"A Árvore da Vida" vence a Palma de Ouro 2011

Filmes de estrangeiros na América injetam adrenalina em Cannes

Neusa Barbosa

Sem que isso pudesse ter sido minimamente previsto, o tema do nazismo, trazido à tona pelo boquirroto Lars Von Trier, ressurgiu hoje em Cannes, desta vez na tela, no ótimo novo filme de Paolo Sorrentino, This Must Be the Place. 
Exibido nesta manhã de sexta, o primeiro trabalho do cineasta italiano feito nos EUA – embora seja uma coprodução entre Itália, França e Irlanda – retratou, com muita energia e o usual apego de Sorrentino por personagens inusitados, a trajetória do ex-roqueiro Cheyenne (Sean Penn). 
Este mesmo brilhante Sean Penn visto aqui no começo da semana como o atormentado Jack de A Árvore da Vida, de Terrence Malick  - que continua, depois de dias, um dos mais fortes candidatos à Palma de Ouro - encarnou aqui um cinquentão deprimido e low profile, apegado ao antigo look gótico, vestindo preto, pesadas botinas, cabelão e maquiagem. Depois dos turbulentos anos de juventude, temperados por muita bebida, sexo, drogas e rock`n roll, ele hoje vive na Irlanda, numa grande casa que parece um castelo. É o seu esconderijo da dor de ter perdido os amigos, que ele agora só pode visitar no cemitério. 
É outra morte, de seu pai, em Nova York, o que o arranca dessa concha protetora, que ele divide com a mulher Jane (Frances McDormand), uma atlética bombeira. Sem falar com o pai há 30 anos, Cheyenne descobre em seus diários uma história que desconhecia – a obsessão do pai, judeu e ex-prisioneiro de Auschwitz, na pista de seu antigo carrasco, Aloise Lange (Heinz Lieven). Uma vingança que, a partir de agora, a seu modo, Cheyenne vai retomar. 
O projeto deste filme de Sorrentino, aliás, surgiu em Cannes, em 2008, quando o diretor exibia El Divo (um excelente filme que permaneceu inédito no circuito comercial brasileiro) e Penn presidia o júri. Um encontro que resultou neste filme extremamente bem-realizado, em que Penn sai bastante das chaves de interpretação em que é conhecido. O ator, aliás, não poupa elogios ao cineasta, como fez na coletiva de imprensa: “Ele é um dos poucos mestres do cinema em atividade, uma mente extremamente original e que vai produzir por muitos anos ainda”. 
A música do filme, como seria de se esperar, é outro ponto alto. Quem assina é David Byrne, que num momento divide a cena com Sean Penn. Sorrentino contou na coletiva que Byrne não queria atuar, mas foi convencido a isso e “divertiu-se muito”. 
 
Dinamarquês na América
Surpreendeu positivamente a incursão de outro estrangeiro na América, o dinamarquês Nicolas Winding Refn, injetando altas adrenalina e tensão dramática em Drive
Inspirado no livro homônimo de James Sallis, o diretor (de Pusher) contou a história de um motorista, mecânico e dublê (Ryan Gosling, de A Garota Ideal). Um homem de poucas palavras e muitos princípios que faz como que um cruzamento entre uma espécie de atualização do caubói solitário dos faroestes de Clint Eastwood e herói oriental no estilo de Bruce Lee. Um toque que é evocado pelo fato de ele não usar armas – embora tenha, como se vê, muitos recursos quando luta – e a jaqueta com motivos chineses. 
A inglesa Carey Mulligan (Educação) interpreta Irene, a vizinha do motorista que mobiliza não só sua ternura como sua necessidade de entrar em ação, deixando de lado a aparente calma. É uma história tensa, movimentada e com muito sangue, que lembra alguns dos melhores trabalhos dos irmãos Coen, como Gosto de Sangue, mas com muitas e espetaculares sequências envolvendo pegas de automóvel.
 
Dupla japonesa
Nestes últimos dias de Cannes – a premiação sai no domingo à noite – os dois concorrentes japoneses à Palma de Ouro, Ichimei, de Takashi Miike, e Hanezu (foto), de Naomi Kawase, não poderiam ser mais distintos. Embora seja certo que os dois afirmam, cada qual em seu território, alguns dos elementos mais típicos da cultura ancestral do Japão. 
Um veterano dos filmes de samurai, Miike assinou o que foi o primeiro filme em 3D da competição da história de Cannes (outros haviam passado no formato fora de concurso, como o desenho Up – Altas Aventuras, em 2009). A boa surpresa é que a ênfase do filme recaiu menos nas lutas e mais no desenvolvimento dramático de uma cativante história sobre honra e vingança, em torno de Motome (Eita), seu sogro Hanshiro (Ebizo Ichikawa) e o poderoso Kageyu (Koji Yakusho, conhecido por filmes como Babel, de Alejandro González Iñárritu). 
Numa chave radicalmente intimista, Naomi Kawase teceu uma história em torno de um triângulo amoroso (entre Tohta Komizu, Hako Oshima e Tetsuya Akikawa), entremeada por referências a antigas lendas japonesas e dentro do habitual estilo da diretora de inserir solidamente suas histórias na natureza – como fez em trabalhos anteriores vistos e premiados em Cannes, como A Floresta dos Lamentos (exibido no Brasil apenas em festivais). 
Apesar de uma grande beleza, o filme de Kawase passou uma sensação de alguma redundância, o que não ocorria em outras obras.

Deixe seu comentário:

Imagem de segurança