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“Meia-Noite em Paris”, de Woody Allen, celebra a imaginação com humor fino

Neusa Barbosa
“Meia-Noite em Paris”, de Woody Allen, celebra a imaginação com humor fino
Cannes – Não poderia começar melhor a 64a. edição, embalada na fantasia poética e nem por isso menos engraçada de Meia-Noite em Paris (veja galeria de fotos e o trailer), o delicioso novo filme de Woody Allen que teve sua primeira projeção para a imprensa credenciada nesta ensolarada manhã na Riviera. Logo mais, à noite, acontecem duas sessões de gala. Mas dizem que nem Carla Bruni, que fez um pequeno papel no elenco, nem Nicolas Sarkozy, darão o ar de sua graça. O filme tem estréia prevista no Brasil em 17 de junho.
 
Recorrendo mais uma vez à magia que inspirou alguns de seus melhores roteiros, como A Rosa Púrpura do Cairo e Simplesmente Alice, e sem por isso chegar à ficção científica, Woody elege o improvável Owen Wilson como o passageiro de uma viagem no tempo, rumo aos inquietos anos 20. Transformar Wilson, ator de algumas comédias muito duvidosas, como a recente Passe Livre, no intérprete convincente desta história criativa, aliás, foi a primeira mágica do diretor.
 
Na pele do roteirista Gil Pendler, cujo sonho é trocar Hollywood pela literatura, Wilson assume seu costumeiro ar entre ingênuo e abobado, que cai bem, no entanto, a um personagem que descobre por acaso essa porta fantástica no tempo, que lhe permite trocar figurinhas com uma lista invejável de alguns dos maiores artistas da História. Entre eles, Scott e Zelda Fitzgerald, Ernest Hemingway, Gertrude Stein (uma impagável Kathy Bates), Pablo Picasso, Henri Matisse e Salvador Dalí (uma breve e inspirada participação de Adrien Brody).
 
A porta mágica fica dentro de um calhambeque Peugeot, onde Gil embarca numa noite em que se perdeu pelas ruas de Paris – depois de deixar a noiva (Rachel Adams) sair com outro casal de amigos, em que um deles é Paul (Michael Sheen), um pseudo-intelectual pedante que Gil simplesmente não aguenta mais ver pela frente.
 
Cabe a ninguém menos do que a primeira-dama francesa, Carla Bruni, aliás, desmontar a pose de Paul, bem no momento em que ele montava um discurso com algumas imprecisões sobre a vida de Auguste Rodin. Carla interpreta a guia do museu da obra do célebre escultor, um dos locais mais belos de Paris e tem três cenas no filme, duas ali mesmo, outra num banco diante da Notre-Dame.
 
Para quem ama Paris, como o diretor e a maioria da humanidade, o filme é uma festa desde as primeiras sequências, que percorrem alguns dos pontos cardeais da paisagem afetiva da cidade que já foi descrita como uma festa. Esse foi o título aliás, de um livro do próprio Hemingway, um dos expatriados americanos em Paris que participam ativamente da fantasia viva de Gil.  
 
Nenhum elemento desta boa receita funcionaria, no entanto, sem um equilíbrio entre a beleza, a poesia, o humor e umas pitadas de discussão sobre o sentido da vida, de estarmos aqui, nesta época, sonhando sempre com outra, geralmente no passado e que idealizamos o bastante para acreditar que foi melhor. Brincando com essa idéia simples, embalada em várias músicas de Cole Porter, Meia-Noite em Paris soa afinado como um violino e nunca esquece de fazer sorrir. Às vezes, faz rir muito das piadas com um perfume intelectual, nada pedante, que Woody sempre soube fazer tão bem.
 
Desta vez, ele acertou em cheio. O filme é uma delícia e dá coragem para todos os que estão aqui de enfrentar o resto da maratona, que está apenas começando.
 
Logo mais, à noite, ninguém sabe muito bem ainda o que esperar do filme de estréia da escritora australiana Julia Leigh, Sleeping Beauty, cuja mentora é ninguém menos do que a premiada diretora Jane Campion (O Piano), e estrelado por Emily Browning (Sucker Punch). Só conferindo no que deu essa mistura.

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