Festival de Berlim

Filmes chilenos apresentados em Berlim percorrem reverberações da ditadura

Plínio Ribeiro Jr., de Berlim

Além do filme argentino El premio, outros dois filmes chilenos abordam a questão da ditadura latino-americana. O primeiro deles é El mocito, documentário dirigido pela chilena Marcela Said e pelo francês Jean de Certeau e apresentado no segmento Forum. O filme aborda este período nefasto da história chilena por um prisma inédito, o de Jorgelino Vergara, um copeiro que trabalhava na DINA, o órgão oficial de repressão e tortura. Jorgelino era quem levava café em meio às sessões de tortura, assim como comida aos prisioneiros, e também retirava os corpos dos que eram mortos.
 
Órfão, ele foi « adotado » pelo coronel Manuel Contreras, chefe da DINA, para trabalhar como copeiro, primeiramente em sua casa. Ele tinha 14 anos na época e, no ano seguinte, passou a trabalhar diretamente na DINA. A figura de Jorgelino é  complexa pelo fato de tirar do campo abstrato os horrores cometidos. Ele era os olhos que viam o indescritível, o abominável. Com o fim da ditadura e o início dos processos para apurar os responsáveis, ele foi acusado pela morte de Víctor Diaz Lopez, secretário-geral do Partido Comunista, em 1976.
 
Até então, ele levava uma vida pacata, juntamente com a mulher e suas duas filhas, que o abandonaram após esta revelação. Iniciou-se então um processo de conscientização sobre a gravidade do contexto do qual ele havia sido testemunha. Este processo interno levou-o à conclusão de que tudo o que ele sabia podia ajudar no avanço das investigações e, principalmente, trazer as respostas esperadas há tanto tempo pelos parentes dos desaparecidos.
 
Atualmente, ele leva uma vida bucólica, sozinho numa cabana, numa tentativa de sublimar os ecos do passado. O filme retrata muito bem este processo de mea culpa, e surpreende ao possibilitar o encontro com familiares daqueles que Jorgelino viu morrer, bem como com militares que antes eram seus superiores e agora, graças ao seu depoimento, estão presos. É um filme corajoso e humano.
 
O outro filme é o curta-metragem Blokes, dirigido por Marialy Rivas, que fez parte da mostra Generation. Luchito, 13 anos, sente-se atraído pelo vizinho que mora no prédio da frente, Manuel, de 16 anos; é um amor platônico, no qual Luchito mergulha de maneira silenciosa, à revelia da mãe, que trabalha em casa como costureira. Se ele consegue desviar desta, no decorrer do filme ele vai despertar da inocência em relação ao contexto político do país onde vive.

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