Festival de Berlim

To 3D or not to 3D, eis a questão…

Plínio Ribeiro Jr., de Berlim

Diferentemente do êxtase provocado pelo documentário Pina, de Wim Wenders, o filme Cave of forgotten dreams, do alemão Werner Herzog, nos indaga sobre a pertinência do uso da tecnologia 3D e deixa uma sensação de desperdício num filme que possui elementos fascinantes por si só. Em 1999, uma equipe de pesquisadores franceses descobriu, numa caverna situado na região da Ardèche (centro da França), pinturas rupestres em excelente estado de conservação, que datam de mais de 30 mil anos.
 
A partir de então, o governo francês constituiu uma equipe multidisciplinar de arqueólogos, historiadores, espeleólogos e outros e transformou a caverna de Chauvet num centro de pesquisa completamente fechado ao público. O filme de Herzog é como um ingresso para uma viagem no tempo.
 
O primeiro desafio a ser ultrapassado foi conseguir as autorizações necessárias perante o governo francês para percorrer este espaço. O uso da tecnologia 3D tem provavelmente como objetivo dar ao espectador a sensação de que este se encontra dentro da caverna, mas não é o que ocorre. Diferentemente do filme de Wim Wenders, em que foi somente através de um rigor técnico que se chegou a um resultado etéreo, Herzog tinha contra si o tempo exíguo concedido para as filmagens, sem falar nos espaços estreitos e pouco iluminados que constituíam a matéria-prima de seu filme.
 
Na maior parte do tempo, a magia contida nos desenhos dá lugar a um desconforto visual, resultado das câmeras apoiadas nos ombros da equipe de filmagem. No momento em que esta colhe os depoimentos dos profissionais envolvidos no estudo desta caverna, as imagens são feitas « na superfície », quer seja no escritório deles, ou na área próxima à caverna. O que resulta em imagens mais estáveis, mas esvaziadas de uma « necessidade 3D ».
 
Isto dá margem a um questionamento sobre qual é o futuro desta tecnologia, principalmente por conta risco de que a avidez para atrair espectadores faça com que o foco seja desviado para o marketing criado ao redor dela ao invés de estar vinculado de maneira intrínseca ao projeto de identidade (e pertinência) visual do filme.
 
Quanto ao terceiro filme em 3D, o único a concorrer ao Urso de Ouro, trata-se de Os contos da noite, animação do francês Michel Ocelot, responsável por Kiriku e a feiticeira (1998). A obra surpreende por apresentar imagens que remetem ao teatro de sombras chinês. A simplicidade da trama foi também um grande acerto do diretor, responsável igualmente pelo roteiro, pelos diálogos e pelo storyboard: numa antiga sala de cinema, um garoto, uma garota e um senhor « criam » seis histórias que remetem a lendas dos mais variados continentes, que vão do império asteca ao Tibete. Cada uma delas vai constituir por si só uma trama com começo, meio e fim. Na verdade, mais do que um longa-metragem de animação, são seis curtas-metragens reunidos num longa.
 
A humildade em não querer fazer da 3D um território de mergulhos vertiginosos resulta em imagens de uma beleza elaborada, mas simples, onde o contraste é obtido principalmente através das cores. Outro ponto a favor é não fazer uma leitura simplista das lendas, ou apresentar uma dicotomia muito enfática entre os bons e os maus. Evoca-se a traição, o sacrifício de jovens donzelas, as guerras entre tribos, entre outros. O único lugar-comum é a inserção de algumas cenas durante os créditos finais. Se bem que é até bom, afinal, dentro e fora de festivais, é cada vez mais comum as pessoas estarem a algumas dezenas de metros do cinema quando as luzes se acendem.

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