"Parasita" faz história e vence como melhor filme e filme internacional


Um Oscar descolado da realidade, exceto por "Parasita"

Alysson Oliveira e Neusa Barbosa
O Oscar, cuja cerimônia será realizada no domingo, 9) é uma premiação estranha que cada ano reflete os protestos e pendências do anterior. Em 2016, fez furor a campanha Oscar So White, que questionava a ausência de minorias entre os indicados e indicadas. O resultado foram três anos de artistas e técnicos negros, negras, latinos e latinas, entre outros, lembrados nas principais categorias. Quando pareceu que isso havia criado uma nova normalidade, vieram as indicações de 2020, lembrando que a batalha pela diversidade ainda não está ganha.
 
Depois de colocar a mão na consciência, admitindo o quão datado e fora de sintonia com o mundo real o Oscar estava, tudo ali voltou ao seu “normal”: apenas homens indicados ao prêmio de direção, atores e atrizes (salvo uma solitária exceção) brancos e brancas. Afinal, diretoras, artistas e técnicos negros e negras não fazem bom cinema ou o Oscar se sente confortável em ignorar?
 
Na época do anúncio das indicações, no começo de janeiro, o escritor Stephen King escreveu um tuíte polêmico: “Nunca considero a diversidade em assuntos de arte. Apenas qualidade. A mim, parece que fazer o contrário seria errado.” Depois de uma série de críticas de famosos e desconhecidos, ele disse que não era bem isso, voltou atrás e, algumas semanas depois, escreveu um ensaio no jornal The Washington Post intitulado: “O Oscar ainda é armado para favorecer aos brancos”. Que mudança!
 
Na Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, no entanto, tudo ficou como estava, mandando a mensagem de que, para seus membros, apenas homens brancos dirigiram bons filmes, apenas homens e mulheres brancos e brancas fizeram boas atuações. O que qualquer pessoa menos ingênua sabe que não é real. Ótimos filmes foram dirigidos por mulheres – inclusive fora dos Estados Unidos –, excelentes interpretações foram feitas por negros e negras em todo o mundo. Mas as pessoas que votam no Oscar viram esses filmes? Como bem se sabe, todos os anos, um grupinho de longas forma uma espécie de irmandade que, com pequenas variações, frequenta todas as premiações – o que não quer dizer que sejam sempre os melhores, apenas que, por uma série de fatores, conseguiram “chegar lá” – seja o que for que isso signifique.
 
Ausências gritantes
As assim chamadas minorias – que, em muitos casos, são uma maioria, na verdade, mas historicamente invisibilizadas sob esse rótulo – poderiam com muitos méritos figurar entre os indicados e as indicadas. Greta Gerwig, diretora de Adoráveis Mulheres, por exemplo, merecia estar na categoria – possivelmente bem mais até do que quando foi indicada dois anos atrás por Lady Bird. Apenas a atriz afroamericana Cynthia Erivo foi indicada por Harriet, drama no qual interpreta a ex-escrava e abolicionista Harriet Tubman. Onde está Eddie Murphy, por Meu Nome é Dolemite? Ou Jennifer Lopez, por As Golpistas? Onde estão, também, a atriz Lupita Nyong’o e o diretor Jordan Peele, que mereciam ter sido lembrados pelo impactante Nós ?
 
Fica mais claro ainda que a controversa premiação em 2019 de Green Book – O Guia como melhor filme, foi um pouco desproporcional para as qualidades do filme, se o comparamos, por exemplo, com Infiltrado na Klan, Roma e Pantera Negra – todos tendo ao centro minorias, tal qual o longa premiado com a láurea máxima. Mas há uma diferença entre eles: esses três últimos são questionadores, encaram racismo e outras questões de frente, não confortam, pelo contrário. Enquanto isso, Green Book trata do racismo de maneira superficial, apaziguante. Nada contra o comfort cinema, mas cinematograficamente, o longa de Peter Farrelly (que, como diretor, nem indicado foi) é bastante mais esquemático.
 
Por outro lado, é bem verdade que em 2020 não há nenhum filme constrangedor entre os finalistas, assim como é evidente que a turma do Oscar resiste a encarar a realidade e a política de frente. Até os filmes em que o tema é tratado abertamente, a maneira como é abordado, em geral, é atenuada ou superficial. 1917 não está interessado nas implicações políticas de uma guerra, mas no conflito como um pretexto para um feito técnico – o plano-sequência. Com Jojo Rabbit, a questão é ainda mais complexa: uma comédia situada os últimos dias da Alemanha nazista, que transforma Hitler no amigo imaginário do personagem-título. O filme até flerta com a política, mas, novamente, a dinâmica está em outro lugar.
 
O caso mais equivocado, no entanto, é o superestimado Coringa, que começou sua carreira de prêmios exagerados quando levou o Leão de Ouro, no Festival de Veneza, em setembro 2019, concedido por um júri presidido pela argentina Lucrecia Martel. Política no filme de Todd Philips (outra indicação duvidosa) é uma questão distorcida do começo ao fim, tomando protestos vazios como um movimento de rebeldia. Apenas a atuação de Joaquin Phoenix pode, sim, ser considerada muito acima da média.
 
Doses de realidade
 
Por outro lado, coube ao sul-coreano Parasita, premiado com a Palma de Ouro em Cannes 2019, o papel de olhar o presente de frente, investigando os principais sintomas das mazelas do mundo contemporâneo. Não é um trabalho fácil, mas o diretor Bong Joon-ho faz isso como ninguém. Por isso, o longa é um respiro de criatividade e um bem-vindo incômodo, numa lista de indicados que não saem da zona de conforto.
 
Entre os documentários, a questão é ligeiramente diferente. O brasileiro Democracia em Vertigem, de Petra Costa, coloca a política ao centro, acompanhando o processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, em 2016, ainda que sob um prisma que tem muito de pessoal, da diretora. Os demais finalistas na categoria – Indústria Americana, Para Sama, Honeyland (premiado na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo), e The Cave –, curiosamente, também se interessam por investigar como as questões do presente, como modernização e conflitos armados, se materializam na esfera do pessoal.
 
A partir deste quadro conservador – na Academia e fora dela -, espera-se que surja uma nova onda de manifestações em favor da diversidade. E que o Oscar 2021 seja bem mais representativo do melhor cinema feito em todos os cantos do mundo.  

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