"A Árvore da Vida" vence a Palma de Ouro 2011

"A Árvore da Vida" vence a Palma de Ouro 2011

Neusa Barbosa
"A Árvore da Vida" vence a Palma de Ouro 2011
O ermitão não veio a Cannes, mas venceu assim mesmo – o norte-americano Terrence Malick levou a Palma de Ouro com seu inquietante, envolvente, magnético A Árvore da Vida, que tem estreia prevista para 24 de junho no Brasil. Quem recebeu o troféu em seu lugar foram dois dos produtores do filme, Bill Pohlad e Sarah Green. Brad Pitt também não estava mais aqui.
 
Foi um prêmio justo e era muito esperado, desde a primeira sessão, na segunda-feira (16). O filme tem a ambição e a potência de realização que se espera de um cineasta que, mesmo tão bissexto, cinco filmes em 4 décadas, costuma marcar a sensibilidade dos cinéfilos, como aconteceu com obras anteriores, caso de Além da Linha Vermelha (98), que trazia no elenco o mesmo Sean Penn que interpreta Jack neste A Árvore da Vida, o personagem-chave cujo fluxo de pensamento o filme transforma em sua narrativa, compartilhando suas lembranças dos pais (Brad Pitt e Jessica Chastain) e as preocupações cósmicas dele e de todo homem algum dia na vida.
 
Com A Árvore da Vida, Malick faz diversas sínteses, ele que é filósofo de formação. Filma pouco (a última obra, O Novo Mundo, é de 2005), mas seus trabalhos são muito intensos. Faz do cinema algo mais, além do entretenimento, das novas tecnologias (que ele incorpora, como nas belíssimas sequências do cosmos e dos dinossauros), até do cinema de autor.
 
Divisão
 
O segundo prêmio mais importante, o Grand Prix, ou Grande Prêmio do Júri, acabou dividido entre dois filmes (o que pode demonstrar que o júri rachou por paixões diferentes): o carismático turco Once Upon a Time in Anatolia, de Nuri Bilge Ceylan, e o doce e humanista belga Le Gamin au Vélo, que acrescentou mais um troféu à já longa coleção dos irmãos Dardenne, vencedores de duas Palmas de Ouro (por Rosetta e A Criança).
 
Na sequência de importância, o troféu de diretor caiu nas mãos do jovem cineasta dinamarquês Nicolas Winding Refn, cujo adrenalínico Drive deve ter ganhado o coração do presidente do júri, Robert De Niro. É um trabalho de peso, valorizado pela atuação quase muda e muito intensa do canadense Ryan Gosling, que muitos consideraram páreo para vencer o troféu de ator, na pele do motorista-dublê que tenta salvar uma jovem (Carey Mulligan).
 
No entanto, o prêmio de ator ficou em casa, para o francês Jean Dujardin, protagonista de The Artist, o trabalho nostálgico, mudo, em preto-e-branco do diretor Michel Hazanavicius que homenageia a história do cinema e relembra algumas das razões permanentes de seu encanto, com um leve sabor à La Jacques Tati. Um prêmio que pode ser considerado correto, mas talvez caísse melhor coletivamente ao elenco masculino do poderoso filme de Nuri Bilge Ceylan, a Michel Piccoli em Habemus Papam (de Nanni Moretti, um dos esnobados da noite), ou mesmo a Sean Penn, em dose dupla em A Árvore da Vida e This Must Be the Place, de Paolo Sorrentino (outro italiano que passou em branco, assim como os japoneses Naomi Kawase e Takashi Miike, com Hanezu e Ichimei, respectivamente).
 
Sem vingança
 
Provando que o júri foi mesmo independente em relação às lamentáveis ironias pseudonazistas de Lars Von Trier há dias, e à sua exclusão do festival como persona non grata, a protagonista de seu filme Melancolia, Kirsten Dunst, levou o troféu de melhor atriz. O agradecimento dela soou como desabafo: “Que semana foi esta!”. Depois, agradeceu ao júri, ao festival por ter selecionado o filme e também “a Lars, por ter-me dado a oportunidade de ser tão intensa”.
 
Outro prêmio importante, o Prêmio do Júri, teve cara de agrado à França, ficando para o irregular filme Polisse, da também atriz Maïwenn, que parece um arremedo mais verborrágico de seriado americano. Ambientado numa unidade policial encarregada de combater crimes contra crianças – sem dúvida, um ótimo tema -, o filme agradou a este júri, presidido por um ator e integrado por alguns outros, como o inglês Jude Law, a norte-americana Uma Thurman e a argentina Martina Gusman.
 
Compreensivelmente, Maïwenn subiu ao palco emocionadíssima para receber seu prêmio. E fez a sua performance: chamou ao palco todos os integrantes da equipe que estavam na sala Debussy, onde se desenrola a premiação, e falou com uma voz tão ofegante que lembrou até a Jane Birkin quando, décadas atrás, cantava assim, por outros motivos, a erótica Je T’Aime, Moi Non Plus....
 
No prêmio do roteiro, outra esquisitice do júri, que o atribuiu à produção americano-israelense Footnote, de Joseph Cedar. Se há uma coisa errada neste filme truncado sobre a relação entre um pai e um filho é o roteiro... Enfim, júris são soberanos e cada um tem seus favoritos do coração.
 
O Caméra d’Or, concedido ao melhor filme de novato, ficou para o argentino Pablo Giorgelli, com Las Acácias, que acompanha as vicissitudes de um motorista que costuma fazer a rota Assunção-Buenos Aires. O título fez parte da seleção da Semana da Crítica.
 
No formato curta-metragem, dois premiados: Cross, da ucraniana Maryna Vroda, e um Grande Prêmio do Júri para Badpakje 46, de Wannes Destoop (Holanda).
 
No Cinéfondation, dedicado aos filmes de estudantes – e onde o Brasil tinha uma concorrente, Alice Furtado -, os vencedores foram Der Brief, de Doroteya Droumeva; Drari, de Kamal Lazraq; e Ya-Gan-Bi-Hang, de Son Tae-gyum.

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