curadores do UCR e incorporou algumas de suas opiniões.
Este tipo de produtor, para Karim, não só emitiria opiniões mas defenderia o filme em várias instâncias, sustentando sua inclusão em festivais e apoiando sua distribuição em outros países.
 
Um Kaurismaki doce
 
Na competição pela Palma de Ouro, a atração matutina – hoje, numa sessão bem menos concorrida do que a de A Árvore da Vida, ontem – foi Le Havre, um filme feito na França e com maioria de elenco francês pelo diretor finlandês Aki Kaurismaki (premiado aqui em 2002 com O Homem sem Passado). Estão no cast o ícone Jean-Pierre Léaud, ator de Godard e Truffaut, e também Jean-Pierre Darroussin, ator habitual dos filmes de Robert Guédiguian. Do elenco freqüente de Kaurismaki, reaparece apenas a atriz Kati Outinen.
Este é provavelmente o filme mais doce da filmografia de Kaurismaki, dialogando, por seu tom delicado e sua temática humanista, com filmes como Le Gamin au Vélo, dos irmãos Dardenne. O protagonista é Marcel Marx (André Wilms), um velho que sobrevive como engraxate nas ruas da cidade portuária Le Havre e que vive sozinho com sua mulher, Arletty (Kati Outinen). Ela fica gravemente doente e é internada. Ao mesmo tempo, Marcel acolhe em casa um imigrante africano ilegal, o adolescente Idrissa (Blondin Miguel).
No esforço para levantar dinheiro para ajudar Idrissa a tomar um barco para Londres e juntar-se à sua mãe, Marcel mobiliza um show com Little Bob (Roberto Piazza) – que é realmente uma figura musical de Le Havre, que o diretor finlandês, no material de imprensa, descreveu como “o Elvis da Memphis da França que é Le Havre”. O show é um momento divertido deste filme agridoce, que aspira, como o dos irmãos Dardenne, um pouco a ser como um conto de fadas para embalar adultos.

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