Festa sem surpresas consagra "A forma da água"

Os bastidores de um clube de amigos

Alysson Oliveira
“Sinceramente, minha cara, eu não dou a mínima”
Rhett Butler num raro momento de lucidez dando à Scarlett o maior fora da história do cinema, em ... E o vento levou
 
Quem quiser conhecer a história do Oscar, basta dar uma olhada no site oficial do evento, onde é possível encontrar não apenas o histórico das premiações, indicados e também o nome de todos os membros da Academia. Mas essa bela versão oficial acaba encobrindo o que há de mais divertido na premiação – as politicagens dos bastidores. As melhores histórias, sem dúvida não estão lá.
O cinema ia muito bem no final dos anos de 1920, afinal era uma das poucas diversões para o público – a televisão nem havia sido inventada – quando Louis B. Mayer, presidente da MGM, se reuniu com um grupo de profissionais da indústria e, no meio de um jantar, resolveram fundar o que chamaram de International Academy of Motion Picture Arts and Sciences – a palavra “Internacional” logo foi tirada do nome, pois eles queriam mesmo era criar um clubinho próprio sem a intromissão de nenhum estrangeiro chato.
 
“Vou fazer uma proposta que você não pode recusar...”,
Don Corleone e seu método bastante persuasivo de convencer as pessoas
a fazerem o que ele quer, em O Poderoso chefão
 
Em 1929, esse grupo de pessoas, que contava com profissionais de diversas áreas da indústria cinematográfica, resolveu que estava na hora de honrar com prêmios os melhores filmes e profissionais do ano. Não espere que a primeira premiação tenha sido um primor de justiça. Foi mesmo um jogo de cartas marcadas – hoje, pelo menos, há uma votação secreta. Naquela época, os vencedores das 12 categorias foram escolhidos pelos próprios chefões dos estúdios – ou seja, quem produzia e lucrava com os filmes. Não houve suspense na abertura de envelopes, ou o glamour dos holofotes do tapete vermelho com fãs histéricos. Foi tudo muito discreto, e rendeu estatuetas ao filme Asas, aos atores Emil Jannings e Janet Gaynor, entre outros.
 
Foi tão sem graça essa primeira premiação que, no ano seguinte, os mesmos chefões resolveram manter o mistério e anunciar os vencedores apenas na cerimônia. Os jornais recebiam a lista dos ganhadores antecipadamente, mas havia um acordo para que a publicação fosse feita depois das 23 horas. Talvez em 1940, o dia da festa estivesse fraco de notícias e por isso o editor do jornal Los Angeles Times tenha decidido quebrar o embargo e publicar a lista na edição da tarde. O mal-estar foi tão grande que, a partir do ano seguinte, o segredo só foi revelado na noite da premiação.  
 
De qualquer forma, o Oscar ganhou o gosto do americano médio e foi se tornando importante. Mas só ganhou peso mesmo em 1953, quando foi televisionado pela primeira vez nos EUA e Canadá. Em 1966, foi feita a primeira exibição em cores e, três anos depois, para o resto do mundo – como é até hoje, chegando a cerca de 200 países.
 
“Vocês não podem brigar aqui. Esse é o Salão de Guerra”,
uma alma sensata botando ordem na bagunça, em Dr. Fantástico
 
Para evitar discussões intermináveis – afinal todo mundo queria defender os seus filmes ou seus interesses muito explicitamente –, os organizadores resolveram fazer uma votação secreta. Num primeiro momento, os votantes escolheram os melhores de suas mesmas profissões, ou seja, atores escolheram atores; diretores, diretores, e todo mundo escolheu os cinco melhores filmes do ano. Depois todos votaram em todas as categorias, exceto algumas mais específicas, como documentário, curta-metragem e filme estrangeiro.
 
A edição de 2010 introduziu outra mudança drástica. Em vez de apenas cinco longas concorrendo ao prêmio de melhor filme, decidiu-se que o dobro, ou seja, 10 produções indicadas na categoria. De lá para cá, esse número caiu - em 2015, são apenas 8. Essa mudança, em todo caso, é o reflexo da queda anual de audiência da cerimônia. Aumentando-se o número de indicados, aumenta-se a chance de filmes mais populares ficarem entre os finalistas – o que aconteceu este ano com Um sonho possível, sucesso de bilheteria, massacrado pela crítica. Em 2009, a ausência de Batman – O cavaleiro das trevas no top 5 frustrou muita gente que resolveu deixar o televisor desligado na noite da premiação.
 
“Você está falando comigo?”,
pergunta capciosa de taxista atormentado, em Taxi driver
 
Como nada no Oscar é por acaso, visando aumentar o interesse, a audiência e a publicidade fora dos Estados Unidos, em 1948 a Academia criou a categoria melhor filme estrangeiro. O primeiro vencedor foi o italiano Vítimas das Tormentas, de Vittorio de Sica. Desde então, cineastas de peso do cinema mundial tiveram sua obra reconhecida, como Federico Fellini (A Estrada da Vida, Noites de Cabíria, 8 1/2), Vittorio De Sica (Ladrões de Bicicleta), Luis Buñuel (O Discreto Charme da Burguesia), Ingman Bergman (A Fonte da Donzela, Através de um Espelho, Fanny & Alexandre), Pedro Almodóvar (Tudo sobre Minha Mãe), e François Truffaut (A Noite Americana).
 
O Brasil nunca venceu prêmio nessa categoria, embora tenha concorrido quatro vezes, com O Pagador de Promessas (1962), que havia obtido a Palma de Ouro em Cannes, no ano anterior; O Quatrilho (1995), O que é isso companheiro? (1997) e Central do Brasil (1999), que rendeu a Fernanda Montenegro uma indicação na categoria melhor atriz. O filme perdeu para o italiano A vida é bela, de Roberto Benigni, e a atriz para Gwyneth Paltrow, de Shakespeare Apaixonado.

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