Festival de Berlim

Urso de Ouro reforça pressão pela liberdade de expressão no Irã

Plínio Ribeiro Jr., de Berlim
Meu desejo é que este filme faça com que as pessoas se questionem
Asghar Farhadi
 
O filme Nader and Simin – A separation, dirigido por Asghar Farhadi, foi o grande vencedor do 61° Festival de Berlim. O júri presidido por Isabella Rossellini concedeu não apenas o prêmio máximo – o Urso de Ouro – como também deu às suas atrizes (Sareh Bayat, Sarina Farhadi e Leila Hatami) o Urso de Prata de interpretação feminina, assim como aos atores (Peyman Moadi, Ali Asghar Shahbazi e Babak Karimi) o de interpretação masculina.
 
Apesar de não ter deixado dúvidas de que certamente ele seria premiado,as honras dadas ao filme de Farhadi servem também como um protesto em relação à ausência de Jafar Panahi no júri do festival, em função da perseguição que sofre do governo iraniano, impedindo-o de comparecer a Berlim.
 
O vencedor beneficou-se também da ausência de concorrentes de peso, à exceção do filme húngaro The Turin horse, do diretor Béla Tarr, que levou o prêmio do júri. É um filme visualmente impecável que retrata de maneira bucólica, e ao longo de quase duas horas e meia, a jornada de um fazendeiro, sua filha e um cavalo. Quanto ao cavalo do título do filme, é uma referência ao cavalo ao qual o filósofo Nietzsche agarrou-se em Turim, no ano de 1889, para logo depois desmaiar. O episódio é considerado o estopim da demência que depois dominou Nietzsche. É um filme denso, melancólico, mas que recompensa seu público com uma profundidade notável na abordagem de questões existenciais.
 
O alemão Ulrich Köhler levou o Urso de Prata pela direção de Doença do sono, que retrata a vida do casal Ebbo e Vera Velten, expatriados há quase 20 anos na África. Ebbo coordena um programa de combate à doença do sono e Vera está saturada desta vida e tem cada vez mais dificuldades em lidar, por exemplo, com a ausência da filha, enviada para um colégio interno na Alemanha. A partir disto, o filme expande-se muito além de questões familiares e passa a analisar temas mais amplos, como relações geopolíticas, principalmente dos programas de auxílio entre países ricos e os mais pobres do continente africano.
 
Muito merecida a concessão do Urso de Prata de melhor roteiro à Joshua Marston e Andamion Murataj pelo filme The forgiveness of blood; também responsável pela direção do filme, Joshua que já é bem conhecido do público por Maria cheia de graça (2003), nos faz mergulhar em tradições ancestrais dos países balcânicos. Num vilarejo albanês, situado no norte da Albânia, um desentendimento entre primos iniciado de forma banal evolui para uma situação dramática. Mark (Refet Abazi) refugia-se e, diante disso, se apela às leis do Kanun, código ancestral que rege a vida social, comercial e familiar. Com base neste princípio, Nik e Dren - os dois filhos de Mark -, não devem mais sair de casa, criando um desequilíbrio em relação à vida que estava estabelecida anteriormente.
 
Rudina, a filha mais velha de Mark, deve assumir a carroça do pai e sair pela cidade para vender pão e garantir a subsistência da família. Mas é ao redor do personagem de Nik (Tristan Halilaj) que reside a grande magia do filme. No limiar entre a juventude e a vida adulta, as descobertas, anseios e questionamentos que vão fazer com que ele se transforme numa espécie de metáfora do filho pródigo. E é no eixo da relação pai/filho que o filme vai encorpar-se.
 
Joshua suspende com maestria o véu que envolve esta realidade atada a costumes ancestrais. O público brasileiro pode fazer um paralelo com o filme Abril despedaçado (2001), de Walter Salles, baseado no livro homônimo do escritor albanês Ismael Kadaré, transplantado ao nordeste brasileiro.

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