Entrevistas

“Bixa Travesty” e seu grito de liberdade

Por Alysson Oliveira

Publicado em 19/11/19 às 15h47

A artista Linn Da Quebrada em cena do documentário "Bixa Travesty" (Crédito: Vávula Produções/Divulgação)
 
Parceiros na vida e no cinema, a dupla de cineastas Claudia Priscila e Kiko Goifman assina o documentário Bixa Travesty,  que traz ao centro ass cantoras, performers e ativistas Linn da Quebrada e Jup do Bairro. Exibido em diversos festivais, o longa saiu de Berlim com o Teddy, prêmio concedido a filmes como temática LGBTQIAP+. Até agora já rodou por diversos países e recebeu várias outras premiações: Colômbia (Melhor Direção - Festival de Cartagena), Itália (Menção Especial do Júri - MIX Milano; Prêmio Gio Stajano - Lovers Film Festival Torino; EUA (Menção Especial - NewFest LGBTQ FF), entre outros. No Brasil, o filme venceu quatro prêmios no Festival de Brasília, Melhor Filme de Público, melhor trilha sonora, menção honrosa para Linn e Jup, e um outro concedido pela Petrobrás para a distribuição do filme, de R$ 200.000,00, um valor pelo qual a dupla de cineastas briga atualmente na justiça para receber.
 
Nesta entrevista, respondida por e-mail a quatro mãos, Priscila e Goifman falam de trabalhar com Linn, da recepção do documentário pelo mundo e da urgência de se tratar do tema do corpo atualmente – especialmente das travestis e transexuais.
 
Como surgiu o projeto do filme?
Conhecemos a Linn em 2015 durante uma pesquisa sobre coletivos de arte que se apropriavam das ruas para discutir gênero. Na época, Linn fazia parte do Coletive Friccional. A partir daí começamos a acompanhar sua vida através das redes sociais e encontros ocasionais. A decisão de fazer um filme veio quando nos deparamos com a cantora Linn da Quebrada, num show no centro de São Paulo. Percebemos que estávamos diante de uma artista contemporânea, que trata de assuntos atuais de uma forma original. Uma artista que usa o próprio corpo como arte.
 
A gente conhece a Linn por seu ativismo, seu talento, sua arte e tudo o que ela faz. Ela é uma figura grande. Como foi pensando o filme para fazer justiça a tudo o que ela representa? 
Propusemos um trabalho horizontal de trocas de ideias e conceitos. A ideia de convidarmos a Linn para estar ativa criativamente no filme vem da percepção de sua arte que se nutre da sua história de vida, da sua subjetividade. Escrevemos um roteiro que atravessa as bordas do cinema documental, utilizando elementos ficcionais para o filme. Além dos shows, o filme traz “a intimidade” da personagem. Linn indicou personagens e também lugares para filmagens. O filme registra encontros dela com pessoas que compõem sua rede afetiva, seus amigos e a sua mãe. 
 
Além disso, criamos uma dinâmica que estimulava uma produção contínua de ideias ao longo das filmagens. Muitas cenas que foram feitas neste impulso criativo sobreviveram na montagem final. São olhares de pessoas diferentes que compõem esse filme.
 
E como foi a participação dela no documentário?
Propusemos uma criação coletiva, para que ela pudesse escolher como seria retratada. Fizemos muitos encontros para discutir ideias que foram surgindo e conseguimos abraçar e seguir com muitas delas. Queríamos criar nesse território pantanoso, onde o documentário e a ficção se entrelaçam. Decidimos fazer um filme pautado na ideia de liberdade de comportamento e do corpo que a Linn traz.
 
 
O filme já foi exibido dentro e fora do Brasil, ganhou diversos prêmios, inclusive. Como tem sido a recepção? Especialmente fora do país, onde as pessoas não devem conhecer muito da Linn.
O filme teve estreia no Festival de Berlim, de 2018, onde recebeu o prêmio Teddy de melhor longa documentário. Depois dessa experiência foi exibido em mais de cem festivais e contamos com mais de vinte prêmios. Em todas as sessões que pudemos acompanhar, a recepção foi bastante calorosa, gerando debates instigantes. Acreditamos que o filme aborda um assunto contemporâneo de grande interesse, o corpo. Aliado a isso, a performance artística e o discurso potente da Linn da Quebrada ultrapassam barreiras linguísticas e culturais.
 
Qual a importância de se ter um filme como Bixa Travesty nesse momento em que o país enfrenta uma grande onda de conservadorismo e reacionarismo?
Existe uma onda conservadora e moralista no Brasil. São evidentes alguns desejos de retrocessos. Falar desse tema hoje é urgente, estamos diante da luta por direitos de pessoas que sofrem violências simbólicas e físicas diariamente. O Brasil é o país que mais mata travestis e pessoas trans no mundo. Bixa Travesty é um filme sobre esses corpos que, para muitos, inclusive para o presidente Bolsonaro, não deveriam ocupar espaços públicos.
O filme é um grito de liberdade contra tudo que oprime, contra tudo que tenta reduzir os entendimentos dos corpos à ideia heterocisnormativa e contra tudo que violenta os direitos humanos. É um grito contra esse governo de extrema direita. Seria muito interessante, e ousamos dizer que seria até didático, que o atual presidente e seus ministros pudessem assistir ao filme. Aliás, fica o convite, já que teremos exibição em Brasília.
 
Quantas horas de material bruto vocês tinham? Como foi pensada a montagem, junto com a montadora Olivia Brenga?
O processo de filmagem durou uns quatro meses, tudo em São Paulo. Nesse período filmamos shows em vários ambientes e situações diversas e fomos dando forma ao roteiro através dos encontros de Linn com seus amigos. Optamos sempre por parar um pouco, pensar nos caminhos, assistir ao material.
A montagem com a Olívia, nossa parceira em outros projetos, foi também  um momento de troca, onde testamos muitas possibilidades de estruturas. A criatividade dela foi decisiva para entendermos nosso material e chegarmos à narrativa fílmica.
 
O filme trata de questões polêmicas. Vocês sentiram, em algum momento, algum preconceito ou uma espécie de censura?
Esse filme foi realizado com o “Prêmio de Qualidade” que recebemos da Ancine, e também da coprodução com o Canal Brasil. No Brasil,  estreamos no Festival de Brasília e recebemos o prêmio de Melhor Filme de Público e o concedido pela Petrobrás para a distribuição do filme mas, com a troca de governo, o prêmio foi cancelado. As negociações seguem agora juridicamente. Diante disso, começamos a tentar outros apoios para o lançamento. Isso atrasou todo o nosso cronograma de distribuição e o filme entrou em outros países antes de chegar aqui, como Argentina, França e Reino Unido. Agora finalmente estaremos em cartaz e esperamos que esse filme seja um instrumento político simbólico para a garantia da liberdade de expressão nesse país
 
O filme inclusive terá diversas exibições em CEUs, chegará a um público que não iria normalmente ao cinema, Qual a expectativa de vocês para levar “Bixa Travesty” e Linn a essas pessoas?
Além da programação nos CEUS, faremos algumas sessões gratuitas, como na Fabrica de Cultura do Capão Redondo e na Ocupação 9 de julho. Estamos fazendo rodas de conversas e distribuição de ingresso gratuito em centros LGBTIs e casas de acolhimento. O filme trata de corpos travestis e queremos que esses corpos ocupem as salas de cinema, mas acreditamos que o nosso publico é amplo. Quando falamos sobre corpos trans, não estamos mais falando para um grupo específico, para um gueto. Esse é um assunto que deve ser debatido por toda a sociedade. São esses corpos trans, não binários, travestis, que, ao ocuparem espaços, colocam em dúvida a “naturalização” dos corpos normativos. A partir do momento que nos deparamos com esses corpos desobedientes, podemos ver o mundo além das caixas do binarismo que nos foram impostas. 















Alysson Oliveira

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