Mostra Billy Wilder no CineSesc


Billy Wilder, o grande contador de histórias

Nayara Reynaud
“Eu gosto de contar histórias”. Foi assim que o diretor, roteirista e produtor austríaco Billy Wilder justificou porque trabalhava no cinema. Por isso, quem gosta de assistir boas histórias não pode perder a mostra que o CineSesc promove, entre os dias 21 de junho e 4 de julho, com toda a filmografia do cineasta.
 
Porém, quem é ou vai virar fã de Billy Wilder depois de assistir aos 26 longas dessa mostra tem que agradecer a um certo oficial de imigração por tê-lo deixado entrar nos Estados Unidos. Depois de ser barrado diversas vezes, o cineasta disse qual era a sua profissão ao novo agente que chegava ao posto, que rapidamente liberou seus papéis e lhe disse “Faça bons [filmes], então”.
 
Ninguém pode dizer que ele não ouviu o conselho, pois Wilder foi o responsável por vários clássicos do cinema: Farrapo Humano (1945), com seu drama sobre o alcoolismo; Crepúsculo dos Deuses (1950), que revela as agruras dos bastidores de Hollywood; as comédias rasgadas O Pecado Mora Ao Lado (1955) e Quanto Mais Quente Melhor (1959); e aquelas românticas, com toques de ironia, Sabrina (1954) e Se Meu Apartamento Falasse (1960). Aliás, as screwball comedies, as comédias malucas, foram um dos gêneros mais trabalhados por ele – como no roteiro de Ninotchka (1939), de Ernst Lubitsch –, junto ao filme noir – seu primeiro sucesso como diretor foi em um longa do gênero, Pacto de Sangue (1944).
 
E se tem uma coisa que também não falta na própria vida do cineasta são os toques românticos e dramáticos. Ele teve dois filhos com sua primeira esposa, Judith Coppicus, em 1939: os gêmeos Victoria e Vincent, mas o menino morreu logo depois do nascimento. Dez anos depois, se casaria com a atriz Audrey Young, que conheceu durante seu processo de divórcio, no set de Farrapo Humano, que o acompanharia até a sua morte.
 
Uma boa história, não é? Era justamente isso que mais o interessava como cineasta. Talvez por ter começado a carreira no cinema como roteirista, se importava tanto com os diálogos. Teve como principais parceiros nessa tarefa os colaboradores Charles Brackett, que nos seus primeiros roteiros se contrapunha argumentativamente ao seu ponto de vista, e I.A.L. Diamond, que compartilhava a mesma visão cínica e cômica que ele tinha da vida. Como diretor, priorizava tanto o texto que usava frequentemente a narração em seus filmes.
 
E um bom narrador não deixaria de dizer o porquê deste imigrante ter ido viver e trabalhar nos Estados Unidos: nascido como Samuel Wilder no dia 22 de junho de 1906, em uma família judia de Sucha Beskidzka, então no Império Austro-Húngaro, atualmente na Polônia. Depois de viver um tempo em Viena, decidiu ir para Berlim. Porém, após a ascensão de Adolf Hitler ao poder e, consequentemente, o crescimento da ideologia nazista, se viu obrigado a sair da cidade alemã. Foi, então, para Paris e, logo em seguida, viajou para os EUA, país cuja cultura sua mãe tanto adorava e que deu ao filho o apelido de “Billie”. Chegando em território norte-americano, seu nome se tornou Billy e ele teve de se virar rápido para aprender a falar inglês.
 
Entretanto, apesar de fugir, a perseguição nazista alcançou a sua família. Sua mãe e seu padrasto foram assassinados nos campos de concentração de Plaszow e Belzec, respectivamente, e sua avó morreu no gueto de Nowy Targ. O tema lhe era tão próximo, que Wilder foi convidado pelo Departamento de Guerra dos EUA a realizar o documentário Death Mills (1945) – o único trabalho dele como diretor que não está na mostra. O curta foi encomendado para ser uma propaganda norte-americana com o objetivo de conscientizar as audiências alemãs das atrocidades do nazismo. Além disso, o cineasta chegou a ser cotado para assumir a direção de A Lista de Schindler (1993), mas, como já tinha se aposentado e acreditava que o assunto era muito pessoal, declinou da oferta e apenas ofereceu ajuda à produção de Steven Spielberg.
 
Seu primeiro emprego foi como jornalista, em Viena. Seguiu com a profissão em Berlim, onde alternava a função nos jornais locais enquanto dava os primeiros passos como roteirista. Essa experiência jornalística fez a diferença em A Primeira Página (1974) e no cult A Montanha dos Sete Abutres (1951), um dos primeiros filmes a abordar a questão do jornalismo sensacionalista.
 
Outra curiosidade sobre o cineasta é que ele era um ávido colecionador de vários tipos de objetos, sem contar os inúmeros prêmios que conquistava. Billy Wilder é um dos poucos diretores que ganhou a trinca melhor filme/melhor direção/melhor roteiro (original e adaptado) da Academia, com Se Meu Apartamento Falasse. Além desses, ele recebeu mais três Oscar: como diretor de Farrapo Humano, roteirista de Crepúsculo dos Deuses e o honorário pelo conjunto da obra, em 1988 – sem falar nos Globos de Ouro e nas premiações das categorias, os roteiristas do Writers Guild of America e os diretores do Directors Guild of America.
 
Outro artigo de sua coleção dele é o conjunto de estrelas que dirigiu: de Gary Cooper e William Holden até Jack Lemmon e Walter Matthau, de Audrey Hepburn a Shirley MacLaine, passando por Marilyn Monroe, atriz que lhe deu muito trabalho, mas que trouxe grande retorno aos seus filmes, como Quanto Mais Quente Melhor. Este, inclusive, tinha uma fala muito famosa a qual o jornal francês Le Monde adaptou, como seu epitácio, em 27 de março de 2002, dia de sua morte em Los Angeles, por pneumonia: “Billy Wilder morreu. Ninguém é perfeito”.

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