"O Céu sobre os Ombros" vence Festival de Brasília

Festival de Brasília faz aposta ousada com diretores novos e filmes experimentais

Neusa Barbosa

Festival de Brasília faz aposta ousada com diretores novos e filmes experimentais
A 43ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, que começa hoje (23), promete ser das mais imprevisíveis da história deste que é o mais antigo do Brasil, criado em 1965, sob a inspiração do crítico e professor Paulo Emílio Salles Gomes.
 
Uma rápida olhada na seleção dos seis longas concorrentes na seção principal, 35 mm, compreendendo três filmes cariocas, dois mineiros e um pernambucano, permite deduzir que a aposta da comissão de seleção deste ano foi procurar os novos. Assim pode ser considerada a maioria dos diretores selecionados, em que os nomes mais conhecidos são os concorrentes do Rio, João Jardim (“Janela da Alma”, “Pro Dia Nascer Feliz”), Eryk Rocha (“Pachamama”, “Rocha que voa”) e a dupla Felipe Bragança (codiretor e corroteirista de O Céu de Suely”) e Marina Meliande.
 
A busca de descobrir novos nomes e tendências pode ser, afinal, a vocação procurada pelo festival, que, localizado no final do calendário, tem tido cada vez maior dificuldade para encontrar concorrentes de peso, ainda mais inéditos, como exige o regulamento. Um detalhe que oferece um desafio extra, com a concorrência de outros festivais, como Gramado, o Festival do Rio, a Mostra de São Paulo, todos imediatamente anteriores, no segundo semestre.
 
O lugar dos veteranos está garantido, porém, na abertura e no encerramento, com a exibição das versões restauradas de “Lílian M - Relatório Confidencial”, de Carlos Reichenbach (atração do dia 23) e “Os Deuses e os Mortos”, de Ruy Guerra, fechando a programação, na noite da premiação, 30 de novembro.
 
Outra atração fora de competição será “O Leão de sete cabeças”, de Glauber Rocha (1970), um mergulho no colonialismo euro-americano na África, igualmente em cópia nova a partir de negativos preservados na Cineteca Nazionale, em Roma.
 
 A nova geração
 
Dos seis longas concorrentes na seção principal, “A Alegria” (foto), de Felipe Bragança e Mariana Méliande (RJ), já foi exibido na Quinzena dos Realizadores, no último Festival de Cannes – o que não é problema, porque o ineditismo exigido no regulamento limita-se ao Brasil.
 
Com a narrativa fragmentada que é marca registrada dos diretores – que já assinaram juntos “A Fuga da Mulher-Gorila”, em 2009 -, o filme acompanha as emoções instáveis da adolescente Luiza (Tainá Medina), 16 anos. Moradora do Catete, ela entra em contato com uma maior liberdade quando sua mãe viaja e a deixa morando sozinha no apartamento.
 
O pai (Márcio Vito, de “No meu lugar”) supervisiona o lugar. Mas é Tainá mesmo quem toma as rédeas de sua vida, dividindo experiências com os amigos. Uma situação estranha se instala quando um primo dela, que mora no subúrbio, é baleado e desaparece. O incidente torna-se pretexto para que o filme assuma uma linha narrativa paralela e um tanto surreal.
 
Documentarista premiado, João Jardim, concorre com “Amor?”, uma investigação sobre ligações amorosas relacionadas a algum tipo de violência, com situações envolvendo ciúme e jogos de poder. Atores como Julia Lemmertz, Lília Cabral, Eduardo Moskovis, Sílvia Lourenço e Fabiula Nascimento interpretam os depoimentos de pessoas diversas sobre o tema.
 
Outro documentário concorrente é “Vigias”, do brasiliense radicado em Recife Marcelo Lordelo – autor de curtas como “Fiz zum-zum e pronto” e “27”, exibido no Festival de Brasília 2008. Neste seu primeiro longa, os protagonistas são diversos vigilantes da cidade de Recife, que comentam seu trabalho e os medos das pessoas para quem trabalham.
 
Primeira ficção de Eryk Rocha, “Transeunte” tem um quê documental ao contar a história de um aposentado, Expedito (Fernando Bezerra), que rompeu as ligações com a vida normal e cotidiana e paulatinamente começa a encontrar novos caminhos para sua expressão.
 
Os mais enigmáticos da seleção, são, indubitavelmente, os dois concorrentes mineiros. Um deles é “O céu sobre os ombros”, de Sérgio Borges (diretor do média “Mira”, premiado no É Tudo Verdade 2006), que, no limite entre documentário e ficção, retrata três personagens reais interpretando a si mesmos: um hare krishna que é chefe da Galoucura (torcida do Atlético Mineiro), um transexual que tem mestrado mas também se prostitui e um angolano dividido entre posições bem extremas. No elenco, Ewelyn Barbin, Murare Krishna e Lwei Bakongo.
 
O último selecionado é “Os residentes”, de Tiago Mata Machado – que substituiu “O Mar de Mário”, de Reginaldo Gontijo e Luiz F. Suffiati, desclassificado por não ter mantido o ineditismo, participando da Mostra de São Paulo, mas mesmo assim será exibido em mostra paralela em Brasília. “Os residentes” retrata um grupo de pessoas que ocupam uma casa abandonada, à qual chegam novos outros novos moradores. No elenco, Melissa Dullius, Gustavo Jahn e Jeane Doucas.
 
Um total de R$ 555 mil em prêmios será dividido entre os vencedores, sendo R$ 220 mil para longas-metragens em 35mm; R$ 70 mil para curtas ou médias-metragens em 35mm e R$ 65 mil para os curtas em formato digital. O júri popular premiará dois títulos em 35mm, oferecendo R$ 30 mil para o melhor longa-metragem e R$ 20 mil ao melhor curta.
 
Além dos prêmios oficiais, outros são concedidos pela Câmara Legislativa do DF, que distribuirá R$ 150 mil para filmes produzidos em Brasília, e os prêmios de outros parceiros que ofertam serviços e/ou fazem aquisições de filmes, tais como Canal Brasil, TV Brasil, MegaColor, Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro, jornal Correio Braziliense, prêmio da Crítica e ABCV – Associação Brasiliense de Cinema e Vídeo.
 
Abaixo, a lista completa dos longas e curtas concorrentes:
 
 MOSTRA COMPETITIVA 35MM
Longas
1.      A Alegria, de Felipe Bragança e Marina Meliande (106min, RJ)
2.      Amor?, de João Jardim (100min, RJ)
3.      Os residentes, de Tiago Mata Machado (120min, MG)
4.      O Céu Sobre os Ombros, de Sérgio Borges (72min, MG)
5.      Transeunte, de Eryk Rocha (100min, RJ)
6.      Vigias, de Marcelo Lordello (70min, PE)
 
Curtas
1.      A Mula Teimosa e o Controle Remoto, de Hélio Villela Nunes (15min, SP)
2.      Acercadacana, de Felipe Peres Calheiros (19min58, PE)
3.      Angeli 24 horas, de Beth Formaggini (25min09, RJ)
4.      Braxília, de Danyella Neves e Silva Proença (16min,30, DF)
5.      Cachoeira, de Sergio José de Andrade (13min47, AM)
6.      Café Aurora, de Pablo Pólo (19min, PE)
7.      Contagem, de Gabriel Martins e Maurilio Martins (18min02, MG)
8.      Custo Zero, de Leonardo Pirovano (12min, RJ)
9.      Fábula das Três Avós, de Daniel Turini (17min, SP)
10. Falta de Ar, de Érico Monnerat (21min, DF)
11. Matinta, de Fernando Segtowick (20min, PA)
12. O Céu no Andar de Baixo, Leonardo Cata Preta (14min59, MG)
 
Mostra Competitiva Digital
Curtas / Médias digitais selecionados
1.      Com a Mosca Azul, de Cesar Netto (15min, SP)
2.      Dalva, de Filipie Wenceslau (15min20, BA)
3.      De bem com a vida - Carlos Elias e o Samba em Brasília, de Leandro Borges (20min, DF)
4.      Do Andar de Baixo, de Luisa Campos e Otavio Chamorro (13min, DF)
5.      Entrevãos, de Luísa Caetano (19min50, DF)
6.      Esta Pintura Dispensa Flores, de Luiz Carlos Lacerda (20min, RJ)
7.      Herói, de Thiago Ricarte (20min, SP)
8.      Lendo no escuro, de Marcelo Pedrazzi (16min, RJ)
9.      My Way, de Camilo Cavalcante (7min, PE)
10. Naquela Noite Ele Sonhou com Um Mar Azul, de Aristeu Araújo (20min, PR)
11. Negócios à Parte, de Juliana Botelho (15min, DF)
12. O Eixo, de Ricardo Movits (7min30, DF)
13. O Filho do Vizinho, de Alex Vidigal (6min09, DF)
14. O Gato na Caixa, de Cauê Brandão (19min59, DF)
15. O Silêncio do Mundo, de Bárbara Cariry (10min, CE)
16. Onde Você Vai?, de Victor Fisch (14min36, SP)
17. Queda, de Pablo Lobato (14min35, MG)
18. Queimado, de Igor Barradas (19min, RJ)
19. Só mais um filme de amor, de Aurélio Aragão (18min, RJ)
20. Tempo de Criança, de Wagner Novais (12min, RJ)
21. Traz Outro Amigo Também, de Frederico Cabral (15min, RS)
22. Últimos Dias, de Yves Moura (15min, RJ)

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