Entrevistas

De Brasília a Berlim, em busca dos sonhos perdidos

Por Alysson Oliveira

Publicado em 05/12/19 às 19h15

A atriz e musicista Ayla Gresta e o diretor Gustavo Galvão no set de Ainda temos... (Crédito: Javier Chiocchio/ Divulgação)

Uma jovem cantora e trompetista e uma vida em busca de rumo. Esse é o ponto de partida de Ainda temos a imensidão da noite, drama de Gustavo Galvão, cineasta brasiliense radicado em São Paulo, que queria “reconstruir Brasília por meio da arte.” No filme, a protagonista cansada da vida de fracassos na capital do país aceita o convite de um amigo e vai para Berlim. Contando quase que exclusivamente com músicos e musicistas no elenco, o longa investiga a juventude do presente, destituída de esperança e sonhos. Nessa entrevista, o diretor comenta, entre outras coisas, sua relação com Brasília, porque escolheu Berlim como cenário e a participação do músico Lee Ranaldo, do Sonic Youth, responsável pela trilha sonora do longa.
 
 
Como surgiu o projeto?
Sempre tive o desejo de fazer um filme sobre músicos. Admiro muito quem tem a habilidade para fazer sons que nos comovem, que mexem com a gente. Fui me alimentando da curiosidade por este universo ao longo de anos, até que encontrei a história ideal para dar vazão a esse desejo. O projeto começou de verdade em 2011, quando escrevi a primeira versão do argumento, após a primeira viagem de pesquisa a Berlim. A primeira versão do roteiro ficou pronta em 2015 e a filmagem aconteceu em 2017. O ano de 2018 foi dedicado à finalização.
 
Como foi feita a escolha do elenco, que conta especialmente com músicos?
No começo, quando o projeto ainda se encontrava na etapa de argumento, era normal pensar em atrizes para o papel principal. Até que comecei a conversar com músicos sobre e percebi neles uma grande frustração em relação a filmes sobre músicos.Eles não se sentem representados por atores que fingem ser músicos. Faz sentido, a música sempre vem de dentro, é a expressão de quem a executa. Assim, decidi investir em músicos de verdade para interpretarem os papeis principais.
Comecei a pesquisa pela protagonista, que tem um perfil muito específico: jovem, toca instrumento de sopro, é de Brasília. Entrevistei algumas musicistas, e a Ayla Gresta (na imagem abaixo) se destacou. Percebi que ela teria disponibilidade física e emocional para se jogar na aventura que é dar corpo e voz para uma personagem tão combativa. Isso aconteceu em meados de 2015. Tendo fechado com ela, comecei a pesquisa para formar a banda como um todo, que só foi concluída em janeiro de 2017. Com todos, fiz uma entrevista para explicar meus planos, mas também para entender se estavam dispostos a experimentar uma abordagem musical diferente da que estão habituados. Escolhi aqueles cujos olhos mais brilharam.
 
Como foi a preparação das atrizes e atores – visto que são músicos sem experiência em atuação?
Ayla já tinha experiência em performance, então atuar não estava tão distante do universo dela. Aliás, todo músico tem em si algo de performer, músicos “atuam” para plateias assim como os atores, embora o façam com outros recursos. O que precisei fazer foi trabalhar essa experiência em potência dramática. Foi um processo longo, que começou com um workshop em dezembro de 2016, mas muito prazeroso. Quando iniciamos a pré-produção, todos já tinham noção do que é atuar para cinema e das minhas maiores referências nesse sentido. Os trabalhos se seguiram em duas etapas depois disso. Em julho de 2017, dois meses antes das filmagens, fizemos um laboratório de preparação vocal com Cristiano Karnas. Em agosto, eles mergulharam na preparação para atuação propriamente dita com Vanise Carneiro. Acompanhei de perto todos esses passos.
 
Você sempre imaginou a segunda parte do filme na Alemanha, ou cogitou outro país?
Sempre imaginei Berlim, desde o começo. Precisava que a segunda cidade da trama fosse uma espécie de espelho de Brasília, que indicasse caminhos para outro desejo antigo meu, como cineasta e como brasiliense: o de reconstruir Brasília por meio da arte. Berlim foi uma escolha natural. A capital alemã e a capital brasileira têm uma história surpreendentemente parecida. Enquanto Berlim foi reconstruída das cinzas da Segunda Guerra, nos anos 1950 e 1960, Brasília foi construída do zero. Os dois processos não só ocorreram em paralelo como foram pautados pelo mesmo ideal, o Modernismo. As duas cidades foram muito machucadas pela História (eles com a guerra e a separação pelo muro; nós, com o golpe militar, que mudou para sempre os rumos do projeto de Brasília, que tinha menos de quatro anos quando os militares tomaram o poder). E só ganharam personalidade própria nos anos 1980, com a música e a explosão da cultura jovem. Um futuro brilhante se anunciava para Brasília, mas isso nunca se concretizou. O que me intriga é porque Berlim seguiu evoluindo desde então, enquanto Brasília tomou rumos muito diferentes. O filme trata de investigar isso tendo como referência o caso de Berlim.
 
 
E como foi filmar lá? Quais dificuldades você enfrentou?
Filmar num país que não é o seu é uma experiência muito enriquecedora. Fizemos algumas reuniões só para entender como pensam os profissionais alemães e para mostrar como nós pensávamos. Aprendemos muito com essas conversas, cruciais para chegarmos afiados ao set. Aprendemos no set, mas também ensinamos; passei a valorizar ainda mais a capacidade de improviso do brasileiro. Foi uma troca mútua. O melhor de tudo foram os amigos que fizemos. Outro aspecto muito interessante foi ver como a cidade dá suporte para as produções, mesmo em detalhes mínimos. Foi muito fácil se adaptar porque encontramos apoio nas pessoas, nas instituições e nas locações em que filmamos. Nem sempre encontramos tamanha disponibilidade e generosidade aqui.
 
O filme fala muito direto a uma juventude do nosso presente, com sonhos, mas sem rumo, num país cada vez mais reacionário. Como vê o filme se relacionando com o presente? 
O que vivemos hoje já se desenhava em 2011, quando iniciei o projeto. O problema é que visualizava isso num contexto local, de Brasília, não exatamente num contexto nacional. É evidente que as mudanças pelas quais o Brasil passou de 2011 até 2017, quando fomos ao set, ecoaram na trama, talvez ela tenha ficado mais amarga do que o pretendido originalmente. Mas já pulsava em mim o inconformismo com o cerceamento da liberdade de expressão, com a hostilidade que crescia a olhos vistos contra a classe artística...
Outra questão que me perturba é a acomodação de quem acha que basta ser ativo online para desempenhar um papel na sociedade. O drama da protagonista decorre da falta de mobilização do público (e da censura, do cerceamento de sua arte, da hostilidade alheia). Os sonhos são inerentes à juventude, talvez os sonhos sejam o que a juventude tem de mais precioso, por isso não podemos nos conformar que seja normal abandonar os sonhos. Temos que lutar por eles. É isso que Karen nos mostra. 
 
Você é um brasiliense que mora em São Paulo. Qual sua relação hoje com Brasília? O quanto disso você colocou dela no filme?
Brasília estará para sempre presente em mim. E não digo isso só porque nasci e cresci lá, é também porque se trata de uma cidade especial, para o bem e para o mal. Essa cidade me ensinou a enxergar o espaço urbano, a me relacionar com as distâncias e a vivenciar as relações de um jeito muito singular. Percebi isso muito claramente na primeira vez que saí de Brasília, para estudar cinema em Madri, entre 2002 e 2003, onde tive uma experiência muito intensa de caminhar nas ruas e viver o que uma cidade tem a oferecer, sendo que Brasília é uma cidade feita para carros. O que coloco nesse filme tem muito da minha vivência pessoal, sem dúvida. Como Karen, já fui refém de um sistema de transporte público deficiente, já sofri com as distâncias... É uma cidade difícil mesmo, só que com um potencial enorme a ser explorado.
 
Como surgiu a participação do Lee Ranaldo no filme? Como foi a parceria com ele para a fazer a trilha?
O Sonic Youth, banda criada pelo Lee, fez a trilha dos meus anos 1990, uma década de experimentação e autodescoberta. Passei muitos períodos na Universidade de Brasília, na Faculdade de Jornalismo, ouvindo sons que estimulassem e me desafiassem, e o Sonic Youth é um desses grupos que me inspiram. No caso da banda do filme, tratei de colocar em prática a premissa que eles tinham que evitar os caminhos fáceis ou cômodos. Foi o profissional perfeito para esse projeto, mas parecia inatingível para nós. Chegamos até ele por um acaso maravilhoso. Ayla foi a um show dele em Brasília, em 2016, e me mandou uma mensagem com um vídeo de lá; na mesma hora, respondi: “Chama o Lee para ser o produtor musical da nossa banda!”. Ela respondeu uma hora e meia depois, com o e-mail dele escrito numa receita médica que ela tinha à mão; eu escrevi para ele, que respondeu, e assim tudo começou. Trabalhar com ele foi uma das experiências mais impactantes da minha vida. Ele tem muito a ensinar, mas queria aprender muito com a gente também, o tempo todo. Essa generosidade se reverteu numa grande amizade.
 
Como foram pensadas e feitas as músicas que os personagens e as personagens cantam e tocam no filme?
Em paralelo à pesquisa para o roteiro, desenvolvi uma extensa pesquisa sobre música, ouvindo de tudo e lendo bastante, com o objetivo de encontrar uma abordagem que fosse singular e que traduzisse, em termos sonoros, a inquietação e a determinação de Karen, a protagonista. Isso tudo foi determinante na escolha do elenco, porque precisava de músicos dispostos a experimentar com a banda que estávamos a ponto de criar. Quando formamos a banda e esta começou a ensaiar, já havia um conceito sólido como suporte. Também é importante entender que a trilha não se resume aos quatro músicos que atuam no filme, montamos um verdadeiro coletivo, que incluiu também dois compositores, dois letristas (eu e a protagonista, Ayla Gresta) e o produtor musical (Lee Ranaldo). Muitas cabeças boas com o mesmo objetivo: criar um som potente.
 
Você está trabalhando em novos projetos?
Sim, estou há anos envolvido com um novo roteiro, que espero filmar em 2020. Chama-se O Vazio de Domingo à Tarde. Já foi aprovado no Fundo Setorial, já temos equipe e elenco principal, já temos tudo desenhado e organizado. Agora só falta a ANCINE sair do coma ao qual foi submetida e pagar os projetos que estão parados lá por falta de nomeação de diretores por parte do governo federal. 















Alysson Oliveira

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