OSCAR 2017 - uma noite de diversidade, trapalhada e provocações

Uma noite de diversidade, trapalhada e provocações

Neusa Barbosa
 Verdade que foi o mico dos 89 anos da história do Oscar a entrega errada do prêmio de melhor filme a La La Land. Mas seria uma grosseira injustiça lembrar a cerimônia de 2017 somente por isso.
 
Bem mais importante foi o prêmio de melhor filme dado a Moonlight: Sob a Luz do Luar, que venceu também o de melhor ator coadjuvante para um Mahershala Ali (foto ao lado) que fica pouco tempo na tela mas a incendeia em cada segundo; e o de roteiro adaptado, pelo diretor Barry Jenkins, um primor de sutileza na composição da trajetória de Chiron, um garoto negro crescendo contra tudo e contra todos na periferia perigosa de Miami.
 
 Sutileza, aliás, foi uma das palavras-chave em vários filmes indicados e vencedores do Oscar este ano – caso do drama Manchester à beira-mar, de Kenneth Lonergan. Vencedor de dois Oscar – melhor ator para a quase unanimidade Casey Affleck (foto ao lado) e roteiro original -, o filme desdobra um calvário emocional para seu protagonista (Affleck) mas no sentido da implosão, não do derramamento que é o clichê maior de Hollywood. Aqui o único excesso é de dor e o filme tem a coragem de apontar que algumas delas são simplesmente irredimíveis.
 
 Maior vencedor em termos numéricos, com seis estatuetas, o musical La La Land: Cantando Estações consagrou o jovem Damien Chazelle, mais jovem vencedor do prêmio de melhor diretor da história do Oscar com seus 32 anos que parecem 22. Não foi pouca coisa, com essa pouca idade e bagagem (este é apenas seu terceiro filme) Chazelle ter resgatado o bom e velho gênero musical, com essa qualidade de produção e homenagem aos bastidores da arte – é nesse sentido que o filme é mais envolvente e simbólico. Por isso, foram merecidas suas estatuetas de desenho de produção, fotografia, trilha musical, canção (City of Stars). A de melhor atriz para Emma Stone (foto ao lado), no entanto, deixa dúvidas, em confronto com o trabalho espetacular de Natalie Portman em Jackie. E da descarada ausência de Amy Adams das indicações, num ano em que ela brilhou tanto em A Chegada quanto em Animais Noturnos – outros filmes injustamente esnobados em indicações e premiações (A Chegada só ficou mesmo com edição de som).
 
 Nenhuma dúvida, no entanto, cerca a premiação de Viola Davis (foto ao lado) como coadjuvante em Um Limite Entre Nós (em lançamento no Brasil agora em 2 de março). A performance da atriz neste papel que ela viveu também no teatro, ao lado de Denzel Washington – com quem divide a cena aqui também -, é uma dessas coisas iluminadas e fulgurantes, carregadas da humanidade de gente comum. Não tinha para ninguém aqui.
 
A premiação do drama de guerra Até o último homem, de Mel Gibson, com dois Oscar, montagem e mixagem de som, resolveu uma injustiça, neste último caso, ao premiar, finalmente, o mixador Kevin O’Connell em sua 21ª. indicação. Num dos discursos mais emocionados da noite, ele lembrou de sua mãe, Skippy, que lhe arranjou o primeiro emprego na área e cujo único pedido de agradecimento fora que ganhasse um Oscar e lhe dedicasse, o que ele fez ontem à noite; ela, no entanto, não está mais viva para ouvir.
 
Notas políticas
Manifestações políticas, como se esperava, não faltaram, numa afirmação de que os artistas dos EUA estão dispostos a ocupar todas as tribunas para resistir ao obscurantismo do novo presidente, Donald Trump. A noite começou com ironias do novo apresentador, o comediante Jimmy Kimmel, que não foi especialmente marcante nem brilhante, mas teve boas tiradas, como lembrar que a cerimônia estava sendo “assistida por espectadores de 225 países que agora nos odeiam”. Isto em referência às sucessivas pataquadas de Trump em seus menos de dois meses no cargo, como sua tentativa desastrada de impedir cidadãos de sete países muçulmanos de entrarem nos EUA.
 
Do cidadão de um desses países, o Irã, o cineasta Asghar Farhadi – que venceu o Oscar de melhor filme estrangeiro pela segunda vez, com o drama O Apartamento – veio uma nota de protesto das mais veementes, lida por seus dois representantes (o diretor recusou-se a vir). Nela, Farhadi dizia: “Lamento não estar com vocês esta noite. Minha ausência deve-se ao respeito pelas pessoas do meu país e das outras seis nações que foram desrespeitadas por essa lei desumana que barra a entrada de imigrantes nos EUA. Dividir o mundo entre categorias como ‘nós’ e ‘nossos inimigos’ cria apenas medo e justificativas equivocadas para agressões e guerras. Estas guerras impedem a democracia e os direitos humanos em países que foram eles mesmos vítimas de agressão. Os cineastas podem voltar suas câmeras para captar qualidades humanas compartilhadas e romper estereótipos de várias nacionalidades e religiões. Eles criam empatia entre nós e os outros – uma empatia de que hoje precisamos mais do que nunca”.
 
Mesmo artistas que foram apenas entregar prêmios não perderam a chance de manifestar-se, caso do ator mexicano Gael García Bernal. Antes de entregar o prêmio de melhor animação (a Zootopia, uma fantasia que também se refere a preconceito e segregação), Bernal afirmou: “Como mexicano, como latino-americano, como trabalhador migrante, como ser humano, sou contra qualquer forma de muro para separar-nos”. Muito aplaudido, o ator referia-se à intenção de Trump de erguer um muro ao longo de toda a fronteira com o México.

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