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Mulheres no Oscar: Kathryn Bigelow venceu o Clube do Bolinha

Neusa Barbosa
Mulheres no Oscar: Kathryn Bigelow venceu o Clube do Bolinha
Em 2010, a diretora Kathryn Bigelow (foto) quebrou um tabu em Hollywood: foi a primeira mulher a conquistar o Oscar de sua categoria, entrando para um clube que era exclusivamente masculino, com seu filme Guerra ao Terror. Bons precedentes a acompanharam: ela foi também a primeira mulher a vencer o prêmio do Sindicato dos Diretores da América (DGA) em seus então 63 anos de existência. Aliás, também levou o troféu do Sindicato dos Produtores (PGA) – já que ela é uma das produtoras do filme. La Bigelow conseguiu finalmente romper este reduto do Clube do Bolinha também no Oscar. Já era mais do que tempo.
 
Nestes 90 anos da premiação, não vem sendo fácil para as mulheres conquistarem seu lugar na Academia de Ciências e Artes Cinematográficas. Até 1984, o setor de Diretores não tinha mais do que duas mulheres. Talvez por isso o número de diretoras indicadas ao Oscar seja tão reduzido - só cinco conseguiram até hoje (nos filmes de ficção). Antes de Kathryn Bigelow, em 2010, foram a italiana Lina Wertmüller (Pasqualino Sete Belezas, em 1977), a neozelandesa Jane Campion (O Piano, em 1994), Sofia Coppola, a primeira norte-americana, por Encontros e Desencontros (em 2004) e Greta Gerwig, por Lady Bird - A Hora de Voar.
 
Curiosamente, as três primeiras, assim como La Gerwig agora, foram indicadas também na categoria Melhor Roteiro Original pelos mesmos filmes, sendo que Campion levou essa estatueta. Roteiro, aliás, também é um território bem masculino: 94% dos prêmios da categoria ficaram com os homens. Foram mesmo poucas mulheres indicadas e pouquíssimas ganhadoras, como a estreante Callie Khouri, por Thelma e Louise, em 1992, e Diablo Cody, por Juno, em 2008.
 
A partir dos anos 1970, muitas atrizes já em dificuldades para conseguir bons papeis – não raro, pelo preconceito contra as mulheres mais maduras em Hollywood –  enveredaram por outros campos, produzindo, dirigindo, escrevendo filmes, numa tentativa saudável de melhorar sua participação na indústria cinematográfica. Uma das mais persistentes foi Barbra Streisand, que sempre se lançou adiante, mas acabou esnobada como produtora/diretora. Isso aconteceu com o drama O Príncipe das Marés (1992), na época considerado pelos críticos americanos como uma barbada para a indicação de Streisand para Melhor Direção. Não foi.
 
MÚSICA
Em 1997, a Academia dividiu o prêmio de melhor Trilha Sonora Original em duas subcategorias. Assim, a inglesa Rachel Portman levou o troféu de melhor trilha para comédia ou musical por seu trabalho em Emma (sua terceira indicação, depois de Regras da Vida, em 1999, e Chocolate em 2000), derrotando um dos grandes campeões neste setor, Alan Menken (A Pequena Sereia, A Bela e a Fera, Alladin, Pocahontas).
 
OSCAR TÉCNICOS E HONORÁRIOS
Nas categorias técnicas, a premiação feminina é igualmente mínima. Em Maquiagem, 85% dos prêmios foram para os homens. O reconhecimento pode vir apenas com um Oscar Honorário, como no caso da montadora Margaret Booth, que participou da montagem de Ben-Hur (1959, não creditada) e do clássico O Grande Motim (1936), com Clark Gable e Charles Laughton. Melhor sorte teve a montadora Thelma Schoonmaker, a inseparável parceira do diretor Martin Scorsese, que já tem três estatuetas da modalidade: em 1980 (Touro Indomável), O Aviador (2004) e Os Infiltrados (2008).
 
Na Fotografia, no entanto, só agora, em 2018, Rachel Morrison tornou-se a primeira mulher em toda a história da premiação a concorrer a um Oscar nesta categoria, pelo drama Mudbound - Lágrimas sobre o Mississippi.
 
Até a premiação de Jessica Tandy, melhor Atriz por Conduzindo Miss Daisy, em 1990, ficou parecendo um Oscar Honorário, uma fórmula segundo a qual a Academia vez por outra tenta apagar seus erros (a bem da verdade, não só em relação às mulheres). Jessica teve sua participação no filme Um Bonde Chamado Desejo (1951) barrada em favor de Vivien Leigh, mais conhecida do público de cinema. Desde essa época, a atriz dedicou-se mais ao teatro, onde construiu uma sólida carreira, e só teve este primeiro grande papel no cinema aos 80 anos, em compensação batendo um recorde: foi a pessoa mais idosa até hoje a ganhar um Oscar.
 
Até nos prêmios especiais, as mulheres são minoria. O Prêmio Humanitário Jean Hersholt, instituído em 1956 para aqueles que se dedicam a obras filantrópicas, por exemplo, foi concedido a apenas quatro atrizes: Martha Raye (1968), Rosalind Russell (1972) e Elizabeth Taylor que, em 1993, dividiu o prêmio com Audrey Hepburn (em homenagem póstuma).
 
FIGURINOS E APRESENTADORES
O domínio masculino se faz sentir até na apresentação da festa de premiação. Durante longos 66 anos, a festa foi ancorada por apresentadores quase vitalícios, como Bob Hope (que comandou a festa nada mais, nada menos, que 22 vezes). Em compensação, em 1994, a Academia radicalizou: Woopi Goldberg tornou-se a primeira mulher, e negra, a liderar o show. Em 2007 e 2014, a comediante Ellen DeGeneres repetiu a dose, mas o império masculino retornou logo depois. Em 2018, como em 2017, o mestre de cerimônias será o comediante Jimmy Kimmel.
 
Uma das raras exceções neste quadro, o prêmio para Melhor Figurino sempre foi totalmente dominado por mulheres - Edith Head, a poderosa chefe de figurino da Paramount, foi indicada 35 vezes e levou 8 estatuetas. Mas, como denunciou Audrey Hepburn, não sem cometer alguns delitos. Como diretora da Paramount, Edith exigia que lhe fosse dado o crédito em todos os filmes produzidos pelo estúdio - como no caso de Sabrina (1954), que teve muitos dos modelos usados por Audrey feitos por Hubert de Givenchy, que não levou a fama. Shame on you, Edith!
 
Outra campeã nesta área, embora menos do que Edith, é a italiana Milena Canonero, que faturou três de suas oito indicações – em 2006, por Maria Antonieta, em 1981, por Carruagens de Fogo, e em 1975, por Barry Lyndon.

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