Festival de Berlim

Quando conviver já não é mais possível

Plínio Ribeiro Jr., de Berlim

Entre os 16 filmes concorrentes ao Urso de Ouro, é curioso notar que três deles possuem o mesmo ponto de partida : um casal em pleno processo de ruptura, sendo que em todos eles foi a mulher quem tomou a iniciativa. As coincidências terminam por aí, já que cada um retrata uma realidade diferente, sem falar nas especificidades de cada filme.
 
O primeiro é o excelente Nader and Simin – A separation, dirigido por Asghar Farhadi (vencedor do Urso de Prata como melhor diretor em 2009, com o filme Procurando Elly). Nader (Peyman Moadi) e Simin (Leila Hatami) representam um casal de classe média, que vive com conforto juntamente com a filha, Termeh (Sarina Farhadi), e que, além disto, teve concedida uma permissão para sair do Irã. Simin quer deixar o país, mas seu sogro, com quem moram, requer atenção especial, pois já começa a sofrer os sintomas do Alzheimer. Simin resolve sair de casa, e Nader vê-se obrigado a contratar Razieh (Sareh Bayat) para cuidar de seu pai.
 
A maestria do diretor encontra-se principalmente em sua capacidade de traçar paralelos entre realidades distintas (diferenças sociais, econômicas, culturais entre os casais Simin/Nader e Razieh Hodjat, por exemplo, os contrastes entre a vida privada em relação às convenções sociais e à justiça em si) sem que seja necessário apelar para clichês, ou tomar partido de um dos lados. O que não impede que ele lance seu olhar profundo acerca de todos estes aspectos.
Não se pode ignorar os clichês que nós, ocidentais, associamos a este país.
 
O sintomas decorrentes do Alzheimer do pai de Nader podem ser lidos como uma metáfora de um país em suspensão; esta oscilação entre uma amnésia em relação ao passado e a busca de novas perspectivas, de uma identidade. O vazio decorrente da amnésia, em contraponto com a obsessão de preenchê-la por meio da leitura de jornais, é que é uma verdadeira obsessão.
 
Já a filha do casal, Termeh, pela evolução de sua compreensão das motivações da separação dos pais e, principalmente, do dilema por trás da escolha que ela deve fazer - ficar com a mãe ou com o pai - desconstrói uma leitura simplista que poderia ser feita caso a personagem não tivesse sido tão bem construída (e interpretada).
 
Asghar Farhadi nos revela o que existe além das aparências e traz à tona esta matéria frágil que surge a partir das fissuras desencadeadas pelo divórcio deste casal, mas sobretudo acentuando o aspecto universal desta(s) fragilidade(s). Como o próprio diretor mencionou, sua intenção foi de questionar mais do que dar respostas já que, para ele, ter acesso a muitas respostas nos impede de questionar e, consequentemente, de pensar. Não surpreende que o filme seja um dos principais cotados para o prêmio máximo do festival.
 
O mundo misterioso
 
O segundo filme é O mundo misterioso, do argentino Rodrigo Moreno, que apresentou O guardião na Berlinale de 2006, é nitidamente inferior ao filme iraniano. O filme tem início quando Ana (Cecilia Raimero) anuncia que quer dar um tempo na relação com Boris (Esteban Bigliardi), que é quem sai de casa, para instalar-se num hotel. A partir de então, o filme prossegue atado às caminhadas a esmo de Boris sem que haja um aprofundamente de quem são estas pessoas, o que elas fazem, e quais foram as razões da separação. O foco narrativo gira ao redor de Boris, dos amigos que encontra, da sua decisão em comprar um carro e dos problemas mecânicos que este apresenta. Enfim, «o mundo misterioso » prometido no título não é apresentado e o espectador fica à deriva das deambulações de Boris, cogitando que talvez a realidade que está sendo vivida por Ana neste momento seja muito mais interessante àquela ao qual ele vê-se confrontado.
 
O terceiro filme, o coreano Come rain, come shine, dirigido por Yoon-ki Lee (cuja participação mais recente na Berlinale foi em 2008, quando seu filme My dear enemy fez parte da seção Forum), é o único representante asiático na seleção oficial,. O filme apresentado em 2001 é baseado no conto japonês The cat that can never come back, escrito por Areno Inoue, que tem início quando a esposa (interpretada por Soo-jung Lim) anuncia ao marido (Bin Hyun) que quer separar-se. Nenhum dos dois personagens tem nome. À diferença dos outros dois filmes, nenhum deles sai de casa, ou melhor, no dia em que ela sairia de casa, uma chuva que paralisa a cidade e os retém naquele que foi o espaço de vida do casal. É uma obra pontuada mais por silêncios do que por diálogos, bem como por imagens da casa e dos diversos ambientes que ela possui, além de imagens recorrentes das escadas, que parecem remeter ao labirinto silencioso em que habitam ambos.
 
Aquilo que é dito parece abrir algumas frestas em relação a uma questão universal relativa à vida amorosa: qual é o ingrediente invisível que une e/ou desune duas pessoas? A pertinência do filme encontra-se justamente no fato de percorrer os parênteses que se abrem entre o momento que um dos dois (ou ambos) decide pela separação e o momento em que ela, de fato, acontece de maneira concreta. O adiamento desta segunda etapa, que no filme ocorre em função de um elemento imprevisível e incontrolável, acaba por abrir um outro prisma acerca da primeira.

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