"A Árvore da Vida" vence a Palma de Ouro 2011

Um esquadrão eurocêntrico de encher os olhos

Neusa Barbosa

Com um filme de abertura, Meia-Noite em Paris, de Woody Allen, em que uma das atrizes é a primeira-dama francesa, Carla Bruni (na foto com Owen Wilson), o Festival de Cannes dá sua largada. Até terça-feira (10), a presença da primeira-dama francesa era aguardada com ansiedade e conferiria ao evento um glamour adicional, tão ao gosto dos papparazzi. Mas, Carla anunciou que não irá por motivos pessoais e profissionais. Desolé!

Em compensação, a seleção de filmes da 64ª edição do festival, que é o que realmente importa, está parecendo uma festa à qual não vemos a hora de chegar. Os filmes confirmados na competição e na seção Un Certain Regard, em boa parte, dão água na boca. Mas continua faltando mais Brasil e América Latina.

Dos quatro brasileiros que carimbaram o passaporte no festival, o maior nome é Karim Ainouz, que em 2002 causou grande impacto por aqui com seu Madame Satã, no Un Certain Regard. Agora ele foi convocado para a Quinzena dos Realizadores com O Abismo Prateado. O filme se inspira na cançãoOlhos nos Olhos, de Chico Buarque de Holanda – presença anunciada em Cannes -, e atuação de Alessandra Negrini. Ela interpreta Violeta, uma dentista casada, mãe de um adolescente, cuja jornada cotidiana é drasticamente alterada por uma mensagem deixada em sua secretária eletrônica.

O Brasil está representado também no Un Certain Regard com o longa de estréia da dupla paulistana Juliana Rojas e Marco Dutra, Trabalhar Cansa. Os dois já mostraram em Cannes seus curtas Um Ramo (prêmio Découverte na Semana da Crítica 2007) e Um Lençol Branco (que concorreu no Cinéfondation 2005). Tomara que confirmem as expectativas, que são muitas, porque até aqui mostraram estilo e personalidade. Nesta importante seção do festival, eles têm pela frente nomes respeitadíssimos, como o francês Robert Guédiguian, o coreano Kim Ki-duk e o francês Bruno Dumont.
 
Na Semana da Crítica, concorre o curta experimental Permanências, de Ricardo Alves Jr. No Cinéfondation, espaço reservado aos filmes de conclusão de curso de cinema, concorre o curta carioca de Alice Furtado, Duelo Antes da Noite. Que esse sangue novo do Brasil faça bonito e comprove que do lado de cá se anda fazendo cinema de qualidade.
 
Fino esquadrão europeu
 
A boa notícia é que Cannes este ano, ao mesmo tempo que repete sua habitual esquadra eurocentrista – com menos norte-americanos e orientais do que a média –, parece ter colhido os melhores de muitos países do Velho Continente, alguns com carteirinha de sócios da Croisettte:
 
Da Bélgica, os irmãos Dardenne (Le Gamin au Vélo), bicampeões de Palma de Ouro (por Rosetta, 1999, e A Criança, 2005), tentando a terceira com mais um drama com foco nos conflitos da paternidade;
 
Da Espanha, Pedro Almodóvar, com La Piel que Habito, em que Antonio Banderas tenta (e deve conseguir) voltar ao seu melhor num drama tenso, que gira em torno da vingança de um cirurgião plástico, inspirado num livro do francês Thierry Jonquet. Pela primeira vez, Don Almodóvar dará a Cannes a honra de uma première mundial (seus filmes anteriores que concorreram por lá sempre estrearam antes na Espanha);
 
Da Itália, vêm dois de seus melhores diretores: Nanni Moretti, que já venceu a Palma em 2001 com O Quarto do Filho e agora exibe Habemus Papam – em que ele mesmo contracena com Michel Piccoli, o Papa, interpretando seu terapeuta; e Paolo Sorrentino (o diretor do excelente Il Divo, que ficou sem distribuidor no Brasil), agora atacando com um filme americano, This Must Be the Place, em que Sean Penn é um astro de rock decadente e que aparece de cabelão e batom;
 
Da França, o quarteto é o mais divergente possível: o veteraníssimo do circuito de arte Alain Cavalier – que foi homenageado no ano passado com uma retrospectiva no É Tudo Verdade – com Pater, outra produção mega-intimista em que ele contracena com Vincent Lindon (conhecido por Bem-Vindo); o alternativo Bertrand Bonello (Tirésia), com o drama ambientado numo bordel, no início do século XX, L’Apollonide – Souvenirs de La Maison Close; Maiwenn, uma das três mulheres competindo pela Palma 2011, com a sátira social Polisse, em que ela (irmã da atriz Isilde Besco) também atua; e Michel Hazanavicius, conhecido por filmes em que mescla comédia e espionagem – como Agente 117 (2006) –, trazendo agora The Artist, último filme selecionado para a competição;
 
Da Dinamarca, outros dois candidatos com retrospectos distintos: o homem-show Lars Von Trier, que já venceu a Palma com Dançando no Escuro (2000), sacudiu Cannes estes anos todos com Dogville, Manderlay, ano passado com Anticristo (que levou prêmio de atriz para Charlotte Gainsbourg), e agora tematiza o fim do mundo em Melancolia, com Kirsten Dunst e Charlotte, de novo. Emoção garantida, gostando ou não; com perfil mais discreto, seu compatriota Nicolas Winding Refn apresenta uma produção americana, Drive, baseada em livro de James Sallis, acompanhando a vida perigosa de um motorista/dublê (Ryan Gosling) que faz bicos para assaltantes;
 
Ainda na ala nórdica, da Finlândia volta Aki Kaurismaki (duplamente premiado em Cannes por seu Homem sem Passado em 2002), agora mostrando Le Havre, onde o tema da imigração bate forte;
 
Da Turquia, outro habituê premiado de Cannes, Nuri Bilge Ceylan (Uzak/Distante, Three Monkeys, Climas), concorrendo com Once Upon a Time in Anatolia;
 
Da Escócia, vem a segunda mulher da competição, a muita apreciada Lynne Ramsay, que concorreu em Cannes em 1999 com Ratcatcher e retorna com um drama, baseado em livro de Lionel Shriver, We Need to Talk about Kevin – que trata de um tema candente agora no Brasil, um massacre numa escola. No elenco, Tilda Swinton e John C. Reilly;
 
Da Áustria, um estreante, Markus Schleizer (diretor de elenco de vários filmes de Michael Haneke, incluindo A Fita Branca), traz o drama Michael;
 
Da Romênia, chega Radu Mihaileanu que se tornou conhecido e premiado, merecidamente, com seu Trem da Vida (1998), mas que depois disso teve trajetória bem irregular, incluído aí seu recente O Concerto; em Cannes 2011, ele mostra uma comédia, La Source des Femmes.
 
Finda esta longa seleção européia, à primeira vista muito promissora (a safra parece de alto nível, ao contrário do mediano 2010 em Cannes), os outros continentes contribuem com outros candidatos que dão muita vontade de conferir:
 
Dos EUA, o longamente esperado A Árvore da Vida (com estréia brasileira marcada para junho), de Terrence Malick, que tematiza o sentido da vida e a paternidade, juntando pela primeira vez os talentosos Sean Penn e Brad Pitt;
 
Do Japão, uma dupla de estilos opostos: a suave e intimista Naomi Kawase (terceira mulher da competição do ano), que já foi vencedora de um prêmio do júri em Cannes pelo belo A Floresta dos Lamentos (2007), agora embalando um misterioso filme de época ambientado no ano 500, Hanezu no Tsuki; e o adrenalínico Takashi Miike, com mais uma história no universo dos samurais, Ichimei – que será o primeiro filme em 3D a competir em Cannes;
 
Da Austrália, a segunda estreante da competição, Julia Leigh e seu certamente inquietante Sleeping Beauty, em que ela adapta o próprio livro e acompanha a jornada de uma jovem universitária (Emily Browning, de Sucker Punch) coagida à prostituição;
 
De Israel, vem outro drama explorando conflitos da paternidade, Footnote, de Joseph Cedars, uma sequência de Beaufort, seu filme de guerra indicado ao Oscar 2007.
 
Fora da competição
 
Fora da competição, todo mundo gostaria de conferir Piratas do Caribe 4 – que vai ter provavelmente uma das exibições mais concorridas da programação. Fora isso, serão mostrados o documentário Michel Petrucciani, de Michael Radford (O Carteiro e o Poeta) sobre o pianista francês falecido em 1999; outro documentário, Bollywood, The Greatest Love Story Ever Told, de Jeff Zimbalist (Favela Rising) e Rakeysh Omprakash Mehra, produzido pelo indiano Shekhar Kapoor (diretor de Elizabeth – A Era de Ouro); e o novo filme do cambojano Rithy Panh, Duch, Le Maître des Forges d’Enfer.
 
Clássicos
Uma seção magistral dentro do festival, criada há 7 anos, terá nesta edição 14 filmes de ficção e 5 documentários. Entre as preciosidades, todas exibidas em 35 mm ou digital de alta definição, a raríssima e dada como perdida cópia colorida de Viagem à Lua (1902), de Georges Meliès, redescoberta em Barcelona em 1993 e totalmente restaurada.
 
Também integra esta programação o clássico do cinema político italiano O Conformista (1970), de Bernardo Bertolucci (premiado este ano com uma Palma de Ouro de honra), restaurado pela incansável Cineteca de Bolonha, que tanto tem feito pela preservação do cinema. E outra cópia novinha em folha de Laranja Mecânica (1971), de Stanley Kubrick – homenageado também com uma exposição especialíssima na Cinemateca de Paris –, numa sessão contando com a presença do ator Malcolm MacDowell, que dará, este ano, a Lição de Cinema do festival.
 
Um dos documentários da seção recupera, aliás, a trajetória do poderoso filme de Kubrick: Il était une fois...Orange Mécanique, de Antoine de Gaudemar e do crítico Michel Ciment.
 
O ator francês Jean-Paul Belmondo, outro homenageado do ano, é o tema de um dos documentários, Belmondo, Itinéraire, de Vincent Perrot e Jeff Domeneck.
 
Encerra o festival o novo longa de Christophe Honoré, Les Biens-Aimés, com Catherine Deneuve, Louis Garrel, Chiara Mastroianni e Ludivine Sagnier, ligando a Praga dos anos 1960, Londres dos anos 1980 e Paris no mundo pós-11 de setembro.

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