Entrevistas

Resgate de uma história de violência inspira “Sete anos em maio”

Por Alysson Oliveira

Publicado em 16/05/20 às 11h18

 Cena do premiado media "Sete anos em maio" (Crédito: Divulgação)

Affonso Uchôa faz um cinema interessado em questões sociais. Foi assim com os premiados longas Arábia e A Vizinhança do Tigre, e agora também com o média Sete anos em maio. O protagonista do documentário é Rafael dos Santos, um jovem de Contagem (MG), que numa noite, ao chegar em casa, foi abordado por policiais e sua vida nunca mais foi a mesma, depois de sofrer tortura, ameaças e viciar-se em drogas. O diretor o conheceu por meio de amigos em comum, e conta que sabia da história do rapaz por cima - “era quase uma lenda urbana” - mas se chocou quando descobriu toda a verdade.
 
“Eu o conheci em 2007, muito antes de tudo o que aconteceu com ele, em 2012. Ficamos amigos, mas depois ele sumiu e comecei a perguntar a conhecidos os que teria acontecido com o Fael. A história era que ele tinha sumido por precaução, por conta das ameaças que sofria da polícia. A mãe dele também me confirmou essa história”, conta o diretor. Em 2012, um amigo encontrou o rapaz em Belo Horizonte e ligou para Uchôa. “Fui até ele e a gente conversou. A vida dele estava transformada radicalmente. Nesse momento, me veio a ideia de fazer um filme, algo como um testemunho. Queria fazer algo simples e perguntei se ele aceitava. Ele topou, mas depois sumiu de novo. Foi para São Paulo, e só depois eu soube que ele esteve numa clínica de reabilitação. Só em 2016 voltou para Contagem.”
 
O filme que o diretor imaginou, após esse reencontro, era bem diferente desse que se vê na tela. “Queria fazer algo meio surrealista, uma combinação entre documentário e ficção. Filmei várias coisas e junto com o montador, João Dumas, vi que estava tudo errado. Não podia ser daquele jeito, que estava impedindo que o público se envolvesse com a história de Rafael. O jeito foi recomeçar do zero, fazer tudo de novo, e diferente.”
 
Uchôa conta que foi o momento de deixar a história do seu amigo emergir, dominar o filme. A solução foi colocar Rafael contando sua história, apenas isso, um longo depoimento. “O que ele conta gera imagens na nossa cabeça, não é preciso ter outras imagens além dele contando sua história. E eu não poderia querer criar qualquer distração formal para o espectador.” Isso, no entanto, não quer dizer que o diretor deixou seu filme à deriva. Houve a criação de um texto que ajudou a organizar a narrativa de forma atraente para o público. “Eu não queria que as pessoas se dispersassem, precisava prender a concentração delas.”
 
         Affonso Uchôa, diretor de "Sete anos em maio" (Crédito: Divulgação)

Para isso, Rafael gravou o texto várias vezes e elipses foram inseridas. “Foi feita uma seleção de momentos mais importantes. A história dele é mais longa do que aquela que vemos no filme. Até que encontramos uma narrativa, uma ordem para contar as coisas.” Embora Uchôa conte que fez algumas mudanças, as palavras são do próprio protagonista: “Ele mesmo construiu o seu relato a partir da ordem que criamos.”
 
Nesse processo de construção do filme, Uchôa tinha outra preocupação: “Não queria fazer um filme hiperexperimental, algo hermético, precisava criar um laço, fazer as pessoas ouvirem o que ele tem a dizer.” A história de violência de Rafael é contraposta a algo um tanto lúdico no filme, num determinado momento: a brincadeira infantil de vivo-morto. “Foi algo que me ocorreu apenas nas filmagens. Conseguimos 40 pessoas e armamos a brincadeira.”
 
Sete anos em maio tem apenas 42 minutos, o que Uchôa afirma que, para ele, é o “tempo certo”. “Precisava ser o tempo de ouvir tudo o que ele tem a dizer. Muita gente achava que seria um longa, mas se o filme fosse maior, seria arriscado transformar num experimento formal, e o relato do Fael perderia sua força. E isso eu não queria. Eu achava que daria um curta, uns 20 minutos, mas na montagem fomos percebendo que havia uma força que não podia ser desperdiçada.”















Alysson Oliveira

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