Festa sem surpresas consagra "A forma da água"

OSCAR 2018 - A hora e a vez das mulheres?

Neusa Barbosa e Alysson Oliveira
 A ausência de diversidade sempre foi um dos problemas do Oscar. Dois anos atrás, a campanha So White questionava a ausência de atores e atrizes negros entre os finalistas. No ano passado, reflexo de uma campanha ou não, artistas afrodescendentes e filmes com a questão racial ao centro tiveram destaque. Não que tenha sido um favor – pelo contrário, foram indicações e prêmios merecidos, mas que talvez não tivessem ocorrido não houvesse antes uma campanha chamando a atenção para o problema.
 
A cerimônia do Oscar de 2018 acontece sob o efeito das diversas acusações de assédio contra mulheres que vieram à tona em Hollywood nos últimos meses – especialmente envolvendo o ex-poderoso produtor e distribuidor Harvey Weinstein, cujas agressivas campanhas pelos seus filmes na época das premiações eram bastante conhecidas, muitas rendendo frutos, como Shakespeare Apaixonado (que ele também produziu), e O artista, O discurso do rei, Chicago, O paciente inglês (distribuídos por ele). Em outubro passado, devido ao peso das acusações, Weinstein foi expulso da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.
 
Até para não ser ofuscada pelo ativismo que ocorreu no Globo de Ouro e no Bafta, a cerimônia de premiação deste ano terá que marcar território ao colocar em proeminência mulheres em diversas atividades em Hollywood. O maior feito de todos é da diretora de fotografia Rachel Morrison, que se tornou a primeira mulher a concorrer na categoria – por Mudbound: Lágrimas sobre o Mississippi. Outro feito histórico: Greta Gerwig se torna a quinta cineasta indicada ao Oscar de melhor direção, por seu modesto e intimista Lady Bird – Hora de Voar, numa categoria em que lhe faria boa companhia outra diretora, Dee Rees, do citado e forte Mudbound.
 
 É bem provável que esta será a edição do Oscar que exaltará o empoderamento feminino – e já estava mais do que na hora. Um dos principais concorrentes, Três anúncios de um crime (foto ao lado), tem como protagonista uma grande personagem feminina, uma mãe em busca de justiça pelo assassinato da filha, interpretada por Frances McDormand, que tudo indica que levará sua segunda estatueta (a primeira foi por Fargo, em 1997), depois de ter vencido o prêmio do Sindicato dos Atores da América (SAG). O longa, que disputa em 7 categorias, deve levar o prêmio de roteiro original, assinado pelo seu diretor, o também dramaturgo Martin McDonagh, que injustamente foi deixado de fora na categoria direção.
 
 O principal adversário do filme é a fantasia A forma da água (foto ao lado), do mexicano Guillermo del Toro, outro filme protagonizado por uma personagem feminina – interpretada por Sally Hawkins –, com uma trama centrada num questionamento sobre preconceito contra minorias. Não apenas há entre seus personagens uma criatura marinha (Doug Jones), como também uma afroamericana e um gay (interpretados por Octavia Spencer e Richard Jenkins, respectivamente, ambos concorrendo como coadjuvantes). Este é um longa sobre solidariedade e laços humanos e que deve falar ao coração dos votantes de inclinações mais libertárias. O filme concorre em 13 categorias e já ganhou o Globo de Ouro de diretor e trilha sonora (Alexandre Desplat), além do prêmio principal do Sindicato dos Produtores da América (PGA) – este sim um sinal fortíssimo de Oscar de melhor filme vindo em sua direção.
 
Signo progressista
 
Outro filme que vai ao encontro das expectativas mais progressistas do presente é Corra!, o terror sobre a questão racial que começou a chamar a atenção no Festival de Sundance 2017. Escrito e dirigido pelo estreante Jordan Peele, indicado ao Oscar (e apenas o quinto afro-americano lembrado nesta categoria), o longa investiga de maneira sagaz, com cinismo e ironia, a posição do negro na sociedade americana contemporânea. Dos nove finalistas a melhor filme, talvez este seja o mais incisivo no seu retrato dos EUA de Trump.
 
Lady Bird – Hora de voar, Dunkirk, Me chame pelo seu nome, The Post: A Guerra Secreta e O Destino de uma nação são finalistas que parecem ter mais chances em outras categorias do que na principal. Lady Bird pode render a Greta Gerwig o prêmio de roteiro original (se ela bater Peele e McDonagh), Me Chame... pode ganhar roteiro adaptado (assinado pelo veterano diretor inglês James Ivory), Dunkirk, estatuetas em categorias técnicas, e O destino... pode garantir o primeiro Oscar a Gary Oldman, no papel do primeiro-ministro britânico Winston Churchill. Já se The Post der o Oscar de coadjuvante para Meryl Streep (21 vezes indicada), será a maior surpresa da noite, porque a franca favorita é mesmo Allison Janney, a mãe tirana de Eu, Tonya, que está enfileirando premiações, como Globo de Ouro, Bafta e Sindicato dos Atores da América.
 
Por fim, há Trama Fantasma, o azarão do ano, praticamente ignorado no Globo de Ouro, mas que se destacou com 6 indicações no Oscar, entre elas melhor filme, ator (Daniel Day-Lewis, que prometeu ser esta sua despedida do cinema) e diretor, para Paul Thomas Anderson. Nenhuma surpresa, porém, que o oitavo longa do cineasta alcance tamanho nível de excelência cinematográfica, já que Anderson é, possivelmente, o maior diretor em atividade nos EUA atualmente. Seu apuro de realização traduz o que o cinema, enquanto arte, tem a oferecer de melhor – contrastando, no plano artístico, com o momento obscuro da história de seu país.
 
Quinteto estrangeiro
Uma novidade desta edição é que os cinco concorrentes à estatueta de melhor filme estrangeiro são todos de bastante qualidade, circularam nos principais festivais internacionais, como Cannes, Veneza e Berlim, e foram lançados em salas no Brasil. São eles: The Square – a arte da discórdia, de Ruben Ostlund(Suécia), Corpo e Alma, da diretora Ildikó Enyedi (Hungria), Sem amor, de Andrei Zviagintsev (Rússia), O insulto, de Ziad Doueiri (primeira indicação do Líbano na modalidade) e Uma mulher fantástica, de Sebastián Lelio (segunda indicação do Chile, único latino-americano na disputa).

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