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Dardenne e Guédiguian renovam o humanismo em Cannes

Neusa Barbosa
Dignos representantes de um cinema sempre em busca do humanismo, o francês Robert Guédiguian e os belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne, e um outro afago saudosista ao passado, este do cineasta francês Michel Hazanavicius, mudaram o tom deste primeiro final de semana em Cannes.
 
Como nesta concorrida praia da Riviera francesa, o clima dos filmes exibidos passa rapidamente de um a outro. Depois de alguns dias de calor, vieram frio e uma forte chuva na cidade superlotada de turistas ontem- hoje, substituídos por um céu azul,azul, como uma pintura de Cézanne. Do mesmo modo, depois de filmes bem duros nos primeiros dias, este trio inseriu outro espírito. Esta variedade de estilos é que faz a riqueza de Cannes.
 
Premiados já com duas Palmas de Ouro (por Rosetta e A Criança), os irmãos Dardenne fazem parte, por assim dizer, da aristocracia artística de Cannes. Assim, este seu Le Gamin au Vélo (literalmente, “o menino na bicicleta”), novamente concorrente na seção principal, chegou carregado de expectativas. Alguns se decepcionaram na sessão de imprensa, na noite de sábado.
 
Sem dúvida, Le Gamin au Vélo parece mais simples, mais enxuto, talvez menos ambicioso do que seus filmes anteriores. Por outro lado, se olha em menos direções, vai mais fundo numa só, na ideia de responsabilidade parental, um tema que frequentou várias obras dos diretores belgas.
 
Desta vez, o protagonista é um garoto de 12 anos, Cyril (o quase perfeito Thomas Doret). Abandonado pelo pai (Jérémie Rénier, habituê no elenco dos diretores), o menino fixa-se em sua busca, já que ele mudou de endereço – embora tenha prometido vir buscá-lo no abrigo infantil depois de um mês.
 
Nessa busca, o garoto conhece por acaso a cabeleireira Samantha (Cécile de France) que, sem nenhuma obrigação de envolver-se, pouco a pouco apega-se ao menino. É desta relação de escolha e não de sangue, que o filme se nutre, passando também por um flerte do menino com o crime, abrindo espaço para uma passagem envolvendo responsabilidade e culpa.
 
Há quem acuse os Dardenne de se aterem a uma fórmula, mas me parece que é muito mais um universo temático e ético, em que eles procuram sempre fazer colocações pertinentes ao mundo contemporâneo. Le Gamin au Vélo não reinventa o cinema dos Dardenne. À primeira vista, apenas o confirma, é certo, mas é algo que dá vontade de ouvir.
 
 
Entre Kilimandjaro e Marselha
 
Partindo de um poema de Victor Hugo, Les Pauvres Gens, o diretor Robert Guédiguian cravou o seu Les Neiges du Kilimandjaro no mesmo território humanista dos Dardenne, só que na seção Un Certain Regard.
 
Guédiguian é outro autor que se movimenta sempre no próprio universo temático, inclusive recorrendo a um pequeno grupo de atores, novamente presentes nesta história sobre a generosidade, em que se examinam também questões como culpa e responsabilidade.
 
Há um casal central, Michel (Jean-Pierre Darroussin) e Marie-Claire (Ariane Ascaride), pequena classe média trabalhadora de Marselha, terra do diretor. Michel é sindicalista de uma empresa portuária. Com a crise econômica, ele acaba perdendo seu emprego, o que o lança numa aposentadoria precoce, com tudo o que isso implica.
 
Marie-Claire, casada há muitos anos com Michel, trabalha como cuidadora domiciliar de idosos. Em torno dessa mulher luminosa, gravitam o marido, os filhos e os netos. Ela tem uma atitude positiva diante de tudo, mesmo do desemprego do marido – que, por ser sindicalista, poderia não ter posto seu nome numa urna da qual sorteou-se o grupo de empregados demitidos. ‘’É duro ser casada com um herói”, é tudo que a esposa em a dizer.
 
No aniversário de casamento, o casal ganha dos amigos uma soma em dinheiro e passagens para Kilimandjaro, na África, o que realizaria um sonho deles. Eles são assaltados em casa, perdem o dinheiro e são jogados numa outra trama.
 
Um dos assaltantes é Christophe (Grégoire Leprince-Ringuet), ex-colega de Michel e um dos outros demitidos. Arrimo de família, tem uma mãe irresponsável e dois irmãos menores para cuidar.
 
Na habilidosa maneira em que o roteiro, assinado por Guédiguian e Jean-Louis Milesi, constrói estas relações, nunca se foge à questão da responsabilidade pelas próprias escolhas, ao mesmo tempo que elabora caminhos para que o casal assaltado encontre um modo generoso de lidar com as próprias perdas, sem deixar de olhar para as de Christophe e seus irmãos. É aí que o filme fabrica sua própria idéia de bondade possível, evitando a pieguice com uma ternura totalmente verossímil, encarnada por este magnífico conjunto de atores, Ariane Ascaride à frente.
 
Cinema mudo e P&B
 
Numa época em que tudo o que se fala é 3D – inclusive em Cannes, onde se exibirá, na próxima quarta (18), o primeiro concorrente à Palma nesta tecnologia, o japonês Ichimei, de Takashi Miike –, não deixa de ser curioso o espaço reservado na seleção deste ano à nostalgia pelos primórdios do cinema, que nasceu na França, como se recorda.
 
Entretanto, o concorrente francês à Palma The Artist, de Michel Hazanavicius, homenageia o cinema antigo americano, em torno do estúdio Kinograph. Mudo 99% do tempo, com bela fotografia em P&B, narra a ascensão e queda de um astro do cinema mudo, George Valentin (o habituê dos filmes de espionagem cômica do diretor, Jean Dujardin), que corre em paralelo à consagração de uma nova estrela do novo cinema falado, Peppy Miller (Bérénice Béjo).
 
Os dois atores, numa sequência ótima, homenageiam os musicais americanos – o que aproveita inclusive a impressionante semelhança de Dujardin com Gene Kelly -, contribuindo para a instalação de uma atmosfera festiva neste início de domingo.
 
Um personagem impagável de The Artist, que não deve deixar de ser mencionado, é o cachorrinho. Amigo inseparável de Valentin, mesmo em seus piores momentos, ele insere no filme um toque de Umberto D, de Vittorio De Sica. Mas The Artist, que tem no elenco os americanos John Goodman e Penélope Ann Miller, persegue mesmo o final feliz e coloca em Cannes um outro tema: a procura, nas origens do cinema, de uma narrativa mais direta, simples e capaz de entreter e fazer sonhar, como sinalizou o filme de Woody Allen, Meia-Noite em Paris.

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