"A Árvore da Vida" vence a Palma de Ouro 2011

Von Trier projeta seu fim do mundo em "Melancolia"

Neusa Barbosa
Depois da reflexão cósmica de Terrence Malick em A Árvore da Vida, Lars von Trier entregou sua versão do fim do mundo em Melancolia, o novo concorrente à Palma de Ouro exibido nesta manhã. Um filme visualmente muito elaborado, com inspiração em pinturas pré-rafaelitas e alemãs, música de Beethoven (como a Nona Sinfonia) e a habitual visão niilista do diretor dinamarquês sobre a vida, as relações humanas, sobre tudo, enfim.   
 Premiada em 2010 como melhor atriz em Cannes por Anticristo, a francesa Charlotte Gainsbourg volta neste novo trabalho do cineasta, como Claire, uma das irmãs protagonistas da história. A outra é a norte-americana Kirsten Dunst, interpretando Justine. O filme é dividido em duas partes, a primeira dedicada a Justine, a segunda, a Claire.
O filme começa com uma luxuosa festa de casamento, em que a noiva é Justine. Uma pompa que não esconde as profundas dúvidas da moça quanto ao passo que está dando. Quando começam os discursos à mesa, dos pais divorciados das irmãs (John Kurt e uma Charlotte Rampling cortante e esplêndida, como sempre), as aparências que Claire e o marido, John (Kiefer Sutherland) estão tentando tão arduamente manter, começam a rachar. E segue adiante esta lenta e sistemática demolição das crenças convencionais de que o casamento, o sucesso profissional e financeiro possam sustentar qualquer tipo de estabilidade, seja pessoal ou coletiva.
 No mundo de Von Trier, não há alívio nem segurança possíveis na família, no amor, nas instituições, na cultura, na arte, no dinheiro, na infância. E, para piorar, estamos sós no imenso universo e, ainda assim, não vamos durar muito.
 Não contente de arremessar toda a sua potente munição criativa, mais uma vez, contra a sociedade constituída e desautorizar quaisquer utopias, o diretor encena a destruição da Terra, diante do iminente choque contra outro planeta, Melancolia. Azul como a Terra, como um enigmático duplo do nosso, ele ficou escondido atrás do sol todo este tempo, por isso, até agora invisível.
 Se há um porta-voz de Von Trier neste filme, deve ser Justine, que, invocando uma espécie de onisciência mágica (a única que a história permite), num dado momento garante à irmã que não há vida em outros planetas. É esse tipo de pessimismo que o diretor destila o todo o tempo em entrevistas, como a coletiva desta manhã – em que a sua atitude foi notavelmente arrogante, cínica e desrespeitosa com tudo o que estava acontecendo ali.
 
Dando uma de nazi
Com um comportamento nitidamente diferente da coletiva de Anticristo, no ano passado – a que o diretor chegou nervoso, tremendo, com a voz embargada -, este ano Von Trier estava calmo, zen, mas também muitas vezes não falando coisa com coisa. Claramente ironizava os jornalistas, naquele seu habitual jogo de marketing. Ele faz isso há anos e dá certo. Por que mudar agora ?
Embora a maioria das perguntas da coletiva tenham sido bastante razoáveis, as únicas que as responderam seriamente foram as atrizes Charlotte Gainsbourg e Kirsten Dunst. Kirsten, inclusive, ficou visivelmente nervosa quando Von Trier insistiu em, cinicamente, dizer que “entendia Hitler”. O comentário veio a propósito de suas raízes alemãs. O cineasta disse que “queria ser judeu mas descobriu que era nazi”, pertencendo a uma certa família Hartmann. 
Ao dizer que “entendia Hitler”, afirmou que “não achava que era um bom sujeito” mas queria dizer que “entendia os homens”. “Não que eu não goste de judeus, nem mesmo de Susanne Bier (sua colega dinamarquesa que ganhou Oscar de filme estrangeiro por  EmUm Mundo Melhor). E acho que Israel é um pé no saco”. Mas insistiu na polêmica ao elogiar Albert Speer, arquiteto de destaque no 3º. Reich, como “uma das melhores criações de Deus”. 
Nitidamente, Lars veio para confundir, não para esclarecer nada. Como quando quis falar sobre seu suposto próximo filme, que seria um pornô (segundo ele, “por insistência de Kirsten Dunst”, que ao ouvir isto ainda sorria). De acordo com o diretor piadista, este novo trabalho terá, além de muito sexo, quatro horas de duração e a coletiva de imprensa terá de ser “um pouco mais tarde”. 
Indagado, muito apropriadamente, porque não faz comédias, já que é tão bem-humorado, respondeu: “Se faço, viram melancólicas. Na verdade, Melancolia é uma comédia”. Para quem acha graça no tipo de número do dinamarquês, foi um show. Melhor ficar com o filme. Melancolia é um trabalho forte e candidato, sim, a prêmios em Cannes, onde Von Trier já venceu uma Palma de Ouro (por Dançando no Escuro, 2000) e dois Grandes Prêmios do Júri (Ondas do Destino, 1996, e O Elemento do Crime, 1984).

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