Festival de Berlim

Filme de Wim Wenders é uma verdadeira ode ao trabalho de Pina Bausch

Plínio Ribeiro Jr., de Berlim

Filme de Wim Wenders é uma verdadeira ode ao trabalho de Pina Bausch
"Dance, dance, otherwise we are lost"
 
Nada mais apropriado a Pina, do alemão Wim Wenders, do que estar fora da competição; é um filme que reivindica de maneira contínua o seu caráter hors-concours, que abstrai a necessidade de prêmios. Não é a isto que ele veio…
 
Foi há mais de 20 anos que o cineasta se deixou enfeitiçar ao assistir a uma apresentação de Café Müller. Da admiração à amizade, o caminho foi curto e, ao longo desses anos, um pacto foi selado entre ambos: um dia Wim Wenders faria um filme sobre Pina Bausch. Mas ele não se sentia capaz de realizar um projeto que estivesse à altura do seu objeto de inspiração.
 
O surgimento de novas tecnologias de filmagem em 3D permitiu ao diretor ultrapassar este bloqueio e convencer-se de que, finalmente, havia chegado o momento de concretizar sua homenagem. Os meses iniciais de preparação foram aqueles em que, juntos, definiram as coreografias que fariam parte da próxima temporada da companhia – a Tanztheater Wuppertal Pina Bausch –  e, consequentemente, integrariam o filme: Sagração da Primavera (1975), Café Müller (1978), Kontakthof (1978) e Lua cheia (2006).
 
Eis que, pouco antes dos primeiros testes com as câmeras 3D, o inimaginável acontece: Pina Bausch morre no dia 30 de junho de 2009. Imediatamente, o projeto é suspenso e imagina-se que ele nunca será mais do que uma daquelas ideias geniais que nunca saem do papel.
 
A companhia de dança prosseguiu os ensaios para a turnê que teria início poucos meses depois. Mas os próprios bailarinos retomaram o contato com o cineasta e pediram que  retomasse o projeto.
 
Eis-nos então diante da possibilidade de contemplar esta abordagem inédita de um mundo já tão conhecido por todos: a magia de Pina Bausch. Antes de entrar em considerações sobre o aspecto "sensorial" criado pelo 3D, é preciso destacar a perspicácia do diretor em apresentar o universo de Pina sob três focos narrativos/visuais, que se intercalam durante todo o filme: o uso de imagens das apresentações em teatro das coreografias escolhidas; os depoimentos dos bailarinos e de outros profissionais envolvidos com a companhia; e, finalmente, improvisações feitas na forma de solos ou duos dos bailarinos em meio à natureza ou na cidade de Wuppertal.
 
Na coletiva de imprensa, o diretor disse que o filme foi uma forma de lidar com o luto em relação à morte de Pina, mas sem que o processo de criação resultasse em algo triste. E houve também uma questão de timing: é um filme cuja pertinência é existir no momento em que foi feito – um tempo depois das pessoas envolvidas terem se recuperado do choque, mas próximo o suficiente para que a presença de Pina pudesse pulsar a cada instante.
 
As cenas em que Pina aparece são as únicas bidimensionais, o que resulta num contraste coerente com o filme, sublinha a presença da mentora da companhia, mas não exatamente no mesmo contexto. O mais tocante é sentir que, na verdade, ela está presente em todo o filme, em cada movimento dos bailarinos, em seu olhar diretamente voltado para a câmera no momento em que dão depoimentos repletos de admiração e amor.
 
A profundidade no campo visual trazida pela 3D faz com que o espectador sinta-se na plateia do teatro, ou em meio aos bailarinos, quer seja no palco ou nas ruas de Wuppertal, onde eles realizam solos e/ou duos em meio à realidade urbana. Para que a fluidez absoluta que reina ao longo do filme fosse possível, a equipe de Wim Wenders sabia de cor as coreografias, os deslocamentos de cada bailarino, além de ter colocado, por exemplo, câmeras ligadas a alguns bailarinos para acentuar a sensação de que aquele que vê o filme também faz parte dele.
 
A organicidade tão recorrente no trabalho de Pina vem à superfície de maneira imediata. Assim sendo, logo que se começa a espalhar a terra que fará parte do palco durante Sagração da Primavera, é possível apreender a sua textura, o seu cheiro. Mais do que a experiência sensorial em si, o filme abre parênteses metafísicos, como se apreendessemos a matéria invisível tecida por Pina em cada dia dedicado à sua companhia, aos seus bailarinos.
 
É um mergulho na essência do trabalho desta que se tornou uma referência mundial como artista, o que só foi possível graças a uma coesão difícil de ser definida em palavras, mas captada por meio da ética sensível emanada a cada movimento, olhar ou palavra. Um verdadeiro bálsamo. Ave Pina…
 
Para saber mais:  
 
http://www.pina-bausch.de/film.php                                                                                            

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