"A Árvore da Vida" vence a Palma de Ouro 2011

"Habemus Papam", de Nanni Moretti, entusiasma Cannes

Neusa Barbosa
"Habemus Papam", de Nanni Moretti, entusiasma Cannes
O terceiro dia do festival acordou para um forte concorrente a premiações importantes: Habemus Papam, do italiano Nanni Moretti, já dono de uma Palma de Ouro em 2001, por O Quarto do Filho.
 
O Papa em questão é interpretado pelo magnífico ator francês Michel Piccoli, que dá carne, osso e uma psicologia muito especial ao personagem do cardeal Melville. Um homem que, eleito Papa, entra em crise e não toma coragem de assumir o cargo.
 
Este instigante ponto de partida desenvolve-se em uma série de direções criativas, no roteiro assinado por Moretti, Francesco Piccolo e Federica Pontremoli. Começa pelo inusitado da situação, em que todos sabem que há um Papa eleito, mas não seu nome, já que, na hora em que ele deveria dirigir-se ao povo na sacada do Vaticano, entra em pânico e recua.
 
Como ele já aceitou o cargo, o pesado protocolo da Igreja Católica entra num impasse. O que fazer? O Papa assume ou não o cargo? A imprensa de todo o mundo pressiona e entra em funcionamento o prodigioso jogo de cintura do porta-voz do Vaticano (o ator polonês Jerzy Stuhr, habituê de vários filmes de Kieslowski).
 
Primeiro, o porta-voz chama o médico. Depois, o psicanalista (Nanni Moretti). A entrada deste estranho no ninho do Vaticano é o principal deflagrador de situações cômicas, já que o terapeuta é declaradamente ateu no meio de um imenso grupo de cardeais de vários países, votantes da eleição papal.
 
Enquanto o Papa entra em crise existencial, pois não se julga apto para o cargo, o psicanalista e os cardeais, todos impedidos de deixar o Vaticano por causa do segredo a ser mantido a todo custo, dedicam-se a jogos diversos. Começa pelo carteado, em que os cardeais mostram que não gostam de perder, como quaisquer pecadores. E termina por um torneio de vôlei, em que o terapeuta dividiu os times por blocos continentais, em que fica claro o peso da geopolítica, ou seja, a lei do mais forte prejudicando a América Latina, a África e a Oceania, que tem menos cardeais.
 
Enquanto eles jogam, o porta-voz tenta outras estratégias, levando o Papa fora dali para ver outra terapeuta (Margherita Buy, de O Quarto do Filho). Desta vez, o Papa parece ter ficado mais tocado pela conversa, o que o leva a fugir, para desespero do porta-voz e dos policiais que o acompanhavam.
 
Nesta fuga, o Papa frequenta lugares normalmente inacessíveis ao Sumo Pontífice – uma lanchonete simples, uma loja de departamentos, um hotel modesto, um teatro em que uma trupe interpreta A Gaivota, de Tchecov. O Papa demonstra interesse por ser ator – mas Nanni Moretti negou, na coletiva de imprensa, qualquer semelhança entre o personagem e João Paulo II, que na juventude foi ator.
 
Na coletiva, Moretti disse que não quis mudar seu roteiro em função de aproximar a história da vida real – como dos escândalos envolvendo a Igreja e a pedofilia, que aliás não são mencionados no enredo. Para isso, ele acredita que existam os documentários e os livros. Seu filme, ele diz, quis mostrar a sua história, a sua Igreja, os seus personagens. Nada mais.
 
O diretor contou também que o Vaticano “nem ajudou, nem atrapalhou” a produção. O Vaticano que se vê no filme é em sua maior parte reconstituído em estúdio, já que o diretor pretendia retratar o ambiente de uma forma mais simples, seus habitantes, de forma mais humana. Isto ele conseguiu. Nunca mais assistiremos a uma eleição papal sem que nos passe pela cabeça a hipótese de uma fuga papal do posto...
 
Nenhuma surpresa: Moretti é ateu desde a juventude. Mas não é só da religião que ele faz troça – a psicanálise também é objeto de sua ácida ironia, particularmente neste filme, um de seus melhores. Não seria surpresa uma premiação como diretor ou melhor ator para Piccoli que, como revelou Moretti, “mostrou-se ainda melhor do que eu me lembrava”. Tem toda razão.

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