"A Árvore da Vida" vence a Palma de Ouro 2011

Lars von Trier tenta virar o jogo midiático em Cannes

Neusa Barbosa

Destaque midiático em todo o mundo pelas declarações irônicas supostamente pró-Hitler, o cineasta dinamarquês Lars Von Trier passou o dia de hoje em Cannes se explicando nas rodadas de entrevistas já previstas para a divulgação de Melancolia – que concorre à Palma de Ouro mas pode pagar o preço por seu diretor ter sido considerado persona non grata pelo conselho do Festival.
 
Participei, com seis outros colegas de várias partes do mundo, de uma dessas conversas na tarde de hoje no reservado Le Mas Candille, o hotel e spa onde Von Trier está hospedado – um bucólico retiro arborizado, que foi uma fazenda no século 18, tornou-se hotel nos anos 60 e é famoso pelo restaurante, liderado por um chef prestigiado na Riviera Francesa. É sempre assim com o cineasta, que supostamente não viaja de avião, só de carro, e nunca se hospeda em Cannes. Antes, costumava ficar em Antibes, no luxuoso Hotel Du Cap.
 
Tudo isso, enfim, reforça esse jogo midiático que o diretor maneja em geral muito bem, mas ontem parece ter saído de controle – como ele é o primeiro a admitir: “Se ainda eu fosse Mel Gibson... Foi um mau lugar para este sarcasmo. Foi completamente ridículo e parte disso saiu completamente distorcido na imprensa. Claro que eu não simpatizo com Hitler. Posso ver um homem, um ser humano dentro dele. Mas o Holocausto, como todos sabemos, foi um dos mais cruéis e bárbaros crimes cometidos contra a humanidade em muitos, muitos anos”.
 
Ele mesmo admite que estava dando um show na coletiva de imprensa: “Na verdade, só posso dizer que tenho um pouco de medo de conflitos. No sentido de que, quando estou numa coletiva de imprensa e sinto que ninguém tem nada para dizer, eu começo a fazer uma performance”.
 
Novamente, lembrou que, por muito tempo, pensava ser judeu. “A razão pela qual eu faço piadas com judeus é porque passei metade da minha vida acreditando que era um deles. E quando você é judeu, você tem permissão para fazer piadas sobre isso. Todos os meus filhos têm nomes judaicos. Finalmente, é algo que você tem dificuldade em deixar de lado quando descobre que não é judeu. Sei que não é uma desculpa mas é assim. Só sinto que muitas pessoas interpretaram isso tudo muito mal porque fui estúpido o suficiente para falar para o mundo do mesmo jeito que falo com meu melhor amigo”.
 
De todo modo, essa repercussão negativa significou também abrir a agenda para entrevistas como para uma emissora de TV israelense - depois de von Trier ter dito ontem que Israel era "um pé no saco".
 
 
Susanne Bier
 
Pedem que ele explique porque mencionou explicitamente a colega dinamarquesa Susanne Bier – que ganhou o Oscar de filme estrangeiro este ano com Em um Mundo Melhor. E ele diz: “Estudei cinema com ela na faculdade e tenho esta companhia, Zentropa, em que ela também costumava trabalhar, mas não mais. Sempre achei que ela foi extremamente bem-tratada, porque todo mundo de algum modo tem medo dela, o que é justo. Mas não tem nada a ver com o fato de ela ser judia, de modo nenhum”.
 
Persona non grata
 
Ele volta ao território da ironia, no entanto, quando se pede que ele comente o fato de ter sido declarado persona non grata aqui: “É uma pena porque sou próximo de Thierry (Frémaux) e de Gilles (Jacob) – respectivamente, o diretor artístico e o presidente do festival -, são muito bons amigos, sentirei falta deles. Por outro lado, a expressão persona non grata me cai muito bem, estou muito feliz com ela (risos). Minha família, as pessoas que gostam dos meus filmes, ficarão extremamente felizes por eu ser persona non grata”.
 
Com este comentário, que lembra Groucho Marx quando dizia que nunca entraria para um clube que o aceitasse como sócio, Von Trier parecia, no entanto, estar de algum modo, tendo um pequeno prazer perverso em desmentir Gilles Jacob que, segundo ele, em seu livro de memórias (Cidadão Cannes – O Homem por Trás do Festival), disse que ele “não era mais um rebelde”, que tinha “se normalizado”.
 
O que ele acha que significa ser persona non grata aqui ? “Acho que não serei mais convidado aqui e, se vier, não poderei chegar a menos de 100 metros do Palais des Festivals”.
 
Filme pornô-filosófico
 
Jocosamente, ele atribui estas declarações impulsivas ao fato de ter largado a bebida. “No ano passado, eu estava bebendo. Este ano não, estou saudável, olhe o que aconteceu. Vocês aí não parem de beber, nenhum de vocês, é tão perigoso!”(risos).
 
Ele fica relativamente sério quando lhe pergunto se acha que este tipo de repercussão midiática vai ser ruim para Melancolia. “Ainda não sei”.
 
Uma parte das declarações da coletiva que muitos pensaram que era brincadeira, na verdade, ele confirma: a realização de um filme pornográfico. “É verdade que quero fazer um filme pornô. Já tem até nome: A Ninfomaníaca. Será metade sexo explícito, metade filosofia. Deve ter um público muito, muito restrito. E não acho que o 3D combine muito bem com a filosofia, mas será o primeiro filme filosófico em 3D”.
 
Quando lhe perguntam se Kirsten Dunst estará também neste filme, como ele disse ontem, ele duvida: “Acho que ela talvez não, mas Charlotte (Gainsbourg), creio que sim”.

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