"A Árvore da Vida" vence a Palma de Ouro 2011

Cannes espera premiações, num ano de temas duros e filmes longos

Neusa Barbosa

Como sempre, na reta final, a competição em Cannes reserva alguma surpresa. Que, no caso, foi o potente novo filme do turco Nuri Bilge Ceylan, Bir Zamanlar Anadolu’da (Once Upon a Time in Anatolia).
Foi o filme mais longo da competição, num ano em que vários concorrentes duraram mais de duas horas – como um dos favoritos à Palma de Ouro, A Árvore da Vida, de Terrence Malick. Mas o filme de Ceylan, conhecido no Brasil por trabalhos anteriores como Distante e Três Macacos, também premiados em Cannes, superou todos, com suas 2h37.
Para deleite de muitos, essa longa duração foi um tempo que passou voando, gasto numa narrativa envolvente, incorporando elementos de policial e drama, num universo pesadamente masculino, em boa parte filmado à noite.
Leva cerca de 1h10 para surgir na tela o primeiro rosto feminino que, como as demais poucas mulheres desta história, são coadjuvantes, embora sua presença se faça sentir na memória e nas atitudes dos homens. A primeira cena de dia só aparece lá pela 1h30 de projeção.
Nem todas as perguntas serão respondidas pela narrativa tensa e rigorosa, que acompanha um grupo de policiais, um médico (Muhammet Uzuner) e um promotor (Taner Birsel), todos seguindo as indicações de Kenan (Firat Tanis), suspeito de um assassinato, para a localização do corpo da vítima numa vasta região montanhosa e erma.
Com uma câmera girando em torno destes personagens, o diretor vai revelando a identidade de cada um e desdobrando os capítulos da história, com direito a digressões, como uma parada numa aldeia no caminho, para que todos se alimentem.
É um conto sombrio, fechando o foco no drama que desencadeou o crime e nos fantasmas que assombram os integrantes da comitiva – como as memórias do procurador em torno de uma mulher morta, que somente aos poucos se percebe quem é.
É um filme poderoso, exigente, que revela um ambiente um tanto primitivo, machista e desigual, com um pé na modernidade, outro no atavismo. Não seria surpresa se Ceylan, na premiação principal que será anunciada na noite deste domingo, levasse um segundo prêmio de direção, ele que ganhou este troféu em 2008 por Três Macacos, além de ter vencido o prêmio da FIPRESCI (Federação Internacional dos Críticos) em 2006 por Climas e um Grande Prêmio do Júri em 2002 por Distante (que levou também o prêmio de ator).
Não seria nada mau também se o júri presidido por Robert De Niro repetisse 2006, quando houve em Cannes premiações coletivas para atores. Não cairia mal uma premiação conjunta ao afinado elenco masculino aqui.

A festa feminina de Radu
O último concorrente da competição, exibido na manhã deste sábado, foi o festivo, musical e politicamente correto La Source des Femmes, em que o romeno Radu Mihaileanu (O Concerto, Trem da Vida) teceu um manifesto feminista numa pequena comunidade muçulmana no Magreb, norte da África.
A pequena aldeia, assombrada pela seca, o desemprego e a corrupção das autoridades locais, que atrasam a instalação da água encanada e da eletricidade, sobrecarrega de trabalho pesado suas mulheres. Sempre carregando baldes nas costas, ladeira acima, ladeira abaixo, várias delas, grávidas, perdem os filhos. Uma das jovens, Leila (Leila Bekhti), uma das raras mulheres que sabe ler, lidera uma greve de sexo, procurando forçar os homens locais a se mexerem para resolver os problemas do povoado.
É uma trama que evoca a peça grega Lisístrata, de Aristófanes, mas tem outros desdobramentos. Se há um mérito no filme de Mihaileanu é lançar uma luz diferente sobre a cultura muçulmana, quebrando o molde monolítico que o fundamentalismo procura fazer crer que seja a sua única voz e expressão. Outro ponto alto é o elenco feminino principal, em que se destacam a veterana Biyouna (como a rebelde Velho Fuzil), Hiam Abbas (Free Zone), Hafsia Herzi (O Segredo do Grão) e Sabrina Ouazani (Feliz que Minha Mãe Esteja Viva).
 
Apostas de véspera
Encerrada a exibição de todos os concorrentes, os que parecem com mais perfil de Palma de Ouro continuam sendo mesmo A Árvore da Vida, de Malick; We Need to Talk About Kevin, da escocesa Lynne Ramsay; e o melhor francês dos quatro concorrentes da casa, o mudo, preto-e-branco e delicado The Artist, de Michel Hazanavicius. As declarações impróprias de Lars Von Trier sobre o nazismo podem ter ferido de morte as chances de Melancolia, que antes disso pareciam até boas.
Prêmios de diretores podem ir na direção do citado Nuri Bilge Ceylan; do italiano Paolo Sorrentino (muito eficaz com seu This Must Be the Place, que não seria surpresa se colhesse também um prêmio de ator para Sean Penn); e, quem sabe, um dos japoneses, Takashi Miike (Ichimei) ou Naomi Kawase (cujo exigente drama Hanezu poderia levar também um Grande Prêmio do Júri, que ela já venceu em 2007 com A Floresta dos Lamentos).
O veterano Michel Piccoli é candidatíssimo sempre a um prêmio de melhor ator (pela saborosa produção italiana Habemus Papam, de Nanni Moretti). Já em termos de atrizes, ninguém marcou mais do que a inglesa Tilda Swinton, como a mãe dura e perplexa do adolescente que promove um massacre numa escola em We Need to Talk about Kevin.
Simpáticos como são, Le Havre, de Aki Kaurismaki, e Le Gamin au Vélo, dos irmãos Dardenne, não são realmente os maiores trabalhos dos diretores,já bastante premiados na história recente de Cannes.
Sempre pode vir alguma surpresa – já que se premia roteiro, por exemplo – e que pode cair nas mãos de alguns dos novatos deste ano, o dinamarquês Nicolas Winding Refn, pelo enérgico Drive (que muitos calculam que pode ter agradado a De Niro), a australiana Julia Leigh e seu mergulho seco num erotismo cruel em Sleeping Beauty, e ainda do austríaco Markus Schleinzer, o assistente e pupilo de Michael Haneke que assina um dos filmes mais inquietantes da seleção, Michael, seguindo o cotidiano de um pedófilo.
 
Na média, não foram mesmo nada fáceis os temas da seleção principal, além das longas durações. Por isso, talvez, se escolheu o musical Les Bien-Aimés, de Christophe Honoré, como filme de encerramento. Com elenco recheado de astros, à frente Catherine Deneuve, ao lado da filha Chiara Mastroianni, Louis Garrell e e até o diretor tcheco Milos Forman (divertidíssimo como ator), o filme, porém, é uma coleção de histórias de amor truncadas e infelizes. Além de ser longuíssimo também: 2h25. Não foi mole sobreviver a Cannes este ano.

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