As muitas caras da juventude

Uma visão natural da adolescência

Alysson Oliveira
Uma visão natural da adolescência
Quando foi convidada pelos produtores Caio e Fabiano Gullane para dirigir uma adaptação da série de livros Mano, de Gilberto Dimenstein e Heloísa Prieto, a diretora Laís Bodanzky se perguntou: “Por que eu?”. Mas não demorou muito para entender a razão. “O projeto, na verdade, faz bastante sentido dentro dos filmes que tenho feito. Mas eu disse que só toparia se pudesse me apropriar do tema, fazer do meu jeito. Hoje, olhando para trás, nem parece que foi um convite”, lembra a diretor
 
Laís observa que o tema não é novidade em sua carreira. Afinal, seu longa de estreia, Bicho de sete cabeças (2001), trazia um jovem como protagonista e seu primeiro curta, Cartão Vermelho, tinha uma adolescente ao centro, além da peça Essa nossa juventude, que ela dirigiu em 2005.
 
Para fazer As melhores coisas do mundo, o resultado da adaptação de Mano, Laís e seu marido, o roteirista Luiz Bolognesi, realizaram uma série de conversas com alunos de colégios de ensino médio da cidade de São Paulo. “Foi quase o mesmo método que usei quando escrevi Terra Vermelha”, conta o roteirista. “Daquela vez, fui morar com os índios. Agora, me embrenhei no universo dos adolescentes”.
 
Nessa pesquisa, Laís e Bolognesi descobriram diversas coisas que os surpreenderam. “Essa geração gosta muito de Chico Buarque e dos Beatles. Achei estranho, até. Eles não ligam para Caetano ou Gil, mas amam o Chico”, conta Laís. O resultado é que tanto o músico brasileiro como a banda inglesa são citados no filme. Inclusive há uma versão de “Something”, cantada por um personagem. “Inicialmente seria ‘Blackbird’. Mas, por questões de direitos autorais, tivemos que mudar de música. Ouvindo-a agora no filme, ‘Something’ realmente faz mais sentido. A outra música seria sobre os jovens, um olhar externo, enquanto nessa são eles falando de si”, acentua Bolognesi.
 
O que mais chamou a atenção do casal foi um pedido feito pelos adolescentes com quem conversaram antes da preparação do roteiro. “Praticamente todo mundo pedia para não ser tratado de forma diferente. Há muito mais angústia do que diversão. E a maioria das pessoas tem uma visão errônea da adolescência”, explica Laís. “Eles sempre falaram que não gostariam de ver um filme com herois ou vilões, mas com seres humanos, cheios de nuances. Foi isso que tentamos levar para a tela”, conta a diretora.
 
Bolognesi diz ter percebido que os adolescentes de hoje enfrentam praticamente os mesmos dilemas existenciais que ele: “Eu tenho 44 anos e acho que, quando somos adolescentes, há uma mesma chave que bate em todo mundo, independente da época em que se vive”.
 
Elenco de estreantes
 
Para compor o elenco de As melhores coisas do mundo, Laís começou a procurar jovens quando ainda pesquisava o roteiro. Já nessa fase, conheceu Francisco Miguez, aluno de um colégio particular que participava dos debates e a encantou. “Ele é muito culto e sereno. Eu precisava de um parceiro de trabalho e vi que teria isso nele. Ele tem talento associado à personalidade”, elogia a diretora.
 
Já no processo de filmagem, Laís notou que “o adolescente tem a memória fresca da infância e brinca com a mais pura seriedade”. “Atuar nada mais é do que brincar com seriedade. Eu não podia perceber que eles estavam atuando no filme, eu queria algo muito orgânico, muito natural”.

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