Festival de Berlim

Teddy Award confirma pioneirismo como principal celeiro de filmes GLBT

Plínio Ribeiro Jr., de Berlim

Male and female are extremes. Humanity happens in between
Wieland Speck

 
Se 2010 foi o ano em que se celebrou o 60° aniversário da Berlinale, foi também a ocasião de festejar as « bodas de prata » do Teddy Award, premiação destinada aos filmes GLBT apresentados ao longo do festival em todas as mostras. E todos os outros festivais deste segmento, realizados atualmente mundo afora, devem muito ao pioneirismo representado pelo Teddy.
 
Wieland Speck, atual diretor da seção Panorama, lembra que o embrião para que ele existisse começou em 1980, quando se decidiu acentuar na programação Panorama os filmes que possuíssem uma perspectiva gay e lésbica. Em 1987, Wieland e Manfred Salzgeber, já falecido e diretor de Panorama na época, resolveram ir além e oficializar a premiação. Esta fase inicial foi feita de maneira artesanal, sem que houvesse grandes recursos ou suporte por parte da organização oficial da Berlinale. Sem esquecer que os homossexuais viviam tempos sinistros, em função da devastação provocada pela Aids e consequente estigmatização por parte da sociedade.
 
Enquanto o troféu recebido atualmente pelos premiados foi desenhado pelo cartunista Ralf König, os vencedores da primeira premiação – Pedro Almodóvar pelo filme A lei do desejo e Gus Van Sant pelos curtas Five Ways to Kill Yourself e My New Friend – receberam um envelope contendo um ursinho de pelúcia. Desde então, o Teddy firmou-se como uma verdadeira referência, que permitiu revelar a um público mais amplo diretores como Derek Jarman, Rosa von Praunheim e John Cameron Mitchell. A edição 2011 contou com 31 longas (sendo 13 documentários) e 9 curtas, analisados por um júri do qual fez parte a brasileira Beth Sá Freire.
 
A premiação
 
O Teddy Award foi oficializado num período em que Berlim ainda se encontrava dividida pelo muro. A noite de premiação da 25ª edição ocorreu num dos lugares que foi um dos símbolos da Guerra Fria: o aeroporto de Tempelhof. Situado em pleno coração da parte oeste da cidade, o aeroporto foi um dos marcos da aviação mundial, tendo sido o aeroporto que ficou em atividade por mais tempo (oficialmente, encontra-se fechado para voos desde novembro de 2008). O prédio principal impressiona pelas suas proporções majestosas, chegando a ser considerado um dos vinte maiores edifícios do mundo.
 
Ao chegar para a premiação, na noite de sexta-feira, os convidados eram recebidos por drag-queens vestidas com uniformes de aeromoça e, segundo sua importância, encaminhados para a ala « econômica » ou « executiva ». Além do clima festivo, a cerimônia foi marcada por discursos que ressaltavam a pertinência de tal premiação, ao mesmo tempo em que homenagens e artistas convidados alternavam-se no palco, como os canadenses The Hidden Cameras. O diretor da Berlinale, Dieter Kosslick, ressaltou que já chegou o momento de deixarmos de falar em tolerância para adentrar num terreno mais profundo, o da aceitação mútua.
 
Um dos grandes destaques foi a apresentação de Evita Bezuidenhout, alter-ego feminino de Pieter-Dirk Uys, proclamada por Nelson Mandela como a mulher branca mais conhecida na África do Sul. Pieter recebeu um prêmio especial pela sua atuação como ativista que atravessou mudanças colossais na sociedade sul-africana. Quer em relação a Pieter ou como Evita, o público sabe que está diante de um ator/performer com um humor afiado e sempre atento às hipocrisias e incongruências emanadas pelos políticos e demais autoridades que regem o mundo. Diante da plateia alemã, ele não hesitou ao comparar o apartheid ao regime nazista, quando disse que os (brancos) sul-africanos também tinham uma ligeira síndrome de raça superior, mas que os alemães colocaram o patamar muito alto, posto que os sul-africanos teriam dificuldade em matar 6 milhões de negros.
 
Em relação aos demais premiados, o filme francês Tomboy (Céline Sciamma) ganhou o prêmio do júri ao abordar de maneira sutil e profunda o universo infantil em meio à androginia. Dois curtas dirigidos por Barbara Hammer dividiram o prêmio desse formato: Maya Deren’s Sink e Generations (co-dirigido com Gina Carducci) e The ballad of Genesis and Lady Jane (Marie Losier), premiado como melhor documentário, ao passo que o diretor argentino recebeu das mãos de Pierre e Gilles (criadores do cartaz oficial do 25° Teddy Award) o prêmio principal da noite pelo filme Ausente. O público brasileiro já o conhece pelo seu filme anterior, Plano B. Em seu novo trabalho, Marco nos apresenta o universo do adolescente Martin, que ao longo do filme vai usar de todos as sutilezas ao seu alcance para que seu treinador de natação, Sebastian, o leve para dormir em sua casa.
 
Esta premiação vem certamente sublinhar a excelência que vem sido construída pelo cinema argentino sobre filmes que abordam os desdobramentos de questões sobre normalidade e descobertas sexuais através da confrontação do universo adulto ao infantil/adolescente, como nos filmes XXY (Lucia Puenzo), de 2007), e O último verão da Boyita (Julia Solomonoff), de 2009.
 
Fica aqui uma menção especial a Wieland Speck, para quem é somente por meio de uma crença renovada que é possível provocar mudanças nas sociedades, e também à sua iniciativa em iniciar uma base de dados para manter arquivados os filmes e demais obras artísticas de todos aqueles que já se foram. 
 
Para saber mais :
 
http://news.teddyaward.tv/en/

Deixe seu comentário:

Imagem de segurança