"A Árvore da Vida" vence a Palma de Ouro 2011

Os docudramas batem forte em Cannes

Neusa Barbosa

Depois de três anos de depressão e ausência, o cineasta sul-coreano Kim Ki-Duk (foto) voltou. Desde um acidente quase fatal com uma atriz no set de Dream (2008), ele se encerrou numa cabana, onde viveu como um ermitão, ocupado apenas com as tarefas de sobrevivência mínima. Um processo de solidão completa e mergulho numa dor profunda que ele resolveu finalmente documentar em filme em janeiro deste ano, resultando em Arirang, selecionado para a seção Un Certain Regard.
 
O próprio Kim apresentou a sessão inaugural deste peculiar retrato íntimo, um verdadeiro striptease emocional – ao qual não faltam partes de assumidas elaborações ficcionais. No corpo e na atitude, revela o preço do processo de isolamento. É um Kim Ki-duk visivelmente envelhecido, cabelos grisalhos, vestido de preto e ainda abatido o que se apresentou no palco da sala Debussy no final da tarde de sexta (13). Bem diferente daquele diretor jovial e aparência até meio fashion que encantou festivais e públicos ao redor do mundo com trabalhos como Primavera, Verão, Outono, Inverno e Casa Vazia.
 
Arirang (que é o nome de uma conhecida canção coreana cantada pelo diretor exaustivamente em algumas partes do filme) reflete esse longo hiato na obra do diretor, que realizou 15 filmes em 12 anos, cada um praticamente saindo do outro. É notável a honestidade como ele descreve a própria depressão, que ele pode estar começando a superar com a própria realização deste filme. Um trabalho dolorido, irregular, por vezes excessivo, mas indubitavelmente honesto. E em que se enxerga o ressurgimento do Kim Ki-Duk ficcionista ao elaborar uma conversa com a própria sombra e uma sequência à la filme de gângster em que ele simula a execução, possivelmente, dos ex-assistentes que o traíram, abandonando-o para trabalhar em esquemas de grandes estúdios.
 
Pirata colombiano
 
Na Quinzena dos Realizadores, outro filme na fronteira entre o documentário e a ficção: Porfirio, dirigido pelo cineasta brasileiro-colombiano Alejandro Landes, o diretor de Cocaleros, que nasceu em São Paulo, mas trabalha na Colômbia.
 
Landes encontrou nos noticiários a história real de Porfirio Rodrigues, um homem que se tornou paraplégico depois de atingido pelo tiro de um policial que, depois de anos em vão esperando por uma indenização, armou-se de duas granadas e tentou sequestrar um avião. Cumpriu pena de oito anos de prisão e agora tornou-se o protagonista do filme de Landes, reencenando a própria história com atores amadores, entre eles, seu próprio filho, Lissin.
 
Reconstituindo o cotidiano sacrificado do homem, que sobrevivia da venda de minutos de um celular – que ele empenhou para comprar as granadas -, o filme tem a força da verdade tornada cinema. E nada é mais eloquente do que o próprio Porfirio cantando sua história numa música de sua composição nas sequências finais, como uma espécie de repentista caribenho.
 
Pais e filhos
Foi até agora o mais fraco concorrente da competição pela Palma de Ouro o concorrente israelense Footnote (Hearat Shulaym), dirigido pelo norte-americano Joseph Cedar. A complicada relação entre um pai, Eliezer Shkolnik (Shlomo Bar-Aba) e seu filho, Uriel (Lior Ashkenazi), ambos estudiosos do Talmud, enrosca-se nas próprias minúcias e perde energia minuto a minuto.
 
Basicamente, o enredo (do próprio Cedar) acompanha a frustração de Eliezer pela falta de reconhecimento ao seu trabalho de estudo dos manuscritos sagrados do judaísmo. Enquanto isso, seu filho é admitido em academias e tem vários livros publicados. O grande incidente que os divide para sempre é quando o pai é avisado de que, finalmente, recebeu um prêmio importante. Acontece que foi um engano e seu filho é o verdadeiro premiado. O potencial que há neste conflito, no entanto, foi desperdiçado pela construção truncada ao longo do caminho.

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Comentários:
  • 14/05/2011 - 19h13 - Por Otávio Poxa, coitado do Kim Ki-duk! O Lars von Trier foi outro que até outro dia estava depressivo e igualmente fez um filme.

    Divã é para os fracos... hahaha

    Mas falando sério, tomara que ele se recupere. Acho ele um baita diretor. O "Casa Vazia" ficou na minha cabeça até hoje...

    E que inveja da Neusa. Vê se compra pelo menos um chaveirinho de Cannes pro pessoal aí do Cineweb (pelo que eu entendi só foi você, né? rs).
  • 15/05/2011 - 05h35 - Por Neusa Barbosa oi Otávio:

    eu também torço muito pro Kim Ki-Duk se recuperar a partir deste desabafo que fez neste filme. "Casa Vazia" é um dos meus favoritos dele.

    Só eu vim a Cannes, sim, Otávio, vc imagina o quanto é difícil uma pessoa só vir. Tomara que um dia a gente tenha muito dinheiro, patrocinadores, etc., para trazer outras pessoas. Com certeza, a gente cobriria muito mais coisas, seria ideal.

    bj

    Neusa
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