Festival de teatro de Avignon

Em Avignon, um mergulho no teatro contemporâneo

Plínio Ribeiro Jr., de Avignon
Em Avignon, um mergulho no teatro contemporâneo
Enquanto o mundo cinematográfico europeu e mundial aguardam ansiosamente a 68ª edição do Festival de Veneza (veja a lista dos filmes selecionados), a França marca a entrada oficial nas férias de verão através do lançamento de filmes propícios à temporada, como Os Smurfs, Lanterna Verde, Capitão América, ou de alguns que fizeram parte da última safra de Cannes, como Melancolia, de Lars von Trier.
 
Este relativo parênteses na programação das salas de cinema francesas é uma excelente ocasião para um mergulho no mundo dos palcos, já que encerrou-se na semana passada o maior evento de teatro de França, o Festival de Avignon.
 
Completando sua 68ª edição neste ano, o festival fundado pelo ator Jean Vilar, em 1947, apresentou ao público mais de 30 espetáculos na sua programação oficial e 1.143 integrando a programação Off.
 
Avignon é uma cidade que fica à beira do Loire, mas já bem no Sul da França (na mesma região de Cannes). Transformada na capital do cristianismo em 1309, quando o Papa Clemente V transferiu-se para lá. A cidade conta com uma impressionante herança arquitetônica, a começar pelo Palácio dos Papas, sem falar nas muralhas medievais que ainda contornam toda a cidade, o que transforma as ruas no primeiro palco, fazendo com que se respire teatro por onde quer que se vá. Ginásios de escola, pequenos e grandes teatros, bares, igrejas, sem falar no próprio Palácio dos Papas, todos esses lugares transformam-se em palco ; afinal são mais de 26 mil representações ao longo de quatro semanas.
 
Para os leitores do Cineweb, fica aqui uma pincelada nesta verdadeira realidade paralela, com ênfase em projetos envolvendo atores/diretores já consagrados pelo cinema francês mundo afora :
 
Mademoiselle Julie – o diretor Frédéric Fisbach (diretor de A chuva das ameixas, presente na seção Venice Days, do festival de Veneza de 2007) adaptou a peça homônima, escrita pelo sueco August Strindberg, em 1888, tendo como trunfo a presença de Juliette Binoche, que encarna com maestria as nuances da personagem-título. Filha de um conde, Mademoiselle Julie vai, através da confrontação com os universos de dois dos empregados da casa, Jean e sua noiva Christine, deparar-se não apenas com os limites sociais de sua época, mas também com sua própria problemática. O diretor optou por não manter o texto no seu contexto clássico, mas contrapô-lo a uma montagem contemporânea, como forma de mostrar que os conflitos existenciais e sociais retratados atravessam os tempos sem perder sua pertinência
 
I am the wind - mais uma vez, o diretor Patrice Chéreau confirma seu grande talento como diretor teatral. Nesta segunda colaboração com o dramaturgo norueguês Jon Fosse, ele coloca em cena dois personagens que não possuem nem mesmo nome ; ou melhor, um deles chama-se Um enquanto o segundo é Outro, retratados por dois atores britânicos, Tom Brooke e Jack Laskey. Dois seres à deriva de si mesmos, divagando acerca da vida. Em um dado momento, um deles diz : ‘Quanto mais a gente fala, mais o que falamos desaparece’, o que mostra que, no texto de Jon Fosse, o essencial não é aquilo que é dito, mas o que habita as entrelinhas, a respiração dos personagens.
 
Le condamné à mort – em 2010, como parte das comemorações do centenário do nascimento de Jean Genet, o cantor Etienne Daho propôs à atriz Jeanne Moreau uma parceria a partir deste poema escrito por Genet em 1942. Verdadeira ode a um assassino de beleza única, Maurice Pilorge, guilhotinado em 1938, o poema resultou num CD onde a melodia de Etienne é intercalada pela voz de Jeanne de maneira ímpar. Os dois já haviam feito outras apresentações ao longo do ano, mas pode-se considerar a apresentação única feita em Avignon, no seu palco mais nobre – o Palácio dos Papas – como o apogeu deste projeto. O sagrado do cenário, aliado ao aspecto profano do texto, repleto de referências sexuais explícitas, magistralmente declamadas por Jeanne Moreau que, além de ter sido próxima a Genet – que gostava de tê-la por perto nas suas andanças noturnas por Paris, pois assim seria mais fácil se ver rodeado de belos rapazes – também esteve presente no primeiro Festival de Avignon.
 
Des femmes – o público brasileiro conheceu o dramaturgo líbanês-canadense Wajdi Mouwad pelo filme Incêndios, baseado numa peça escrita por ele. Decidido a lançar-se num projeto de grandes proporções – remontar todas as tragédias de Sófocles –, Wajdi organizou a obra de Sófocles través de um novo prisma, dividindo-a em três partes: Mulheres (As Traquínias, Antígona e Electra), Heróis (Ajax e Édipo Rei) e À beira da morte (Édipo em Colono e Filoctetes).
 
Wajdi trouxe a Avignon a primeira parte desta epopéia, Mulheres (Des Femmes), num cenário mais do que ideal, a pedreira de Boulbon, onde em 1985 Peter Brook encenou sua versão do Mahabharata. Sem contar que esta trilogia seria percorrida ao longo de uma noite em claro, ou seja, todos os ingredientes para que os espectadores vivessem uma experiência única, guiados por atores jovens mas em pleno domínio cênico.
 
Curioso pensar que o aspecto mais elogiado pela crítica foi o mais polêmico: para encenar o coro, presente em todas as tragédias de Sófocles, Wajdi decidiu usar rock, convidando o cantor Bertrand Cantat, condenado pela morte da atriz Marie Trintignant em 2003, crime pelo qual ele já cumpriu pena, para compor e interpretar a música. Em Avignon, Bertrand não esteve presente em cena, para evitar atritos com Jean-Louis Trintignant, pai de Marie e conhecido ator ediretor de cinema e teatro.
 
Quanto à extensiva programação OFF do festival, dois destaques : o primeiro à excepcional montagem da peça Bent, escrita no fim dos anos 1970 por Martin Sherman e transformada em filme pelo britânico Sean Mathias, em 1997, que retrata o destino dado a um casal de homossexuais perseguidos pelo regime nazista. A versão apresentada em Avignon foi concebida por Anne Barthel e recebeu elogios do próprio Martin Sherman. A pertinência do tema confirmou-se em Avignon, com vários incidentes onde o elenco deparou-se com a hostilidade de algumas pessoas nas ruas de Avignon, o que mostra que a intolerância atravessa fronteiras e, infelizmente, é inerente ao humano.
 
A seguir, a peça Mystère Pessoa, morte de um heterônimo, na qual o diretor Stanislas Grassian coloca Fernando Pessoa frente a frente com seus 3 heterônimos mais conhecidos: Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Alberto Caeiro, de maneira muito competente. Os quatro personagens interagem de maneira muito dinâmica e fiel à obra original. Sem contar a semelhança física do intérprete de Pessoa, o próprio diretor da peça.
 
Para saber mais :
 
Festival de Avignon

Programação Off
 


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