Festival de Berlim

Filmes cutucam a versão oficial da realidade russa

Plínio Ribeiro Jr., de Berlim

Três filmes apresentados em duas seções diferentes (Seleção Oficial e Panorama dokumente), unem-se não apenas por retratarem um mesmo país, a Rússia, mas principalmente pela pertinência ao tocar em questões sensíveis ligadas ao passado da nação, a partir do fim da União Soviética.
 
Innocent Saturday, escrito e dirigido pelo russo Alexander Mindadze (Leão de ouro em Veneza em 1986 com Plumbum e Urso de ouro em Berlim em 1995 com A play for a passenger) retrata um dia muito específico da história russa: 26 de abril de 1986, quando explodiu um dos reatores de Chernobil, provocando a catástrofe que todos conhecemos. Valery Kabysh (Anton Shagin), jovem e fiel camarada do partido comunista, é um dos primeiros a se dar conta da tragédia que está por vir. Enquanto isso, a cidade de Pripjat, onde vivem a maior parte dos habitantes, desperta para um sábado de inocência. Valery sabe que a única coisa a fazer é fugir, o quanto antes, mas resolve ir atrás de Vera (Svetlana Smirnova-Marcinkevich) para levá-la junto consigo. A partir de então, pequenos imprevistos começam a adiar esta partida mais do que urgente e, principalmente, revelar as falhas em relação ao ideal comunista. O que há de mais interessante é justamente o mergulho nelas, através das entrelinhas do que é falado e vivido em cena. Apesar deste filme ter sido incluído na seleção oficial, os outros dois, parte da seção Panorama, são nitidamente superiores.
 
Khodorkovsky, dirigido pelo alemão Cyril Tuschi, é o resultado de uma investigação de mais de cinco anos sobre a figura de magnata russo Mikhail Khodorkovsky, que se encontra atualmente preso na Sibéria, acusado de sonegação de impostos e fraude, entre outros crimes. Mas para traçar-se o caminho que o levou à prisão, é necessário percorrer os bastidores da cena política russa, principalmente o papel representado pelo ex-presidente e atual primeiro-ministro Vladimir Putin. A fortuna de Khodorkovsky deve-se certamente à sua inteligência e habilidade em percorrer os meandros políticos e econômicos da Rússia, mas também ao fato dele estar presente na hora certa, no lugar certo, no momento em que iniciou-se a abertura econômica em decorrência das reformas econômicas nos anos 1990.
 
A fortuna de Khodorkovsky foi consolidada depois dele ter adquirido a companhia petrolífera Yukos. Cyril Tuschi defende a teoria que isso foi possível graças a uma manobra de favorecimento por parte de membros do governo de Iéltsin. Khodorkovsky era visto como um aliado do governo, inclusive por Putin, na época em que já era presidente. Mas ele começou a questionar os valores sustentados pela oligarquia russa e passou a ser considerado um potencial oponente de peso ao governo em questão.
 
Os depoimentos que sustentam a investigação foram colhidos de familiares (mãe, ex-mulher, o filho primogênito – este, exilado nos Estados Unidos) mas também junto àqueles que cruzaram a trajetória profissional e que, na maior parte, encontram-se fora da Rússia. Visualmente, alguns momentos da trajetória de Khodorkovsky, como o momento em que foi preso, são retratados com animação gráfica, tratada num estilo semelhante empregado à animação francesa Renaissance (dirigida por Christian Volckman, em 2006).
 
A polêmica ao redor do filme começou antes mesmo da exibição em Berlim: por duas ocasiões, a primeira em Bali e a segunda já em Berlim, pouco antes do filme ser submetido ao comitê de seleção, a cópia foi roubada, sem que nenhum dos dois casos tenha sido esclarecido.
 
Metáfora chechena
 
Já o filme Barzakh, dirigido pelo lituano Mantas Kvedaravicius, e coproduzido juntamente pela Finlândia, retrata o cotidiano vivido num vilarejo checheno, marcado pelo desaparecimento, tortura e morte de pessoas em função da defesa dos interesses russos na região, estratégica para os interesses econômicos do país. O nome do filme advém de um conceito sufista, a corrente ligada ao islamismo que é a mais praticada na Chechênia, para o qual « barzakh » representa o espaço entre a vida e a morte. É a metáfora perfeita para retratar esta zona na qual encontram-se todos os que são dados como desaparecidos. Familiares apelam aos serviços de videntes e apegam-se a sonhos para tentar aliviar a angústia de ter familiares mergulhados neste limbo de incertezas.
 
Felizmente há os que voltarão e eles estão presentes no filme para dar seus relatos sobre este conflito longe de ser resolvido. Um deles, mas que não aparece no filme, foi essencial para que o diretor ganhasse a confiança daqueles que dão seu depoimento. Impressiona ver como, em menos de uma hora, o diretor realizou uma obra extremamente esclarecedora, baseada numa abordagem profunda e que, visualmente, é plena de poesia. É um filme extremamente sensível e corajoso, que ousa mostrar a versão não-oficial de um conflito de difícil solução e com vários desdobramentos, como a apreensão em relação à escolha da cidade de Sochi para sediar os jogos olímpicos de inverno de 2014. O filme é dedicado à jornalista Natalia Estemirova, sequestrada e morta em 2009.
 
 
Para saber mais :
 
http://www.barzakhfilm.com/

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