"O Céu sobre os Ombros" vence Festival de Brasília

Concorrentes mineiros abandonam roteiros em favor da imagem e da montagem

Neusa Barbosa

Concorrentes mineiros abandonam roteiros em favor da imagem e da montagem

Os dois filmes mineiros da seleção competitiva do 43º. Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, Os Residentes, de Tiago Mata Machado, e O Céu sobre os Ombros, de Sérgio Borges, traduziram, cada um a seu modo, algumas das vertentes de renovação procuradas nesta edição. Diferentes em quase tudo, os dois filmes compartilham pelo menos uma característica: partirem de um roteiro que é abandonado na filmagem e na montagem.

 
 O Céu sobre os Ombros elege três personagens reais e inusitados de Belo Horizonte para compor uma narrativa que mistura documentário e ficção. Eles são Murari Krishna, um operador de telemarketing, hare krishna e integrante da torcida organizada Galoucura (do Atlético Mineiro); um transexual, Everlyn Barbin, que se divide entre as atividades de professora universitária e prostituta; e o imigrante congolês Lwei Bakongo, que vive uma crise pessoal no enfrentamento de questões como depressão, desemprego e o cuidado de um filho com problemas mentais.
 
Integrante do grupo Teia – produtora mineira que reúne realizadores como Marília Rocha (Aboio, A Falta que me Faz), Helvécio Marins e Clarissa Campolina (do premiado curta Trecho) – Borges contou com a cooperação de dois integrantes de outro coletivo da produção audiovisual, o Alumbramento do Ceará, o diretor de fotografia Ivo Lopes Araújo e o montador Ricardo Pretti.
 
Indagado, no debate de seu filme, sobre quais seriam as cenas ficcionais e as documentais de O Céu sobre os Ombros – seu longa de estreia –, o diretor preferiu falar de sua posição sobre essa discussão sobre a fronteira entre os gêneros – que já esteve presente no Festival de Brasília 2008, vencido por FilmeFobia, de Kiko Goifman. “Considero essa discussão de certa maneira ultrapassada. Esse limite, na verdade, já nos é dado na existência, independentemente do cinema. A gente ficcionaliza nossa vida e depois materializa isso na realidade”, defendeu.
 
Ficou claro também que, ao não querer apontar o que era ou não ficcional, o diretor queria preservar não só o seu projeto, mas também os seus atores (todos amadores e vivendo situações próximas de suas vidas) – como quando recusou, delicadamente, comentar se era real ou induzida uma cena de sexo protagonizada por Everlyn.
 
Apesar de tudo, Borges afirmou que considera seu filme como ficção. “Procuramos entender onde os personagens poderiam estar e que artifícios poderiam potencializar as situações”. A discussão entre as fronteiras de gêneros cinematográficos, em todo caso, prosseguirão nos últimos dois concorrentes da competição principal: Amor?, de João Jardim, em que atores vivenciam histórias reais de outras pessoas, que será exibido nesta noite de domingo, e Vigias, de Marcelo Lordello, em torno de seguranças que trabalham no Recife, que encerra a seção competitiva, na segunda.
 
Recusa ao naturalismo
 
Filme que ofereceu o maior desafio à compreensão até agora no festival, a ficção Os Residentes, de Tiago Mata Machado, gira em torno de algumas pessoas que se isolam do resto da sociedade, aparentemente numa única casa, e se dedicam a jogos de poder entre si.
 
O diretor – e ex-crítico da “Folha de S. Paulo” – assumidamente procurou fugir ao naturalismo. “O que havia de narrativo estava no roteiro e isso foi ficando pelo caminho na montagem. Optei por me concentrar nos momentos fortes da estética, da criação. Não quero me submeter às patrulhas da verossimilhança”, declarou, no debate do filme.
 
Uma opção inventiva e mais acessível foi a dos diretores Reginaldo Gontijo e Luiz F. Suffiatti, do documentário O Mar de Mário – concorrente da Mostra Brasília, uma das seções paralelas do festival, depois de ser desclassificado da seção principal por ter rompido o ineditismo ao inscrever-se na Mostra Internacional de São Paulo.
 
O filme registra fragmentos de encontros mantidos entre os diretores e o lendário criador de Limite (1931) entre o final dos anos 1980 e 1992, ano da morte de Peixoto. Usando o vídeo como suporte e incluindo diversos efeitos visuais, O Mar de Mário constitui um documento de inegável valor para repensar a figura de Mário Peixoto. Como quando dedica um tempo considerável a uma sequência em que o cineasta, a pedidos, lê uma suposta crítica de Serguei Eisenstein (diretor de Encouraçado Potemkin) a Limite, que hoje se sabe ter sido escrita, na verdade, pelo próprio Peixoto.
 
No debate do filme, os diretores reconheceram que, na época, “não sabiam” do detalhe da autoria do texto. Até pensaram, segundo Suffiatti, em inserir agora neste filme a participação de pessoas comentando essa atitude de Peixoto, mas desistiram. “Achamos que isso era uma extensão da própria personalidade dele”, afirma Suffiatti.
 
Gontijo, por sua vez, contou que eles têm cerca de oito horas desse material bruto das conversas com o diretor de “Limite” e que desejam disponibilizá-las na íntegra, na ordem como foram gravadas, futuramente na internet.

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