"A Árvore da Vida" vence a Palma de Ouro 2011

Dia de temas perturbadores em Cannes

Neusa Barbosa
Depois do refresco para os olhos e o coração do filme de Woody Allen, Meia-Noite em Paris, abrindo Cannes fora de competição, começou realmente nesta quinta (12) a maratona pela Palma de Ouro – com três candidatos nada leves na temática ou na estética, curiosamente, todos dirigidos por mulheres.
Ainda na noite de quarta, o primeiro concorrente, Sleeping Beauty (foto ao lado), da estreante australiana Julia Leigh, situou a perversão como um dos temas do festival. É uma sexualidade doentia a que percorre a história, um roteiro assinado pela própria diretora, que tem passado na literatura, e que em alguns momentos lembra um Louis Buñuel passado a frio, com um toque de Michael Haneke.
 
Há uma lógica gelada por trás da organização, comandada pela enigmática Clara (Rachel Blake), uma mulher madura que gerencia a satisfação dos prazeres secretos de clientes velhos e ricos. Para satisfazê-los, ela contrata uma jovem universitária que pula de um emprego para outro, sempre em dificuldades financeiras – Lucy (Emily Browning).
 
Como em seu filme anterior, Sucker Punch – embora numa chave totalmente distinta -, Emily, com sua pele e rosto de anjo, louríssima e branquinha, é feita sob medida para despertar as pulsões proibidas desses clientes. O filme é perturbador, embora lhe falte pegada e até ousadia de ir em frente em algumas de suas situações. A seu favor, tem a benção de Jane Campion, que foi mentora do projeto e veio a Cannes apoiar pessoalmente sua protegida, que, se quiser ser realmente uma cineasta, ainda tem um caminho a percorrer.
 
Dessintonia familiar
 
O segundo concorrente, dirigido pela escocesa Lynne Ramsay, We Need to Talk About Kevin, adapta romance de Lionel Shriver, e olha para um massacre numa escola pelo ângulo da mãe do assassino, interpretada com grande densidade e carisma por Tilda Swinton – primeira candidata a um prêmio de melhor atriz.
 
Tem personalidade e pungência esta narrativa, que acompanha os primeiros passos dessa mulher depois do massacre. Não se sabe, até as sequências finais, o que aconteceu na escola nem o que foi feito de toda a família. Reconstitui-se a história passo a passo, confrontando-a com um presente em que Eva (Tilda) é abalada a todo momento pelas próprias lembraças e cobranças externas das quais ela não pode dar conta.
 
No elenco, há que se destacar também o impressionante Kevin adolescente (Ezra Miller), que sustenta um personagem cuja insensibilidade contumaz é profunda e inquietante. Figurinha carimbada do cinema independente americano, John C. Reilly interpreta o ingênuo pai do rapaz. Outro dado perturbador da história é o quanto demole os habituais clichês idealizados da relação mãe-filho.
 
O terceiro concorrente, e o primeiro francês, Polisse, da também modelo e atriz Maïwenn, com sua longuíssima – e desnecessária – duração (2h07), causou perplexidade. Se, por um lado, toca um tema relevante e baseado em fatos reais, o funcionamento de uma unidade policial de proteção a menores, por outro revela uma narrativa frouxa, que parece perseguir a fórmula de um seriado de televisão – mesmo para isso, faltando-lhe concisão e foco.
 
Em todo caso, o filme francês traz a bordo uma notável brigada de bons atores, como Karin Viard, Marina Foïs, Nicolas Duvauchelle e uma pequena participação do italiano Ricardo Scamarcio (O Primeiro que Disse).
 
Un Certain Regard
 
Abriu a segunda seção mais importante do festival o esperado Inquietos (Restless), de Gus Van Sant, em que o diretor mostra mais uma vez sua afinidade e afinamento com os universos juvenis. No centro da história, escrita por Jason Lew, está uma desesperada, nem por isso menos intensa e bonita, história de amor.
 
O protagonista é o jovem Enoch (o belo e talentoso Henry Hopper, filho de Dennis Hopper, estreando profissionalmente). Sobrevivente de um acidente que matou seus pais, ele vive em depressão. O jeito que encontrou para lidar com a morte foi tornar-se penetra de funerais. Num deles, conhece sua alma gêmea, Annabel (Mia Wasikowska, de Alice no País das Maravilhas).
 
Annabel tem outro tipo de relação com a morte – sofre de um câncer terminal e tem poucos meses de vida. Mas decidiu que seus últimos dias serão cheios de alegria ao máximo. Enoch torna-se o parceiro desta viagem.
E o filme respira uma doçura juvenil com a qual só se pode simpatizar.
 
Quinta também foi o dia da exibição do primeiro filme brasileiro, Trabalhar Cansa (foto ao lado), da dupla Juliana Rojas e Marco Dutra, no Un Certain Regard. Conhecidos pelos curtas Um Lençol Branco e Um Ramo – premiado em Cannes -, os dois diretores criaram novamente uma história ao seu estilo, que começa com uma pegada realista, seguindo as agruras econômicas de um casal de classe média, Helena (Helena Albergaria) e Otávio (Marat Descartes).
Na vida dos dois, a escala de surrealismo vai crescendo. Helena toca um pequeno supermercado em que o prédio guarda alguns segredos. Otávio, um executivo desempregado, confronta-se por sua vez com o mundo paralelo dos departamentos de Recursos Humanos, cuja imaginação para o absurdo é mais inesgotável do que a do cinema e do literatura. Infelizmente, trata-se de uma imaginação destrutiva de pessoas, como abordado em outros filmes, como A Questão Humana.
 
Trabalhar Cansa tem personalidade, mas ainda alguns problemas de estreante. A história custa a tomar seu rumo,desperdiçando um pouco de sua energia. Deveria ter chegado antes às suas verdadeiras intenções. Mas é um bom primeiro trabalho. 

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